Nova Palestina: quem são os sem-teto que protestam em São Paulo

Acampamento de 8 mil famílias na Zona Sul revela que programas oficiais não resolveram déficit habitacional. Assembleias diárias reúnem 4 mil pessoas

Por Camila Maciel, na Agência Brasil

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Acampamento de 8 mil famílias na Zona Sul revela que programas oficiais não resolveram déficit habitacional. Assembleias diárias reúnem 4 mil pessoas

Por Camila Maciel, na Agência Brasil

Programas como o “Minha Casa Minha Vida” são suficientes para assegurar o Direito à Habitação no Brasil? Ao interromperem o tráfego da Marginal Pinheiros — uma das principais vias rápidas de São Paulo — milhares de pessoas ofereceram, esta madrugada, uma resposta sonora à pergunta. Elas são parte de um elemento novo na paisagem da metrópole. Na região do Jardim Ângela, a 25 quilômetros do Centro, uma área urbana imensa (um quilômetro quadrado, ou cem campos de futebol) foi ocupada em outubro, por famílias participantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto — MTST. A novidade alastrou-se rapidamente. Hoje, 8 mil famílias já habitam o que chamam de “latifúndio urbano” e há mais 2,5 mil inscritas. Formam uma comunidade mais populosa que milhares de municípios brasileiros. Deram, ao lugar em que agora moram, o nome significativo de Nova Palestina.

Estão em área de proteção ambiental, próxima à represa de Guarapiranga. O prefeito Fernando Haddad, acossado pela mídia e atingido por decisões judiciais que reduziram o orçamento do município, afirma que não tem recursos para desapropriar a área — mas não oferece alternativas. Por isso, o protesto de hoje. Na reportagem abaixo, a jornalista Camila Maciel descreve a área e a notável mobilização de seus ocupantes, que realizam assembleias diárias com 4 mil pessoas. organizam-se em 21 grupos de trabalho e cuidam, por si mesmas, de tarefas como alimentação coletiva, limpeza e segurança. (A.M.)

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Em um terreno de aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, na zona sul da capital paulista, quase 8 mil famílias acampam em barracas de lona, desde o dia 29 de novembro, para reivindicar o direito à moradia digna. A ocupação, que começou há pouco mais de um mês, com cerca de 2 mil famílias, já quadruplicou. Além disso, cerca de 2,5 mil famílias aguardam vaga em uma lista de espera, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Para os coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o rápido crescimento da comunidade, batizada de Nova Palestina, mostra como é grande o déficit habitacional da região. “As pessoas que estão aqui não têm condições de pagar aluguel, algumas moravam na rua, outras na casa de parentes. Aqui, eles têm a esperança de conseguir um teto. É uma região muito carente”, explicou Helena Santos, coordenadora estadual do MTST. Ela, que é militante há cinco anos, conta que nunca viu uma procura tão grande por vaga em uma ocupação. “Já participei de outras e essa é a maior”, disse. A ocupação é dividida em 21 grupos, cada um com coordenação própria. Cada área possui uma cozinha comunitária e dois banheiros, sendo um masculino e um feminino.

Diariamente, cerca de 4 mil pessoas participam de uma assembleia no acampamento, na qual são repassadas informações sobre as negociações por moradias definitivas, dentre outras decisões. O estatuto da ocupação, por exemplo, foi aprovado em assembleia. Entre os pontos acordados, está a proibição do consumo de bebida alcoólica, de drogas e também agressões. “Caso ocorra algum problema, nós conversamos e, caso continue, a pessoa pode ser convidada a se retirar”,  destacou.

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Tauana Oliveira da Silva, de 18 anos, vive em um barraco com o marido e os três filhos – o mais novo de apenas 3 meses. “É a primeira vez que participo de uma coisa assim. Foi meu marido que trouxe a gente. Foi a única forma que a gente viu de ter uma casa”, relatou. Marx William, 24 anos, também trouxe os poucos pertences que tem para viver com a mãe e os filhos na ocupação. “A gente pagava R$ 450 de aluguel, sendo que nossa renda é R$ 800. Ficava faltando [dinheiro] para as outras coisas”, destacou.

Helena explica que estruturas de alvenaria não são permitidas e que o objetivo é conseguir moradias dignas para os que participam da mobilização. “Nossa primeira ideia é construir as casas aqui. Se a prefeitura disser que vai fazer, saímos. Também pedimos auxílio-aluguel, mas já disseram que não tem verba”, disse.

