O mito do "Brasil desmobilizado"

É hora de questionar a visão eurocentrista que vê país “passivo” — porque é incapaz de enxergar formas difusas de organização, resistência e construção de novas lógicas

Por Fernando Perlatto. na Revista Pittacos

Em artigo publicado no jornal O Globo em 11 de julho de 2011, Juan Arias, correspondente do jornal El Pais no Brasil, motivado pelas manifestações dos “Indignados” contra o sistema político e financeiro nas praças de Barcelona, questionou a passividade do povo brasileiro. Ao contrário do que ocorria por lá, nossa sociedade, ainda que assolada por diversas mazelas, sobretudo associadas à corrupção, permanecia em silêncio, parecendo ignorar os desvios do dinheiro público. Tal diagnóstico acerca da passividade do povo brasileiro não foi isolado e ganhou novos contornos com as comparações que se estabeleciam entre a realidade aqui e as diversas eclosões populares que sacudiram o mundo em 2011, desde as manifestações na Praça Tahrir, no Egito, até o Occupy Wall Street, que comprovavam uma percepção muito forte no senso comum nacional: nossa sociedade civil seria desmobilizada.

Esse tipo de imaginação não se move no vazio, possuindo terreno a lhe sustentar, ancorado em análises clássicas das ciências sociais brasileiras. Para uma forma de interpretação consolidada, nossa sociedade seria marcada pela desmobilização salvo em momentos específicos da nossa história, como os anos 1960, que antecederam o golpe militar, ou os anos 1980. Nesses contextos, movimento operário, intelectualidade, segmentos religiosos e partidos políticos teriam criado mecanismos de articulação capazes de fazer frente ao status quo. Nos outros momentos da nossa história, apenas o silêncio de um povo desorganizado, acostumado com os desmandos do poder e incapaz de tecer redes de solidariedade, bem como criar estruturas organizativas. A ler nossa história pelos termos habermasianos, os sistemas da política (estado) e do dinheiro (mercado) dominaram a nossa trajetória, em diferenciados momentos, como decorrência da natural indiferença do nosso povo, insolidário pela sua própria natureza, contendo desde o início dos tempos coloniais o DNA da indiferença. Na parte de baixo do mundo, nada se moveu e ainda não se move.

Será isso mesmo uma verdade? Nossa sociedade civil foi e ainda é desorganizada? A meu ver, não é possível corroborar esta tese. Diversas pesquisas historiográficas recentes vêm procurando demonstrar que desde o Império, passando pela Primeira República e atravessando o século XX, o mundo de baixo da sociedade brasileira tem se organizado para além das estruturas formais de poder. Naturalmente, essas formas de organização não assumiram as características dos mecanismos associativos idênticos ao mundo europeu. Muitas vezes elas se manifestavam não por “falas públicas”, mas assumindo formas ocultas, que configuravam, nos termos de James Scott, em Domination and the arts of resistance, uma infrapolítica dos subalternos. Ao espaço negado no “discurso público”, os setores populares exerceram práticas e criaram formas expressivas fora da cena pública, constituindo “discursos ocultos”, por meio dos quais buscaram romper, de diferentes maneiras, com a aparente homogeneidade da fala oficial.

Em diálogo com as formulações de Nancy Fraser acerca dos “subaltern counterpublics”, podemos apontar para a existência de uma esfera pública subalterna no Brasil, constituída por espaços heterogêneos de fala e organização, mediante os quais os segmentos populares e médios lograram descobrir e articular espaços que testavam a todos os momentos os limites da ordem. Uma forma de resistência difusa – que se manifestava desde a resistência dos escravos para além da luta aberta contra os senhores no período imperial até a constituição de associações operárias no começo da Primeira República, passando pelas irmandades religiosas formadas pelos negros ao longo do XIX – se articulou e buscou constituir um lugar diferente de fala. Não se trata, é óbvio, de afirmar que os discursos e práticas constituídos nesta esfera pública subalterna eram necessariamente virtuosos. O que se está aqui a dizer é que eles existiam e isso é o que tem importância para a nossa discussão.

