Honduras nas ruas contra governo conservador

Seis anos após golpe de Estado, população mobiliza-se contra governo apoiado pelos EUA, que desviou para campanha eleitoral recursos destinados à compra de remédios

Por Marcela Belchior, na Adital

População vai às ruas exigindo saída do presidente Juan Orlando Hernández do cargo. Foto: Reprodução.

População vai às ruas exigindo saída do presidente Juan Orlando Hernández do cargo. Foto: Reprodução.

Seis anos após golpe de Estado, população abre onda de mobilizações contra governo apoiado pelos EUA, que desviou para campanha eleitoral recursos destinados à compra de remédios

Por Marcela Belchior, na Adital

Uma insurgência popular contra corrupção no governo federal, liderada pela juventude e convocada através das redes sociais virtuais, tem crescido nos últimos dias em Honduras, até se converter em uma das maiores marchas da história recente do país, disseminada pelas principais cidades hondurenhas. A mobilização nacional tomou forma após a deflagração do caso de desfalque milionário dos cofres do Instituto Hondurenho de Segurança Social (IHSS), no ano de 2014. A população exige a saída do presidente Juan Orlando Hernández do cargo.

“O caso do Seguro Social é a conjuntura que deixou farto o povo hondurenho; e que tenham utilizado fundos saídos do Seguro Social para financiarem campanhas políticas é o detonador desse movimento”, afirmou à imprensa Gabriela Blen, uma das lideranças na convocação das marchas, sob o lema #OposiçãoIndignada. Segundo ela, ainda que não haja vínculo direto, a recente onda de protestos nas ruas da Guatemala motivou a mobilização hondurenha.

O primeiro ato de protesto em Honduras ocorreu no fim de maio, na capital Tegucigalpa, onde um grupo de jovens relembrou, com uma vigília, as 3 mil pessoas que tentaram atendimento nos órgãos públicos de Saúde e acabaram perdendo suas vidas, supostamente, pela falta de fundos do Seguro Social para medicamentos e assistência aos pacientes. Desde então, a mobilização da população vem crescendo, até convocar milhares de pessoas em vários atos públicos realizados ao longo dos últimos dias em cidades como San Pedro Sula, Siguatepeque, Choluteca e Comayagua.

Nesse contexto, o Movimento Amplo pela Dignidade e a Justiça (MADJ) apresentou ao Ministério Púbico a lista com os nomes das pessoas que morreram nos últimos cinco anos em decorrência da falta de estrutura de atendimento do Seguro Social. A organização exige investigação ampla para o caso.

“O povo está cansado. Por um lado, crescem os níveis de pobreza, a insegurança, a falta de oportunidades e, por outro, o governo continua concentrando poder, aprofundando o autoritarismo e a militarização, e exercendo uma férrea política de controle”, lamentou à imprensa Ana Ortega, presidente do Comitê pela Livre Expressão (C-Livre). “Se a isso somamos os níveis altíssimos de corrupção e impunidade, a crescente decomposição da classe política e o colapso da institucionalidade do Estado, fica evidente o porquê desta reação popular”, acrescentou a ativista.

Entenda o caso

O caso foi denunciado pelo jornalista David Romero Ellner, diretor da Rádio Globo e Globo TV, vinculando o Partido Nacional, do presidente Juan Orando Hernández, a uma fraude de grandes proporções envolvendo empresas de fachada e o IHSS. Segundo Ellner, da quantia equivalente a mais de 330 milhões de dólares desviada do Instituto por altos funcionários da instituição, cerca de 90 milhões de dólares tiveram como destino final o Partido Nacional e financiaram a campanha eleitoral de Hernández, em 2013, então candidato presidencial.

De acordo com a denúncia, para efetuar o desfalque milionário, parentes de ex-funcionários do IHSS criaram 10 empresas fantasmas, com as quais se firmavam contratos multimilionários para, supostamente, prover medicamentos, serviços e equipes médicas aos órgãos públicos de saúde. Essas mesmas empresas transferiam o dinheiro da transação para as contas do Partido Nacional.

Ellner afirmou que toda a cúpula da legenda conhecia a fraude, incluindo o ex-presidente Porfírio Lobo (2010-2014) e o atual mandatário hondurenho. Para agravar ainda mais o caso, apontou que autoridades do Ministério Público haviam ocultado provas e engavetado processos relacionados ao desfalque, assegurando a impunidade dos envolvidos.

Tudo isso ocorre poucas semanas depois que a Justiça de Honduras declarou a inaplicabilidade do artigo constitucional que proibia a reeleição presidencial. Para amplos setores da oposição política do país, assim como organizações sociais e de defesa dos direitos humanos, a medida seria uma manobra para reforçar o projeto do atual governo de permanecer no poder, abrindo caminho para uma possível reeleição de Hernández na Presidência.

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