A destinação do terreno é objeto de conflito com a prefeitura, pois um decreto municipal estabelece que a área deve ser transformada em um parque público. “A maior parte não pode ser usada para edificar moradias, porque é uma área de preservação ambiental e o proprietário tinha, sob pena inclusive de responder por crime ambiental, que cuidar para que não fosse invadido”, declarou o prefeito Fernando Haddad. Ele destacou que, neste momento, não há ação cabível ao governo municipal, por se tratar de área privada. Além disso, não há recursos para o processo de desapropriação.

O movimento, por sua vez, questiona a posição da prefeitura, pois a classificação da área como Zona de Proteção e Desenvolvimento Sustentável (ZPDS) permite edificações em 10% do total, o que corresponderia a mil moradias. “Agora, inclusive, nós estamos ocupando somente a área permitida. Não houve nenhum desmatamento para colocar as barracas”, disse Helena. O MTST propõe, ainda, que o terreno seja transformado em Zona Especial de Interesse Social 4, o que permitiria a construção de edificações em 30% da área. Diante do impasse, o movimento planeja um protesto para esta sexta-feira (10), ainda sem horário e local divulgados.

 

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12 comentários para "Nova Palestina: quem são os sem-teto que protestam em São Paulo"

  1. Mario Rossoni disse:

    Não podemos esperar de governo algum uma solução final para tal problema. Isso seria um pensamento utópico. Temos que lutar para que os governos amenizem cada vez mais o problema. Resolver é impossível materialmente. Não é um problema brasileiro e sim mundial. O Planeta não suporta níveis razoáveis de vida para todos em padrões capitalistas. Muitos criticam Cuba, mas Cuba resolveu o problema. Lá ninguém sofre por falta de moradia, porém, para que isso pudesse ser feito, todos tiveram que se contentar com padrões bem mais baixos de vida. Mesmo sendo um padrão baixo, é um padrão melhor do que milhares de miseráveis pelo mundo. Logo, enquanto estivermos falando de Capitalismo, não podemos falar de solução final para problemas sociais. O Governo Federal vem diminuindo bastante esse deficit de moradias, na medida do possível e tem diminuído bem mais que qualquer outro governo um dia diminuiu. Então querer culpar o Governo Federal por um problema mundial é ingenuidade, é ter uma visão micro da sociedade.

  2. Paulo Piza disse:

    Em parte sou obrigado a concordar com Mario Rossoni.No entanto a morosidade do poder público,a corrupção na iniciativa privada e a falta de interesse da mesma em ajudar a solucionar estes problemas (principalmente porque só pretendem lucros absurdos)impedem que se agilize uma solução pacífica e minimamente satisfatória para todas as partes envolvidas.A sociedade tem que entender que este é um problema que afeta a todos,direta ou indiretamente.Enquanto não houver este entendimento as coisa tendem a piorar.Este problemão se acumula a décadas mas isto não é desculpa para que continue andando a passos de tartaruga!

  3. maria batista disse:

    Não esqueçam de fazer um projeto de urbanização, com galerias para esgoto e sua depuradora, rede subterrânea de água, luz, telefones e as tvs a cabo da vida, não se esqueçam de por no projeto também a creche, as escolas com teatro, conservatório musical, UBS< AMA< AME e o HOSPITAL, e também um clube com piscinas, quadras para diversos esportes, prá resumir padrão FIFA, e não padrão FODAM-SE.

  4. A situação dessas pessoas são calamitosas sim. Mas infelizmente é só assim que conseguimos pressionar as autoridades para haver alguma modificação nesse caso dos sem tetos.
    Eu só acredito (infelizmente) que é através das passeatas e protestos que conseguiremos mudar essa situação.

  5. Maria Regina Cortez disse:

    a bandeira de luta é essa…utópica não digo, é dessa forma que o movimento faz pressão frente ao poder público e abre possibilidades de negociação e tb propõe ações de enfrentamento à questão da habitação….e dá lhe movimento organizado, quem não se organiza não conquista.

  6. Jorge Braga disse:

    Resolver o problema de moradia não é impossível. Tem de se conduzir uma reforma urbana com urgência e parte dessas pessoas, poderiam morar em outras cidades, que também tivessem a estrutura necessária.

  7. vanessa oliveira disse:

    INFELISMENTE O PODER PUBLICO SO ATENDER O MOVIMENTOS SOCIAS E A SUAS REDIFICAÇÕES DESSA FORMA NA PRESSÃO.CLARO QUE HA UM DESGATE POR AMBAS PARTE MAIS SE NÃO FOR ASSIM ELES NÃO HAJE E PRINCIPALMENTE QUANDO SE FALA EM MORADIA QUE UM DOS DIREITOS NA CONTITUIÇÃO BRASILEIRA MAIS VIOLADAS.SOU UMA DAS LIDER DO MTST EM SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE PE E SEI E ENTEDO A LUTA TEM MINHA CASA PROPRIA MAIS LUTO POR QUEM NÃO TEM POIS SEI QUE SE NÓIS URNIMOS FORÇA IREMOS CONSEGUIR MUITO.O BOI NÃO CONHECER A FORÇA QUE TEM SE SOUBESE NÃO DEIXARIA SER DOMINADO,A MESMA COISA É O POVO SE SOUBESE A FORÇA QUE TEM MUDARIAMOS MUITA COISA…..

  8. Altino Oliveiroa disse:

    Aquilo é uma farsa, onde já se viu sem teto causar transtorno ao transito devido estacionar seu carrão em local inadequado, “sem teto” deixar a sua casa própria e ir pegar um pedaço de terrados outros,para depois negociar e se fazer no oportunismo?
    Procurem conhecer isso lá de perto, como nós que estamos sofrendo as consequências dessa zorra conhecemos, aí então quero ver se continuarão tendo peninha deles.
    E eita justiça morosa essa nossa.

  9. Odair Jose Luciano disse:

    Falta vontade politica. É preciso a união dos governos federal,estadual e municipal. A área central de São Paulo degradada é um bom local para absorção dos ocupadores da Nova Palestina. Revitaliza a região e poupa os mananciais. Local da fonte de trabalho de prestadores de serviço. A água é fundamental para sobrevida da metrópole paulista. Precisa poupar os mananciais. Discernir bem quem precisa e separar os profissionais da ocupação.É visível nitidamente que lá tem profissionais de ocupações orquestradas. Bons carros estacionados, roupas de grife, mesmo que vermelhas. Pelo biotipo não são nenhum miserável.Colocam na frente os miseráveis para sensibilizar as pessoas, mas não querem também a solução, pois fizeram desta atividade uma profissão. É preciso saber quem os patrocina, em paralelo os governos deixarem a demagogia e enfrentarem o problema de frente e não se acomodarem deixando como sempre a situação se acomodar por conta própria.Com este tipo de politica que provocou o caos nos mananciais, e sem solução agora enfrentamos uma onda de ocupações. Tivemos vários partidos no governo da cidade paulista, PSDB,PT,DEM, mas todos eles deixaram atras o rastro da miséria. Todos eles tiveram seus nomes relacionados com algum caso de corrupção.
    O aproveitamento da parte central degradada reduz o tempo de transporte, aumenta o tempo de lazer, poupa os mananciais. A cidade de São Paulo sozinha não consegue absorver um problema social do Brasil todo. É preciso senso. Solução com o caos total não é solução! Dividir a miséria não é igualar de forma racional as pessoas.
    Urgente é preciso desativar este barril de pólvora. Neste momento que precisamos de políticos capazes para solução. É muito fácil ser politico em jantares, que manipulam seus salários, que colocam familiares nas nossas costas, que vendem demagogias das soluções sociais, que enriqueceram nas costas dos paulistanos. Estes senhores causam mais danos que os ocupadores dos mananciais. Por isto que falta moral para solução.

  10. Jorge Luiz Silva disse:

    O problema maior é que se forem investigar a fundo vão verificar que muitos que lá estão não precisam, já possuem casas, comércios e outras coisas mais. Pegam pessoas para representá-las. Pelo que temos ouvido falar na região, já existe no local pessoas comercializando alimentação, vendendo áreas invadidas e outras coisas mais. O problema é saber quem realmente está por trás disso. Está virando moda. Próximo da região, no Jardim São Luis, já foi promovida nova invasão. Aonde isso vai parar. É muito fácil achar que o governo tem que dar área de moradia pra todo mundo. Os realmente necessitados merecem toda nossa consideração e é preciso buscar efetivamente uma forma de auxiliá-los no que for possível para a conquista de uma política pública viável para atendê-los, o que não dá para aceitar é que os aproveitadores sejam os maiores beneficiados.
    Porque esses mesmos cidadãos não invadem áreas como marginal Pinheiros, ou de bairros mais eletizados. Só invadem áreas de periferia?
    É no mínimo estranho não é mesmo. Infelizmente muitas dessas invasões tem o apoio da classe que deveria estar pensando em algo para buscar soluções, mas, preferem o incentivo que lhes garantirão um bom resultado nas urnas.
    O comentário do colega Odair José Luciano também é muito pertinente.
    Falta muita vontade política em todos as áreas que envolvem os mais variados problemas sociais de nosso país e enquanto não houver pré-disposição, bem como melhoria nas competências de nossa classe política, ficará muito difícil resolver qualquer empasse social.

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