A reflexão aqui proposta busca chamar a atenção para o fato de que perceber e compreender este mundo implica um olhar diferenciado, uma perspectiva que não parta de modelos pré-concebidos de organização e agregação, tomados do mundo europeu. Trata-se de abrir nossas capacidades cognitivas para formas diferentes de associativismo, que se configuraram no decorrer da nossa história e que ainda permanecem fortemente presentes na sociedade brasileira, assumindo, obviamente, novos elementos. Esta nova forma de olhar deve ser capaz de perceber uma sociedade civil que se movimenta, ainda que mobilizando canais alternativos e informais de organização.

Ir para as ruas em época de carnaval, observar a organização dos blocos e das escolas de samba e dizer que o povo brasileiro não se organiza é uma enorme contradição. Pelos menos 300 blocos ocuparam as ruas e avenidas do Rio de Janeiro neste carnaval, além de tantos outros em todo o país, em uma apropriação diferente, mas democrática do espaço público. Escolas de samba, não apenas na capital fluminense, muitas dotadas de enormes recursos, outras se aproveitando de sobras e remendos, mobilizaram pessoas, criaram redes de sociabilidade e articulação. Caso lancemos um olhar mais generoso para o país, sem termos em mente modelos de organização pré-concebidos anteriormente, veremos uma sociedade que se mobiliza de diferentes formas, seja artisticamente – como testemunham as diversas manifestações culturais, como festas e círculos de forró, música brega e sertaneja, saraus de poesia, bailes funk e de hip hop, rodas de samba e pagode etc. que explodem pelas periferias do país e das grandes cidades, potencializadas pelas novas ferramentas da internet, como o twitter –, seja esportivamente – com a criação de diversos clubes e campeonatos amadores, peladas aos finais de semana, reuniões para assistir conjuntamente um jogo de futebol –, seja religiosamente – mediante a mobilização de pessoas de diferentes idades em cultos, procissões e festas religiosas por todo o país.

Reitero novamente que não estou a afirmar a virtuosidade necessária inscrita nas práticas e nos discursos formulados nesses espaços, os quais muitas devem ser objetos de crítica, sobretudo devido ao fato deles não conseguirem chegar ao mundo da política. Mas, este é outro ponto. Dizer que a forma não existe por conta do conteúdo é uma balela. Do mesmo modo, poderíamos afirmar a superficialidade do movimento dos “Indignados” na Espanha, destacando o fato de que enquanto ocupavam as ruas protestando contra a política in toto, o Partido Socialista perdia as eleições para o Partido Popular e sua coalização conservadora. Não o fazemos, pois, ainda que questionando eventuais reivindicações, sabemos valorizar a importância de pessoas estarem nas ruas protestando contra o sistema financeiro e as mazelas de uma classe política completamente distanciada daqueles a quem devia representar. O ponto aqui é: a sociedade brasileira se organiza e se mobiliza, assim como o fazem os espanhóis, porém de forma diferenciada; nem melhor, nem pior, apenas diferente.

Desloca-se, pois, o foco da questão: não há uma sociedade civil “parada” por sua essência natural. Não temos um povo naturalmente apático. Há, pelo contrário, uma sociedade que se move de diferentes maneiras, sobretudo naquilo que genericamente chamei de esfera pública subalterna. A questão – e isso importa ressaltar – é que não houve historicamente, nem por parte das ciências sociais brasileiras, nem por parte dos partidos políticos de esquerda, uma atenção para este mundo, que se movimenta e se reinventa a cada nova conjuntura. Quando se olhava e ainda se olha para ele, se buscava e ainda se busca uma classe nos padrões europeus, se deseja uma forma de organização organizada que não passa pela organização desorganizada dos nossos mecanismos associativos, que mobilizam mecanismos muito mais expressivista do que racionais, muito mais ancorados na emoção e nos sentimentos do que nas palavras de ordem prontas e bem formuladas. A espera de um modelo ideal de mobilização turva a vista para a percepção das potencialidades de um mundo complexo que se organizou e ainda está se organizando fora dos padrões tidos como corretos.

