O terrorismo, a extrema direita e o suicídio europeu

De um lado, grupos cujo fanatismo nega próprio Islã. De outro, continente que convive cada vez mais com extrema-direita e que agora vê, como ameaça… o Syriza

Por Flávio Aguiar, no Blogue do Velho Mundo

150112-Pegida

Manifestação do grupo Pegina, xenófobo e anti-islâmico, reúne 18 mil em Dresden, Alemanha. Cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional e junto à opinião pública

De um lado, grupos cujo fanatismo nega o próprio Islã. De outro, um continente que convive cada vez mais com a extrema-direita e que agora vê, como ameaça… o Syriza

Por Flávio Aguiar, no Blogue do Velho Mundo

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo francês, em Paris, que também provocou a morte de um funcionário da revista, de dois policiais no ato e possivelmente de mais um em tiroteio posterior, é apenas a ponta de um iceberg.

A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio. Não é uma bomba comum, porque casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela já está explodindo. Nas pontas da bomba estão duas forças antagônicas, com práticas diferentes, porém com um traço em comum: a intolerância herdeira dos métodos fascistas de antanho.

De um lado, estão pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos. Os contornos e o perfil destes grupos estão passando por uma transformação – o que aconteceu também nos Estados Unidos, no atentado em Boston, durante a maratona, e no Canadá, no ataque ao Parlamento, em Ottawa.

Cada vez mais aparecem “iniciativas individuais” nas ações perpetradas. Este tipo de terrorismo se fragmentou em pequenos grupos – muitas vezes de familiares – que agem “à la cria”, como se dizia, em ações que parecem “espontâneas” e até “amalucadas”, mas que obedecem a princípios e uma lógica cuja versão mais elaborada, para além da “franquia” em que a Al-Qaeda se transformou, é o Estado Islâmico que se estruturou graças à desestruturação do Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política consuetudinária como meio de expressão de reivindicações e direitos: negam, no fundo, a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito à vida, como fica claro no gesto assassino que vitimou o Charlie Hebdo.

Do outro, estão os neofascistas – ou antigos redivivos – que se agarram à bandeira do anti-islamismo também fanático como meio de arregimentar “as massas” em torno de si e de suas propostas. Agem de acordo com as características próprias dos países em que atuam, mobilizando, de acordo com as circunstâncias, as palavras adequadas. No Reino Unido, criaram o United Kingdom Independence Party – UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, nome malandro que oculta e ao mesmo tempo carrega a ojeriza pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale da família Le Pen, que mobiliza o velho chauvinismo francês que lateja o tempo todo desde o caso Dreyfus, ainda no século XIX. Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – Pegida – que se declara de “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”, procurando uma fachada pseudo-universalista para seus preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes.

Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou econômico o bode-expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti (ditos “ciganos”). Na Itália, este fascismo latente organiza-se com o nome de “Liga Norte”, mobilizando o preconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente mais empobrecido. São movimentos que, embora busquem por vezes o espaço da política partidária, como é o caso do UKIP e da Front Nationale, ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão a negação da política como espaço universal de manifestação de direitos e reivindicações. Negam a política como campo de manifestação das diferenças, barrando ao que consideram como alteridade o direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns da cidadania. O exemplo histórico mais acabado disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder pelas urnas, fechou-as em seguida.

O caldo de cultura em que vicejam tais pinças contrárias à vigência dos princípios democráticos é o de uma crise econômico-financeira que se institucionalizou como paisagem social. Na Europa a tradição é a de que crises deste tipo levam a saídas pela direita. O crescimento do UKIP e da Front Nationale, partidos mais votados nas respectivas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2013, é eloquente neste sentido. Na Alemanha as manifestações de rua do Pegida vêm crescendo sistematicamente, atingindo o número de 18 mil pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a seu (também criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos.

Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o Pegida reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades. Mas pelo lado da exprema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do Pegida) e junto à opinião pública. Na Alemanha, recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam “anti-islâmicos”.

Como ficou feio alegar motivos racistas, o que se alega agora no lado intolerante é a “defesa da religião” ou a “incompatibilidade cultural”. Os assassinos do Charlie Hebdo gritavam – segundo testemunhas – estarem “vingando o profeta”, referência a caricaturas de Maomé consideradas ofensivas. Na outra ponta jovens da Front Nationale, também no ano passado,  recusavam a pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo muçulmano – em “seus territórios”, não na Europa agora dita “judaico-cristã”, puxando para seu aprisco a etnia ou religião que a extrema-direita europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo de concentração e ao extermínio.

