Vamos mal demais

Brasil está na lanterna do gasto público em saúde – e vai pior do que muitos países africanos

Brasil está na lanterna do gasto público em saúde – e vai pior do que muitos países africanos e quase todos os do continente americano 

O resumo desta e de outras notícias você confere aqui em sete minutos.

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VAMOS MAL DEMAIS

O Brasil gasta 7,7% do seu orçamento geral com saúde. A taxa é inferior à média mundial, de 9,9%, e mesmo ao gasto médio na Europa (12,5%), nas Américas (12%) e no Sudeste asiático (8,5%), só superando a média africana, de 6,9%. E, mesmo assim, 17 países africanos destinam mais dinheiro público para a saúde do que nós. Entre eles estão Madagascar (15%), Suazilândia (14,9%) e África do Sul (14,1%). Mas não para por aí: apenas cinco países no continente americano gastam menos do que nós, entre eles estão Barbados, Haiti e Venezuela.

Já em relação ao gasto privado, ou seja, o desembolso direto feito por indivíduos e famílias, o Brasil vai para o topo do ranking. Apenas quatro países no mundo contam com índices superiores ao brasileiro: Georgia, Nicarágua, Nepal e Egito.  Por aqui, 25% das famílias destinam mais de 10% do seu orçamento doméstico para a saúde. No mundo, esse nível de gasto só é observado em 11,7% das famílias (e na Europa, em menos de 7%). E uma parcela de 3,5% da população brasileira é obrigada a gastar ainda mais: a saúde consome inacreditáveis 25% de seu orçamento. Somando gastos privados e públicos, cada brasileiro gasta, em média, US$ 780 por ano. No mundo, a média é de US$ 822.

Os números se referem ao gasto de 2015. As informações foram divulgadas ontem pela Organização Mundial da Saúde e obtidas pelo correspondente do Estadão em Genebra, Jamil Chade. Até o envio desta newsletter, o relatório ainda não estava disponível no site da OMS.

NAS ALTURAS

O cenário definitivamente não está bom, como apontam os últimos números do IBGE sobre mercado de trabalho. São 27,7 milhões de brasileiros subutilizados, conceito que abrange o contingente desempregado, e também as pessoas que poderiam e gostariam de trabalhar mais e aquelas que estão disponíveis para trabalhar mas não estão buscando emprego por diferentes razões. A estas últimas, o IBGE caracteriza como força de trabalho “em desalento”, e o Brasil atingiu a pior situação da série histórica, com 4,6 milhões de brasileiros nessa situação.

E três milhões de pessoas estão em busca de emprego há dois anos ou mais. Quando a estatística abarca quem está batalhando por uma vaga há um ano, o contingente cresce para quase 5,3 milhões. É o chamado desemprego de longa duração, mais estrutural, considerado preocupante.

Com indicadores assim, de um lado, e a Emenda 95 restringindo o gasto público federal nas áreas sociais de outro, nosso gasto em saúde tende a diminuir ainda mais.

‘PARCERIA’

Para quem não conhece, a Interfarma é a entidade que representa a indústria farmacêutica de pesquisa no Brasil, e é basicamente financiada por suas associadas, entre as quais estão empresas como Merck, Pfizer, Novartis e Roche. Pois essa associação mantém desde 2014 uma parceria com a Capes (vinculada ao MEC) para premiação de teses de doutorado. Este ano, os autores dos dois melhores trabalhos nas áreas de Saúde Humana ou Bioética vão ganhar R$ 31 mil, além de bolsa de até um ano para fazer pós-doutorado por aqui. A Interfarma vai escolher um dos membros da comissão de premiação, que seleciona os vencedores.

Uma discussão sobre as formas como a indústria influencia a pesquisa científica estão nesta matéria do Outra Saúde.

HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS

O Ministério da Saúde liberou R$ 100,1 milhões em investimentos para hospitais universitários federais. Os recursos se somam a R$ 168,7 milhões já destinados em 2018 pela pasta para essas unidades. Os novos recursos são voltados para melhorar e ampliar a assistência e a área de ensino/pesquisa. Os recursos vêm do Rehuf, programa executado em parceria com o MEC e com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).

