Morre o ‘pai’ do SNS

Portugal perdeu ontem António Arnaut, conhecido como pai do sistema público de saúde no país.

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MORRE O “PAI’ DO SNS

Portugal perdeu ontem António Arnaut, fundador do Partido Socialista e ministro dos Assuntos Sociais no momento da criação do Sistema Nacional de Saúde (“Foi uma decisão monumental. Apanhei-me ministro sem querer, tinha a caneta na mão e escrevi aquele despacho”). Ele estava diretamente envolvido com a recente movimentação do sentido de propor uma nova Lei de Bases da Saúde para o país, acabando com as parcerias público-privadas, e sua última mensagem pública foi na sexta-feira, quando disse ser preciso “reconduzir o SNS à sua matriz constitucional e humanista”. Arnaut morreu aos 82 anos em um hospital público em Coimbra.

CONTRA O EBOLA

A OMS declarou ontem que apoia a vacinação de populações de risco, e profissionais de saúde em áreas afetadas já seriam imunizados ontem. As vacinas são doadas pela Merck; a GAVI – Vaccine Alliance  vai doar US$ 1 milhão para custos operacionais.

É a primeira vez que a vacina é usada em um novo surto, como destaca a matéria de Julia Belluz na Vox. Até agora, os demais surtos foram eliminados pelo ‘rastreamento de contato’, interrompendo a cadeia humana da transmissão pelo isolamento das pessoas. O texto conta a história da vacina, que tardou a aparecer.

Além da vacina, três medicamentos experimentais podem vir a ser usados no tratamento. Na Nature, Erika Check Hayden explica que eles foram dados a pacientes no surto de 2014-16, mas não foi comprovado que contribuem para diminuir o risco de morte. O primeiro, o anticorpo Zmapp, foi testado em 72 pacientes, e 22% morreram (em comparação com 37% dos 35 que não receberam), e o resultado não é estatisticamente significativo; o antiviral GS-5734 foi dado a três pessoas – uma morreu, e as outras duas tiveram meningite logo depois; finalmente, o favipiravir (também antiviral) foi dado a mais de cem pacientes, mas não há dados sobre sua eficácia. O texto diz que, em surtos anteriores, as autoridades levavam bastante tempo para aprovar testes clínicos durante surtos, mas que agora isso pode acontecer mais rápido.

E uma matéria da Atlantic chama a atenção para um problema: a maior parte dos mapas do novo surto tem erros, e as posições exatas das regiões e das fronteiras não estão corretas. Segundo a reportagem, não é que esses erros determinem a falência do controle da doença, mas seria importante ter os dados certos.para entender o comportamento o surto e estabelecer as respostas – é preciso saber onde está cada vilarejo, onde há serviços de saúde e de transporte, por exemplo. O Ministério da Saúde está trabalhando com um conjunto de cartógrafos para melhorar os mapas.

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

O surto de toxoplasmose em Santa Maria (RS) começou em janeiro e ainda não acabou. Pior que isso: ainda não se descobriu a causa. A partir dos números atuais – já são 352 casos confirmados em 198 em investigação -, o Zero Hora projeta que esse pode se tornar o maior surto mundial da história. E resgata o atual ‘recordista’ (no início dos anos 2000 em uma cidade paranaense) para tirar algumas lições. Na época, a origem da contaminação estava na água. E, hoje, essa é também a principal suspeita, segundo os especialistas entrevistados. Já foi feito um teste na água (resultado negativo), mas a reportagem afirma que é preciso refazer os testes várias vezes, pois nem sempre a amostra tem toxoplasma no momento da coleta.

CHIKUNGUNYA NO RIO

Foram quase 9 mil casos este ano, segundo balanço da secretaria estadual de saúde – em todo o ano passado foram 4,3 mil.

BRASIL COMO EXEMPLO

Exemplo de quem já apresentou dez pontos prioritários para promover a “cobertura universal da saúde”. É como o site do Ministério se refere ao discurso do presidente da OMS, Tedros Adhanom, na abertura da Assembleia Mundial da Saúde ontem. O texto também diz que Gilberto Occhi assinou um Memorando de Entendimento firmando cooperação com a Rússia, almoçou com ministros dos BRICS para discutir “temas como o acesso a medicamentos, a cobertura universal de saúde e o enfrentamento à tuberculose” e ainda ontem se reuniria com representantes de El Salvador, Argentina, Índia e Canadá para reforçar cooperação.

