Mohamed Bouazizi, o herói de Nietzsche

Ele matou-se porque não podia trabalhar, não podia sobreviver e não podia aceitar a humilhação de levar uma bofetada diante do confisco de sua mercadoria. Seu gesto desencadeou a revolução

Estou viajando mãe. Perdoe-me. Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe. Agora vou e não vou voltar. Repare que eu não chorei e não caíram lágrimas de meus olhos. Não há mais espaço para reprovações ou culpa nessa época de traição na terra do povo. Não estou me sentindo normal e nem no meu estado certo. Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer.

—Mohamed Bouaziz

Por Diego Viana, Amalgama

Nem Assange, o indiscreto hacker australiano. Nem Zuckerberg, o ainda mais indiscreto empresário precoce da rede, como quis a revista Time. Nem Suárez, o goleiro fugaz dos pampas, sobre o qual ainda hei de escrever. O maior herói de 2010 foi um vendedor de frutas, ambulante e sem licença, natural de Sidi Bouzid, no interior da Tunísia. Chamava-se Mohamed Bouazizi e tinha 26 anos quando morreu.

O gesto heróico de Bouazizi foi um martírio que, em si, não tem nada de novo, mas sempre impressiona. No Vietnã de 1963, Thích Quảng Đức desceu do convento e, com toda a calma que se espera de um monge budista, imolou-se na praça mais movimentada de Saigon. Kennedy admitiu que a imagem daquele corpo se consumindo abalou o mundo. Na Tchecoslováquia de 1969, Jan Palach, estudante de filosofia, escolheu que sua existência não passaria dos 21 anos. De que valia viver sob o jugo soviético? Em 1989, a celebração de sua memória desaguaria na Revolução de Veludo, batendo um cravo no caixão da Cortina de Ferro.

É perturbador, mas parece que morrer dá resultado.

Algo na morte de Bouazizi é diferente. Talvez porque ele nem era um religioso preparado para o outro mundo, nem fez um pacto, como Palach, aliás descumprido por quase todos os colegas. Na manhã do dia em que se incendiou, Bouazizi não queria morrer, queria trabalhar. Teria preferido a dignidade de exercer sua profissão, era técnico em informática, mas se a ditadura tunisiana não lhe oferecia as condições econômicas para isso, sujeitava-se a vender frutas sem licença.

Nem isso a ditadura tunisiana lhe concederia. Tampouco a dignidade de ser abordado respeitosamente pela polícia. Bouazizi morreu porque não podia trabalhar, não podia sobreviver e não podia aceitar a humilhação de levar uma bofetada diante do confisco de sua mercadoria. O que ele tinha para pensar? Que espaço sobrava para a reflexão? Seu único recurso era o imediato. Diante da prefeitura, o fogo.

Daí por diante, a história é conhecida. Os tunisianos se sublevaram, 400 foram massacrados pela polícia, mas o ditador Ben Ali caiu. Os egípcios passaram dezoito dias ao ar livre, apanhando de capangas da tirania e suportando um discurso vacilante do poder apodrecido. Mas o ditador Mubarak caiu (vamos ver o que acontece com o regime como um todo).

Apesar dos protestos em uma dúzia de países árabes, nada indica que outros cairão. Mas quem sabe? A energia coletiva se transmite em ondas, numa vibração que se expande quase sem dar na vista. Spinoza já dizia, Tarde já dizia, Deleuze já dizia, deveria ser óbvio por agora. Talvez todos os árabes consigam sua democracia, ou então serão massacrados mais uma vez.

Aos historiadores: olho nos jornalistas.

Mas voltando a Mohamed Bouazizi: o que seu suicídio tem de único é que foi um gesto de transbordamento de vida. Coisa de quem tinha o caos dentro de si para gerar uma estrela. Ou uma revolução.

Pode parecer paradoxal, mas é o aspecto mais belo da história contada na África em 2011. Bouazizi foi quase um herói nietzschiano. Bouazizi morreu porque sua vida não cabia na lata de sardinha que a tirania lhe oferecia. Ele não sabia disso, como o sabiam ou ao menos intuíam seus antecessores vietnamita e tcheco. Sua vida vibrava de dentro para fora. Humilhação, frustração, aniquilamento, não eram para ele.