Os partidos e políticos tradicionais, em sua maioria, estão brincando com fogo, sem se dar conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por exemplo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia são declaradamente fascistas, homofóbicos e até antissemitas. Preferem exacerbar o sentimento antirrusso e anti-Putin. Durante mais de uma década, as duas agências do serviço secreto alemão concentraram-se em esmiuçar a vida dos partidos e grupos de esquerda (além dos possíveis terroristas islâmicos) e negligenciaram criminosamente o controle sobre os grupos e terroristas alemães. No momento, o “grande terror” que se alastra no establishment europeu não é o de que a extrema-direita esteja em ascensão, embora isto também preocupe, mas é o provocado pela possibilidade de que um partido de esquerda, o Syriza, vença as eleições na Grécia (marcadas para 25 de janeiro), forme um governo, e assim ponha em risco os sacrossantos pilares dos planos de austeridade.

Nega-se o pilar da democracia: contra o Syriza agitam-se as ameaças de expulsão da Grécia da zona do euro e até da União Europeia; ou seja, procura-se castrar a livre manifestação do povo grego através da chantagem política e econômica. Se as coisas continuarem como estão, poderemos estar assistindo o suicídio da Europa que conhecemos. O que nascerá destes escombros ainda se está por ver, mas boa coisa não será — nem para a Europa, nem para o mundo.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

5 comentários para "O terrorismo, a extrema direita e o suicídio europeu"

  1. Tarcísio Costa disse:

    Ótimo artigo! A questão é muito delicada, por isso há de se louvar as atitudes de Angela Merkel que vem combatendo com veemência a extrema direita e defendendo os direitos dos imigrantes.

  2. Blasco Miranda de Ourofino disse:

    Os acontecimentos com os dirigentes da revista francesa não foram corretos , MAS SE COMPARADOS COM OS ATOS DE TERRORISMO PRATICADOS DIARIAMENTE PELOS EUA E SEUS ALIADOS EUROPEUS CONTRA PAÍSES COMO O AFEGANISTÃO, IRAQUE, SOMALIA, IEMEN, SUDÃO, LÍBIA, E OUTROS, SÃO COMO UMA GOTA DÁGUA NO OCEANO. Pode-se dizer que este ato na França ,não passa de um simples ato de desespero de quem não possue forças militares suficientes para conter o poderio desses países assassinos.
    ,

  3. Norbert disse:

    excelente artigo concordo no geral… mas tirar esta conclusão sobre A. Merkel é totalmente inexplicavel…. Esta mulher junto com aquele governo que ela representa, é o principal responsavel pela situação da Europa – muito bem descrita no artigo… a islamofobia é um ingrediente basico do garrote neoliberal .e da aliança submissa aos EUA e á OTAN..do qual a senhora AM é, junto com o nefasto Cameron, a principal defensora na UE.
    O fascismo e a direita na Europa é produto de 25 anos de destruição do Estado de bem estar social, construido nos anos posguerra pelas forças socialdemocratas… quando eles ainda eram de fato socialistas… e a islamofobia servia muito bem para apontar uma minoria como responsaveis da crise social que se aprofundou durante as ultimas decadas.
    Hoje quando a propria cria começa a ameaçar a sociedade como um todo.. que não venha esta senhora para querer defender o direito dos imigrantes… Ela é a personificada hipocrisia da politica da UE e uma das pricipais responsaveis pela situação que vivemos hoje na Europa!

  4. Norbert disse:

    a pesar de concordar basicamentecom este artigo, há um aspecto que precisei repensar em relação ao movimento alemão Pediga… de incicio.. devido aos seu nome estupido…considerei isto simplesmente um movimento de direita… ultimamente, entretanto, tive que constatar que este movimento é muito mais um verdadeiro arco iris de tendencias e opiniões, que tem como fundamento a insatisfação geral da população alemã com o governo Merkel e com a imprensa de massas que prega uma repulsiva, hipocrita e mentirosa submissão aos EUA e a expansão agressiva da OTAN… a propaganda antirussa… o apoio ao governo golpista da Ukrania, as sanções e onomicas contra Russia (que interessam exclusivamente os EUA e causam grandes danos a economia alemã e europeia), as declarações imorais do presidente GAUCK e a politica economica de austeridade que já atinge não somente os gregos, mas tambem o trabalhador alemão.
    Assim, os manifestantes que aparecem em massa e aparecerão ainda muito mais nos proximos meses, representam os insatisfeitos com todos estos assuntos mencionados… e vi entrevistas com muitos particpantes cujos motivos de particpar na manifestação não tem nada ver com o Islam.
    Somente queria mencionar isto, porque me parece que na Alemanha, diferente a França e Inglaterra… tambem assistimos a um fortalecimento do partido die Linke… um partido de esquerda muito consitente que começa a absorber as bases da velha SPD desacreditada…A Merkel começa a ter medo da Pediga não porque ela tem medo da direita…estes sempre foram ate protegidos pelo serviço secreto alemão….ela está preocupada porque percebe que se trata de movimiento baseada numa ampla e crescente insatisfação do povo alemão com sua politica economica e politica externa.

  5. gleison disse:

    Bom artigo, porém convido vc a ler o corão e ver se o islã não prega a violência que está aí. Leia as recomendações do profeta Maomé a respeito do tratamento com os infiéis (Pessoas cuja religião não é o Islã). O terrorismo interpreta o islã tal como ele é.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *