A incômoda pergunta de Giannotti

Espantado, num encontro do Instituto FHC, com insistência dos tucanos no corte de despesas sociais, filósofo indaga: e ainda assim querem votos?

2011-11-17-giannotti-filosofoG

Correção: Este texto refere-se a fato ocorrido em Agosto de 2011 e foi publicado, por engano, como se fosse atual. Outras Mídias é seção de Outras Palavras que recolhe textos relevantes — e atuais — produzidos originalmente para outros jornais e revistas. Agradecemos ao leitor que se identificou como “Tiago” pela correção e pedimos desculpas pelo erro.

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Por Edmilson Lopes Júnior*, no Terra

Na última semana, um encontro promovido pelo Instituto Fernando Henrique reuniu antigos dirigentes da área econômica e intelectuais tucanos para diagnosticar os principais problemas econômicos do país e, se possível, apontar propostas substantivas para uma alternativa ao que vem sendo feito desde que o Lula tomou posse em 2003. O título do evento não poderia ser mais pomposo: “Transição incompleta e dilemas da (macro) economia brasileira”.

Os “pais do Real”, hoje aboletados nas direções de bancos e fundos de gestão, não trouxeram a esperada luz que iluminaria o escuro caminho da oposição. Com a notável exceção de Pérsio Arida, que apontou a necessidade de uma revisão das regras de gestão e de aplicação dos recursos dos fundos dos trabalhadores (FGTS e FAT), os demais pisaram sobre terreno por demais batido. Queriam mais do mesmo: redução dos gastos públicos. Houve até quem propusesse que abandonássemos a perseguição do modelo de estado de bem-estar (welfare state) europeu.

Nós, que jamais tivemos welfare-state de verdade, deveríamos abandonar a ilusão de realizá-lo. Essa proposição, em um encontro de intelectuais de um partido que carrega no nome o peso da definição socialdemocrata, é, por si só, reveladora. Se a democracia social europeia não deve nos orientar como modelo, para qual direção devemos mirar? Para a China, onde o milagre do crescimento econômico se faz à custa de uma força de trabalho submetida a regimes de trabalho semiescravo? Ou, quem sabe, para os EUA, onde, trinta anos de enxugamento dos gastos sociais e de acentuada concentração de rendas não livraram o país de uma crise que ameaça arrastar o resto do mundo?

O melhor relato do encontro tucano foi feito pela jornalista Maria Cristina Fernandes, colunista de política do jornal Valor Econômico. Segundo ela, após Pedro Malan ter afirmado, certamente com a candura e objetividade de sempre, que “os que tinham a Europa como modelo vão precisar rever os seus conceitos”, o filósofo José Arthur Giannotti não conseguiu se conter e, dirigindo-se ao conjunto dos economistas, indagou: “Desde o último artigo que li de Gustavo Franco tive a impressão de que vocês descreem da possibilidade de se prover o welfare state. Mas o que pretendem fazer com essa gente?”.

Ao que parece, os emplumados economistas preferiram dar de ombros diante da pergunta do filósofo. Giannotti, como bom filósofo, resumiu em sua pergunta o dilema que devora parte do campo político brasileiro. Ora, se a oposição não sabe o que pretende fazer com “essa gente”, por que diabos “essa gente” vai querer algo com essa oposição?

O que resta para essa oposição, já que não dá para nenhum político, em pleno domínio de suas faculdades mentais, sair por aí repicando as receitas de Pedro Malan e Gustavo Franco, é procurar casos de corrupção no governo para denunciar. O moralismo, ao contrário do que muitos pensam, não é uma opção. É o que resta como discurso para uma oposição que, após oito anos, ainda não descobriu o que “fazer com essa gente”.

*Edmilson Lopes Júnior ([email protected]) é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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4 comentários para "A incômoda pergunta de Giannotti"

  1. Tiago disse:

    Essa coluna foi feita em 2011, dá a entender pela publicação de que a reunião ocorreu semana passada.
    http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-futuro-segundo-os-pais-do-real

    • Antonio Martins disse:

      Obrigado pela correção, Tiago. O texto é verdadeiro, mas de fato não tem atualidade. Estamos registrando o engano, na própria abertura da matéria. Forte abraço. Antonio Martins, editor de Outras Palavras.

  2. O fato é antigo mas as idéias deles continuam as mesmas.

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