A rigor, não são para ninguém. Mas foi necessária a explosão de uma vida para incendiar centenas de milhões de outras almas, filhas, netas e bisnetas de gente que até então não conheciam muitas outras palavras a fundo. Só humilhação, frustração, aniquilamento. Bouazizi morreu e infundiu vida em quem estava amortecido. Foi o funâmbulo que caiu, mas cuja multidão, no lugar de humilhá-lo, absorveu a matéria carbonizada de seu corpo e partiu para mudar o mundo. Outros morreram, mas nada mais poderia pará-los: impossível morrer mais do que o primeiro herói.

Todo mundo se lembra de Nietzsche quando um maluco qualquer, um Raskolnikov afásico nos cafundós da América profunda, se toma por um “super-homem” com espinhas e sai metralhando por aí porque se acredita “acima” do bem e do mal. Mas a hora de lembrar de Nietzsche, na verdade, é agora. Como Zaratustra (na versão do filólogo alemão), Mohamed Bouazizi morreu abraçando a terra.

Alguém poderia objetar que a terra de Zaratustra era a matéria de que somos feitos, nossa argila, nossa carne. Mas a terra que o Bouazizi moribundo abraçou também era dessa terra. Era o pó de que viemos e para o qual voltaremos. Era sua terra. Das montanhas de Atlas ao delta do Nilo, do Saara à costa do Mediterrâneo. Todo esse território de história milenar adquiriu vida como os gigantes cadmeus, depois que foi abraçado pelo rapaz a quem não deixariam viver, então de presto, desafiador, não viveu.

Mas morreu em nome da vida. Nem que fosse a vida dos outros.

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6 comentários para "Mohamed Bouazizi, o herói de Nietzsche"

  1. Roberto disse:

    Um texto admárel em conteúdo e forma! Um desafio aos historiadores, como bem lembrou o autor (Trata-se de um editorial ?). Mas, sobretudo, a demonstração cabal de que um homem pode miudar a história …

  2. Nietzsche, Zaratustra, ‘abraçando a Terra’, suicídio, herói… Não entendi! Talvez o articulista queira sugerir que o rapaz tunisiano se imolou porque não aceitou a humilhação; e esse ‘orgulho’ seria nietzscheano. Será que é isso? Sinceramente, quando vi o título do artigo, me atraiu a referência a este filósofo admirável! Mas ao terminar de ler, fiquei com uma sensação incomôda; do pouco que li de Nietzsche, nada reverberava aí. Esse esforço de tornar um pensamento complexo em algo palatável, esbarra nesse obstáculo: razoabilidade! Não foi razoável comparar o pathos nietzscheano com a revolta desse rapaz! Não podem ser medidos pela mesma ‘régua’!
    Saudações filosóficas!

  3. fabricio kc disse:

    o trágico. cabe uma referencia mais à Nietzsche:
    “Mais vale perecer do que odiar e temer;
    mais vale perecer duas vezes
    do que fazer-se odiar e temer;
    Tal deverá ser um dia a máxima
    de toda sociedade
    organizada politicamente.”
    estamos todos na busca, e pereceremos todos – escolhendo ou não…
    Bonito texto.

  4. Edilson Rocha disse:

    Justa a confusão de algum leitor. Se entendi bem, a referência a Nietzsche, não só os fatos do Norte da África e do Oriente Médio, mas os massacres e carnificinas dos últimos cem anos têm suas raízes malditas no niilismo resultante do pensamento irracional do século XX – o que alguns já chamaram de racionalidade irracional. O vazio de sentido da Modernidade, em sua última fase, ainda vai produzir mais horrores…

  5. Paula Silva disse:

    Os “Homens” sempre fizeram a história… não se esqueça disso.

  6. Marcus Vinícius disse:

    Nietzsche questiona a idéia de um sujeito que inicia ações, de uma vontade que se inicia no sujeito, de um eu iniciador de ações. O livre-arbítrio é uma ilusão e todo agir é necessariamente resultante de relações múltiplas de causalidade.
    Bouazizi escreve em seu texto de despedida:
    “[…] Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. […] Culpe a era em que vivemos, não me culpe. […] Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer”.
    As palavras acima remetem claramente ao questionamento da noção de livre-arbítrio e de um eu iniciador. Bouazizi foi apenas um veículo do acontecer, e sua morte, como dinamite, tem implodido o ordenamento de nações inteiras, possivelmente acarretando mudanças significativas de valores de culturas ancestrais.
    Resta-nos a dúvida: teria Bouazizi que repetir seu destino por toda a eternidade? O Eterno Retorno será realmente apenas uma fábula, ou terá Nietzsche intuído de modo acertado e aterrador a eterna e circular repetição de nossos destinos?

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