Para além da necessidade de um novo olhar por parte das ciências sociais brasileiras e dos partidos políticos sobre esta sociedade civil, está colocada, no âmbito da política, a necessidade da ampliação da democratização da esfera pública, mediante não apenas a institucionalização de procedimentos democráticos capazes de dar vazão a argumentos “racionais”, mas de mecanismos que a tornem mais porosa aos valores, demandas, reivindicações e manifestações expressivistas desta esfera pública subalterna. A ideia subjacente a esta perspectiva é a da necessidade da ampliação de canais que permitam que suas potencialidades possam se manifestar em uma esfera pública renovada e democrática.

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5 comentários para "O mito do "Brasil desmobilizado""

  1. Mario Vieira da Silva disse:

    O autor confunde manifestações culturais tradicionais com capacidade de organização. Me pareceu uma matéria de uma simplicidade “patriótica” parecida com o patriotismo de certo
    apresentador de futebol de uma emissora hegemonica. Uma organização real aconteceu durante as diretas já e contra o impeachment do Collor. O autor não entendeu nada do que aconteceu na Espanha. Lá não se quer que um partido vença e outro perca. O que se demanda é a mudança de paradigmas, é a reinvenção da democracia. O fato de o Partido Socialista lá ter perdido não quer dizer absolutamente nada. O foco da questão é mais profundo. Sugiro ao autor que estude um pouco mais e não assuma uma de colonizado ressentido só porque alguém de fora fez um comentário sobre a nossa inércia política, onde os políticos deitam e rolam, roubam e debocham do povo, impunemente. Será que o autor acha que hip hop e funk vão mudar alguma coisa, além de prover seus autores de algum dinheirinho e visibilidade na televisão?

    • Maria Clara Bernardes disse:

      Mario, acredito que o principal do texto você não pôde captar que é questionarmos o mito da passividade do povo brasileiro; passarmos a olhar nossas mobilizações não com uma visão de um modelo vindo de fora que diz que é assim ou de outra forma que devemos nos mobilizar. Acredito que capacidade de organização tanto vale para as manifestações culturais tradicionais como para manifestações publicas que reclamam uma sociedade mais justa.
      O que falar da Marcha dos Excluidos que acontece todos os anos na semana do 7 de setembro? O que essas pessoas que participam das marchas estão as nos dizer e não as escutamos?
      O que falar do Forum Social Mundial que defende a possibilidade de um novo mundo construida sob valores diversos aos hegemônicos? Sera que somos tão passivos como nos dizem ou querem que sejamos? Acho que ja passou da hora de questionarmos frases que se repetem ao longo do tempo e que são tidas como verdades. Sera que questionarmos isso e assumirmos uma postura diferente é ser um “colonizado ressentido”?

  2. Airton Paschoa disse:

    O artigo é até simpático em sua positividade digamos tropicalista.
    Mas peca por ser por demais antropologizante. Para uma boa política de esquerda, autenticamente transformadora, exige-se cultura, em sentido antropológico mesmo, mas crítica. Quando se fala em mobilização, presume-se a elipse do “política” (que, embora adjetivo, é essencial, claro). Essa mobilização passiva, tão carinhosamente descrita no artigo, indica apenas o óbvio: que o povo, pelo menos, não está morto.

  3. Mario Vieira da Silva disse:

    Claro, Maria Clara, o povo brasileiro mobiliza-se sim. Gasta milhões de reais em telefonemas para tomar partido por este ou aquele do BBB, mata-se por este ou aquele time de futebol, adora e imita a cultura do império hegemonico, adora comprar quinquilharias em Miami. Ora, não critico o povo brasileiro por isto porque a educação e cultura nunca foram prioridades no Brasil. Nas novelas da emissora hegemonica prevalece sempre a música americana, etc. etc. Quanto ao Forum Mundial, me lembra uma coisa do comediante americano Groucho Marx: “Eu não entro em clube que me aceite”. O novo herói nacional Lula fez sua propagandazinha em Porto Alegre e em Davos. Não é clube que eu entre. Mudanças se fazem com ação direta, não com passeatas de sete de setembro. Você com certeza sabe que as conquistas das mulheres foram feitas com muitas lutas intelectuais e físicas e atitudes, não com pedidos e conferências.

  4. José Cristian Pimenta disse:

    Esse assunto foi tema de redação da prova do Senado no dia 11/03/2012. Ainda usaram a expressão “tupiniquim”.

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