Das ditaduras imperiais a uma nova democracia

Nossos textos apontam aspectos pouco conhecidos das revoluções em curso no mundo árabe. E revelam algo que a mídia tenta esconder: o apoio do Ocidente (e do FMI…) às ditaduras “estáveis”, agora em colapso

Por que, de um momento para o outro, tantos regimes árabes, que pareciam tão irremovíveis, estão entrando em colapso? Qual o sentido geral das mudanças? O primeiro dossiê de Outras Palavras traz cinco textos a respeito destas questões cruciais. Teoria da revolução árabe: 5 apontamentos abre a série. É da lavra de Horace Campbell, jamaicano, professor (na Syracuse University, de Nova York) e analista renomado sobre política da África. Foi publicado no excelente site Pambazuka, dedicado a temas do continente.

Campbell chama atenção para algo pouco presente nas análises convencionais: os mesmos governos ocidentais que se apresentam como porta-vozes e guardiões da democracia ofereceram apoio prolongado às ditaduras que estão ruindo. Parte delas sempre manteve boas relações com Estados Unidos, Inglaterra ou França. Outras (como Líbia, Argélia e Yêmen) estavam na órbita da União Soviética ou do movimento das nações “não-alinhadas” — mas foram tranquilamente incorporadas, após 1989. Todas eram apresentadas, nos últimos anos, como “baluartes da estabilidade e do antiterrorismo”.

Do ponto de vista econômico, as ditaduras estavam enquadradas à ortodoxia das instituições financeiras internacionais. É sintomático que Egito e Tunísia, as primeiras a cair, tenham se submetido a “ajustes fiscais” exigidos pelo FMI e Banco Mundial. Os planos foram considerados casos de “sucesso macroeconômico” — mas ampliaram a pobreza, a desigualdade e o desmonte dos serviços públicos e contribuíram para a revolta atual.

Num segundo momento de seu artigo, Campbell destaca a originalidade dos movimentos em curso. “A característica saliente na Tunísia e no Egito tem sido a ausência de partidos ou líderes de vanguarda”, diz ele. Estas revoluções “estão dando origem a um novo surto de energia criativa e tornamdo-se uma escola de novas técnicas revolucionárias para o século 21”.

Já em A longa caminhada da revolução árabe, de Vishay Prashad, a abordagem é outra. Especialista em História dos países do Sul, o autor procura estabelecer nexos entre as revoltas de hoje e o esforço de décadas dos países árabes, para superar a condição de nações submissas às grandes potências ocidentais. Esta trajetória passa, segundo Prashad, pela onda antiimperialistas que se abriu ao final dos anos 1950, chegou ao auge nos 70 e declinou na década seguinte. Há, porém, uma diferença marcante. Agora, quem conduz a luta pela liberdade não são governos autoritários (ainda que “socialistas”), nem os militares — mas a ação autônoma, em especial dos jovens e das mulheres.

O escritor e filósofo Bruno Cava, integrante da equipe de Outras Palavras, desenvolve, em Revolução Árabe: só a luta ensina, um ponto de vista complementar. As novidades trazidas pela revolução árabe, aponta ele, questionam duas concepções muito presentes entre a própria esquerda. A primeira é a noção de vanguarda, presente entre os que “se julgam encarregados de anunciar a boa-nova e guiar as massas ao reino da justiça”. Em consequência, “dividem a sociedade em fiéis e pecadores, iluminados e iludidos, os últimos suscetíveis de conversão por panfletos, almanaques e cursos de domingo”. A segunda é a “esquerda apocalíptica”, que “passou as duas últimas décadas lamuriando a derrota”, julgando que “todas as formas de revolta estariam capturadas” e que restava apenas “refugiar-se em teorias sobre o estado de exceção (…), à espera de algum evento messiânico”. Para Bruno Cava, ambas visões estão sendo contrariadas pelas ruas árabes, que “não anunciam verdades a um futuro longínquo, mas se povoam de potências e modos de sentir — aqui e agora”.

Dois textos do repórter brasileiro Pepe Escobar (atualmente no Asia Times Online) completam nosso primeiro dossiê. Em O fator islâmico na revolução árabe, redigido quando se acelerava a desintegração do governo Mubarak, no Egito, Pepe desmonta a ideia segundo a qual o Oriente Médio viveria um surto de “fervor islâmico”. Já em Revolução dos pobres, não do Islã, ele aprofunda o ponto de vista e sustenta: “a dicotomia artificial que inventaram para o Oriente Médio — ou ditadura pró-ocidental ou jihadismo — jamais passou de um truque barato. Assim se escreve a história real: um país de 80 milhões, coração do mundo árabe, põe abaixo, afinal, o Muro do Medo e passa para o lado do autorrespeito”.

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2 comentários para "Das ditaduras imperiais a uma nova democracia"

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