Já o HU da USP, de responsabilidade do governo estadual de São Paulo, passa por uma crise, conta matéria publicada pelo Saúde Popular na quarta (16). Moradores da zona oeste sofrem sem o pronto-socorro infantil da unidade, fechado no ano passado. A situação vem piorando desde que, no final de 2013, o HU perdeu 406 profissionais depois da implantação de um plano de demissão voluntária. “Há quatro anos o HU atendia 17 mil pessoas por mês. Recebe 3 mil [hoje]. Fazia 30 partos por mês, faz três. Tem oito centros cirúrgicos, tem dois funcionando mal. Ele está praticamente fechado”, relatou Lester Amaral Júnior, da coordenação do Coletivo Butantã na Luta.

BOA PERGUNTA

A repórter Mariana Alvim, da BBC Brasil, foi atrás de uma ótima pauta: como o país trata os idosos encarcerados? A pergunta ficou no ar depois que Paulo Maluf, com 86 anos, entrou na Justiça para garantir o benefício da prisão domiciliar devido a problemas de saúde típicos da idade que se tornavam piores no cárcere. Embora inexatas, as últimas estatísticas disponíveis dão conta de que em 2016 o Brasil tinha quase seis mil idosos presos, o que corresponde a apenas 1% da população carcerária.

“É bem frequente se observar um esquecimento dessas pessoas, que não recebem visitas, por exemplo. Vimos idosos sem condições de andar ou se levantar, e também com problemas graves de saúde. Sabemos que faltam profissionais de saúde nesses lugares, com algumas unidades prisionais sem um médico na equipe”, diz Leonardo Biagioni de Lima, defensor público em São Paulo, na reportagem, acrescentando: “O cárcere já é espaço de violação de direitos. Nenhum direito previsto na Constituição ou em convenções internacionais é minimamente garantido. Assim, os idosos vivem uma dupla vulnerabilidade: a ausência destas garantias e a idade avançada”.

NO FRONT

“Uma guerra de narrativas predomina em um debate envolvendo agrotóxicos no Congresso Nacional”. Assim começa a reportagem do El País Brasil, que contrapõe os argumentos usados pelos ruralistas aos utilizados pelos muitos críticos do PL 6299/2002, conhecido como “Pacote de Veneno”.

ENXAQUECA

Reportagem do New York Times traduzida pela Folha aborda uma nova droga voltada para a prevenção da enxaqueca. O medicamento foi aprovado hoje pelo FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, e estará disponível dentro de uma semana. É fabricada pela Amgen e pela Novartis e se chama Aimovig. Será aplicado em uma injeção mensal a um custo anual de R$ 25,5 mil. Ele atua bloqueando a proteína CGRP, que provoca enxaquecas. Embora não seja a cura da doença, o medicamento consegue tornar os episódios menos severos e diminuir em 50% ou mais sua frequência. Três outras empresas (Lilly, Teva e Alder) desenvolveram medicamentos semelhantes, que ainda aguardam a autorização do FDA. Uma a cada sete pessoas no mundo sofre com enxaquecas, e cerca de 2% da população global sofre de forma crônica.

EBOLA

Um novo caso de ebola foi confirmado ontem na República Democrática do Congo – e preocupa porque aconteceu em uma região urbana. A cidade de Mbandaka tem 1,2 milhões de habitantes. Até agora, os casos confirmados tinham se restringido à região de Bikoro, a 150 km de Mbandaka. Até o dia 15, 44 ocorrências tinham sido reportadas; sendo três delas confirmadas, 20 consideradas prováveis e 21 suspeitas.

FEBRE AMARELA

A doença causou 183 mortes no estado de São Paulo em 2018. Mairiporã foi a cidade com mais casos que evoluíram para óbito – 44 –, seguida de Atibaia (18) e Nazaré Paulista (12). Nos últimos 30 dias, foram registradas 26 novas mortes. Com a baixa nas temperaturas, a expectativa é que a circulação do vírus diminua.

DIA DA LUTA ANTIMANICOMIAL

Hoje, 18 de maio, se comemora o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Ao longo da semana, houve mobilizações em diversos estados contra os retrocessos no Conad e na Política Nacional de Saúde Mental (o Outra Saúdetratou deles na reportagem ‘Internar e punir’).

Ontem, o Conselho Federal de Psicologia promoveu um debate sobre a relação entre democracia e saúde mental que pode ser conferido em vídeo.

NOVIDADE

Um dos responsáveis pelo site Sensacionalista estreia hoje um blog voltado para a saúde mental. ‘Rir para não morrer’ será escrito pelo jornalista Marcelo Zorzanelli na Folha. Ele convive com a depressão há 14 anos e quer “tirar o deprimido, o ansioso crônico, o bipolar do armário”.

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