Depois do lulismo, o quê?

Ao rejeitar reforma pela esquerda, governo Dilma reabriu polarização social e política. A dúvida é: haverá um passo adiante ou afundaremos em novo ciclo de subdesenvolvimento?

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Ao rejeitar reforma pela esquerda, governo Dilma reabriu polarização social e política. A dúvida é: haverá um passo adiante ou afundaremos em novo ciclo de subdesenvolvimento?

Por Felipe Amin Filomeno

A recorrência de protestos em massa desde 2013, a reeleição apertada de Dilma Rousseff em 2014, a desintegração da base governista no Congresso Nacional e a adoção de um ajuste fiscal que protege as elites econômicas em 2015 são todos sinais do encerramento do ciclo lulista da economia política brasileira. A crise econômica mundial impôs limites ao keynesianismo social-democrata iniciado por Lula. Os problemas econômicos (especialmente a estagflação) diminuem a legitimidade do governo junto à população e ambas as condições reduzem a capacidade governo para cooptar partidos políticos. A economia política do consenso, em que Lula liderava um Brasil onde o pobre e o rico ganhavam em uma democracia estável, está sendo substituída por uma intensificação do conflito distributivo entre classes sociais e pelo retorno da política contenciosa dos protestos de rua. Os panelaços dos Jardins e as passeatas contra o projeto de lei da terceirização são exemplos claros, em diferentes extremos do espectro político-ideológico.

Apesar de terem perdido a última eleição presidencial, as forças conservadoras do país têm aproveitado (e contribuído) para esta conjuntura de instabilidade política e de esgotamento do lulismo. A grande imprensa foca nos casos de corrupção envolvendo o PT e negligencia os casos envolvendo o PSDB. A Polícia Federal e o Judiciário fazem o mesmo. A classe média alta adotou a política contenciosa das passeatas e dos panelaços. Os partidos de oposição aumentaram sua fatia do Parlamento e, assim, também cresceu a bancada BBB (boi, bala e bíblia).

Para dar continuidade ao desenvolvimento econômico e social obtido sob Lula e Dilma, as lideranças do governo precisariam promover um ajuste à esquerda, que protegesse os pobres e a classe média baixa e onerasse proporcionalmente mais a classe alta. Tal ajuste incluiria medidas conjunturais de curto prazo e medidas estruturais de longo prazo. Imposto sobre grandes fortunas, reforma agrária e redirecionamento dos financiamentos do BNDES para empresas inovadoras, por exemplo, poderiam ser incluídos no pacote de medidas. Uma reforma política que fortalecesse as instituições democráticas (por exemplo, através do voto distrital misto e da limitação das contribuições financeiras privadas a campanhas eleitorais) seria o ajuste dos ajustes (ou a reforma das reformas). A probabilidade de o governo tomar este caminho, no entanto, é baixíssima, porque o Congresso Nacional está mais conservador e as lideranças governistas têm muita dificuldade de atuar fora dos quadros do presidencialismo de coalizão.

Um ajuste progressista (seja ele social-democrata, desenvolvimentista ou mesmo socialista) dependeria, portanto, da mobilização das forças da esquerda fora do Estado, embora colocando pressão sobre ele. E isto já está ocorrendo. Os movimentos sociais e partidos de esquerda estão se reconfigurando e há sinais da criação de uma nova frente de esquerda. Os quadros mais esclarecidos do PT compreendem a conjuntura atual da economia política brasileira e tem contribuído para esta reconfiguração. O último programa de TV do PT e os discursos mais recentes do ex-presidente Lula já mostram um certo descolamento do partido em relação ao governo Dilma-Temer e a adoção de uma agenda propositiva mais radical.

Um cenário possível seria Lula liderar uma revitalização do PT através de uma aliança ampla com movimentos sociais e organizações da sociedade civil, em direção às próximas eleições. Seja o que for, a mobilização popular é especialmente importante agora, dentro e fora das instituições do Estado, para reformar a democracia brasileira em seus aspectos formais e substantivos, contendo a contrarreforma que as forças conservadoras tentam implementar. Um novo ciclo da economia política brasileira está em formação e ainda não está claro se este será um ciclo de desenvolvimento ou subdesenvolvimento.

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4 comentários para "Depois do lulismo, o quê?"

  1. Jurema disse:

    E quem iria confiar numa liderança que se alinha a qualquer partido e ou pessoas quando suspeita que pode peder o poder?

  2. astor wartchow disse:

    Dilma está pagando a conta da aventura de Lula. O distributivismo eleitoreiro e primário tem um custo social. E eles será pago pelo povão. Simples assim. O resto sao tentativas e devaneios ideologicos. Falar em BNDES e outras estatais é uma brincadeira que toma os leitores por idiotas.

  3. Ricardo Galletta disse:

    Revitalização do PT? Lula liderando uma saída pela esquerda? Sonhos de uma noite de verão… Há que encarar a realidade: Lula e o PT há muito tempo abriram mão de uma política de esquerda. E isso é irreversível.

  4. Marcos Doniseti disse:

    É muita ingenuidade acreditar que se o lulismo se esgotar teremos uma saída vitoriosa pela Esquerda. A Esquerda brasileira é fraquíssima. Basta ver a composição do Congresso Nacional para se comprovar isso. Na Câmara dos Deputados o PT, PSOL e o PCdoB, somados, possuem apenas 85 deputados federais. A quase totalidade dos demais parlamentares é de direita, conservadora, reacionária mesma. A Grande Mídia é controlada pela direita troglodita, bem como grande parte do sistema financeiro e das instituições do Estado. Basta ver como a atuação da Mídia, da PF, da Justiça e do Ministério Público é tão agressiva contra o PT e tão leve quando se trata do PSDB e demais partidos de direita. Vejam o tratamento bonzinho que todos eles dão aos tucanos e demos envolvidos em escândalos. Sem o PT, a Esquerda brasileira ficará acéfala política e eleitoralmente e o vácuo deixado por ele será ocupado pelos evangélicos reacionários e demais integrantes das forças reacionárias da sociedade (bancada ruralista, bancada da bala, bancada da mídia, etc). O resultado das últimas eleições já deixou isso bem claro.

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