PONTO PARA A ANVISA

A Agência divulgou ontem um relatório em que se posiciona favoravelmente ao uso de advertências sobre excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas nos rótulos de alimentos. Esse assunto tem sido acompanhado há um bom tempo pelo pessoal do site O joio e o trigo, que tem uma série de matérias sobre os interesses envolvidos. A indústria não gosta da ideia das advertências, e prefere outros tipos de rotulagem, em que o alerta fica bem menos explícito. A matéria de João Peres elenca alguns dos desafios que permanecem após essa derrota do setor privado. Entre eles, o design do selo de alerta e a definição dos índices considerados para definir quando um produto deve ou não leva a advertência. A Anvisa vai abrir esta semana uma consulta pública.

SANTA CASA PEDE DOAÇÕES DE KITS

A Santa Casa de São Paulo está endividada e lançou um projeto para pedir a pessoas físicas e jurídicas a doação de ‘kits cirúrgicos’, com insumos como agulhas, luvas e órteses. A estreia veio com 20 taiwaneses bancando kits para 60 cirurgias ginecológicas, diz a Folha. Custaram R$ 65 mil. Quase todos os atendimentos são pelo SUS, mas a instituição entende que as doações não ferem princípios legais. Segundo a reportagem, ela administra hoje uma dívida de R$ 700 milhões e paga um empréstimo à Caixa de R$ 360 milhões.

TESTES EM PRISIONEIROS

Não existe consenso na comunidade científica sobre a quantidade certa de sal que a gente deve ingerir. Na Forbes, Larry Husten diz que seis figuras importantes na discussão – tanto defensores como críticos da proposta do consumo reduzido – escreveram um artigo juntos defendendo que a melhor forma de resolver a questão é com um grande teste controlado, “avaliando o impacto do sódio na dieta em resultados clínicos difíceis, incluindo morte, acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio”. E vão além: dizem que  o lugar ideal pra fazer isso é em prisões, porque elas têm muita gente, em muitos lugares, de muitas idades e etnias em ambientes totalmente controlados.

HIV E GESTAÇÃO

Talvez um antirretroviral usado para controle do HIV – o dolutegravir – esteja associado a um defeito do tubo neural em fetos. Isso foi identificado em um estudo independente feito em Botsuwana, na África, e tanto a OMS quanto a Anvisa estão investigando. No Brasil, esse remédio só é usado há um ano; segundo o G1, as diretrizes da OMS de 2016 já não recomendavam o uso em gestantes devido à falta de dados para avaliação.

ONDE SE DEVERIA ESTAR SEGURO

Cláudia Collucci, colunista da Folha, passou três dias no hospital acompanhando o pai, e disse que o tempo bastou para entender por que ‘efeitos adversos‘ matam tanto nesses locais. Ela narra desde remédios trocados até o quase-banho de um paciente que não deveria se mover por três dias. “Enfermagem sobrecarregada, falta de prontuário eletrônico, sistema de informação precário, entre outros problemas, explicam boa parte dessas falhas que podem comprometer a segurança do paciente”, escreve.

SERÁ QUE AGORA VAI?

No mês que vem, a Anvisa vai começar a discutir o plantio de maconha no país para uso terapêutico, diz o Estadão. Segundo o presidente da agência, Jarbas Barbosa, já há previsão legal para isso. A matéria lembra que, ano passado, a cannabis foi incluía na lista brasileira de plantas medicinais e aprovou o primeiro medicamento à base de substâncias derivadas dela. E também já permite a importação de produtos à base de canabidiol.

Por falar em maconha, a neurocientista Suzana Herculano explica, em coluna da Folha, por que é impossível morrer de overdose com a planta.

COGUMELOS DO MAL

No Irã, mais de 800 pessoas foram intoxicadas e 11 morreram após comerem  cogumelos tóxicos. A venda e o consumo de cogumelos selvagens é comum por lá, mas o aumento das chuvas trouxe também o crescimento inesperado dos cogumelos, e alguns dos tóxicos se confundem com os comestíveis, diz a BBC.

AUSTERIDADE

O Cebes lançou uma publicação chamada Políticas Sociais e Austeridade Fiscal (dá pra baixar na internet) que mostra como se dá essa relação, não só no Brasil mas também lá fora. Os autores são Fabiola Sulpino Vieira, Isabela Soares Santos, Carlos Ocké-Reis e Paulo Henrique de Almeida Rodrigues.

AGENDA

Começa hoje o Fórum Nacional br Cidades: por um projeto para as cidades do Brasil, e, amanhã, tem uma mesa sobre saneamento, saúde e meio ambiente. Mais informações aqui aqui.

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