O vendaval árabe

Nos dossiês de Outras Palavras, pistas para compreender o movimento que está sacudindo a geopolítica do Oriente Médio, questionando velhas concepções de política e renovando a ideia de Revolução

Dois meses depois de iniciado, o vendaval que sacode os países árabes continua vivo, potente, desafiador. A bola da vez parece ser Bahrein, onde os funerais de 22 manifestantes mortos pelas forças de segurança transformaram-se, nesta manhã (18/2), em novos protestos – que pedem agora o fim de uma monarquia de 200 anos. A revolta também intensificou-se no Yêmen, Jordânia e Líbia (desafiam a brutalidade da polícia, que matou cerca de vinte pessoas em Benghazi, na última noite). Há inquietações crescentes na Argélia e Irã. No Cairo, onde a revolução derrubou o ditador Hosni Mubarak há uma semana, a Praça Tahir voltou a ser ocupada nas últimas horas (veja foto). É a celebração da vitória, mas sobretudo um alerta às Forças Armadas, que assumiram momentaneamente o poder. A multidão exige liberdade para os presos políticos, fim das leis de exceção, marcha acelerada para uma nova democracia.

Congelado no tempo por décadas, vítima da condição de maior reservatório mundial de petróleo – esta commodity que movimenta e simboliza o capitalismo –, o Oriente Médio quer por-se de pé. O futuro da revolta é, neste momento, inteiramente incerto. Mas ela tem potencial para sacudir três grandes certezas que pesaram sobre o século 20.

A primeira é a condição submissa a que os produtores de matérias-primas foram relegados, na divisão internacional de trabalho. Para que o petróleo fluísse barato e alimentasse a indústria e o consumo dos “países centrais”, o Oriente Médio sofreu, a partir de 1945, uma sequência infernal de golpes de Estado, intervenções estrangeiras, instalação de bases militares, domínio das superpotências.

Nos últimos anos, a depressão dos preços foi revertida parcialmente: a era do petróleo barato parece estar no fim, devido ao esgotamento progressivo das reservas e ao aumento do consumo mundial. Mas os dólares que irrigaram a região não aliviaram a pobreza e a opressão social. Daí, por exemplo, o terremoto no pequeno Bahrein, cuja renda per capita (34,6 mil dólares ao ano) está entre a da Alemanha e a da França – e é mais de três vezes superior à brasileira…

A revolta é, em segundo lugar, mais xeque contra concepções envelhecidas e desgastadas de política, para as quais a democracia só pode ser exercida por meio da representação. Em 2001, o I Fórum Social Mundial havia anunciado um alternativa: as ações autônomas em rede, a partir das quais os cidadãos recriam a vida coletiva todos os dias – não apenas no momento em que depositam um voto em urna. Mais tarde, ao longo da primeira década do século, a sociedade civil serviu-se da internet e da comunicação digital para resistir com sucesso a investidas do poder. Foi assim que se frustrou a tentativa de golpe midiático-militar na Venezuela (2002); ou que se denunciou (e derrotou) a selvageria da invasão israelense contra o Líbano (2006), entre muitos outros exemplos.

O vendaval árabe é um enorme passo adiante. Na Tunísia, e particularmente no Egito, o papel dos intermediários políticos (partidos, movimentos sociais e ONGs tradicionais) foi secundário. A sociedade articulou-se de modo autônomo não mais para resistir ao poder – e, sim, para derrubá-lo.

Esta grande conquista remete a uma terceira novidade, relacionada ao próprio sentido da palavra revolução. Entre 1917 (Rússia) e 1979 (Nicarágua e Irã), os movimentos revolucionários depunham um poder para apear imediatamente outro – que supostamente representava das maiorias. A partir de 1989, houve uma reviravolta regressiva. Chamou-se de revolução processos que, embora frequentemente apoiados pelas maiorias, depunham um regime burocrático-ditatorial para instalar uma dominação à moda ocidental. Foi o caso dos terremotos que dissolveram o antigo “bloco soviético” (1989-92) e das “revoluções coloridas” na Europa de Leste e Ásia Central (2000-2005).

As revoluções árabes distanciam-se claramente de ambos modelos. Elas parecem dispostas a instalar, em lugar das tiranias, algo tão difuso (e tão potente…) quanto a autonomia social. Será possível fazê-lo, no estágio de organização e articulação em que se encontram as sociedades hoje? Por meio de que mecanismos?

A resposta é incerta; mas a novidade, profundamente alentadora. Outras Palavras vem acompanhando desde o início o vendaval árabe. Publicou cerca de trinta textos a respeito, nas últimas semanas. Agora, oferecerá um conjunto de dossiês temáticos sobre o assunto. Será a primeira de uma série de novidades que, modestamente, também pretendemos oferecer, ao longo de 2011.

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Um comentario para "O vendaval árabe"

  1. Karla SM Coutinho disse:

    Difícil de comentar, já que retrata aparentemente de forma integral a paisagem atual, que só induz dúvidas,. Se há certeza sobre o momento, quisera que ela seja, como o texto supõe, da visão, ainda que difusa, da tal autonomia social. Ainda que haja vislumbres de participação sindical em grande escala ao menos no Egito, não é?Prenúncio de novos tempos, vindo de antiquíssimas sociedades?
    Um rico momento, decididamente.
    Obrigada por tantos artigos de tamanho interesse.

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