Uma variante, vários alertas

Delta ainda avança e pode matar centenas de milhares de pessoas. Mas, à medida que vacinação avança, países se veem diante de nova questão: eliminar o vírus ou controlá-lo?

Foto: Jeenah Moon

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A combinação entre avanço da variante delta e flexibilização das (poucas) medidas restritivas segue acendendo alertas sobre o futuro da pandemia, e não apenas no Brasil. Ontem, a OMS qualificou como “muito preocupante” a alta do número de casos na última semana na Europa, o que parece estar sendo agravado pela estagnação da vacinação dos grupos prioritários em alguns países do continente. No continente, 33 dos 53 países que compõem o continente registraram alta de 10% nos casos nas últimas duas semanas. A OMS destacou que o cenário pode levar a mais 236 mil mortes por covid-19 até dezembro por lá. 

Por aqui, chegamos a nove semanas registrando quedas sucessivas no número de óbitos e casos de covid em escala nacional – mas, segundo o último boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, o cenário pode ser alterado e corremos o risco de enfrentar uma alta de casos no fim do ano. 

Segundo Carlos Machado, professor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e coordenador do Observatório, os números do Rio de Janeiro mostram justamente que o espalhamento da delta somado à flexibilização do que resta de restrições resultam na alteração do cenário positivo. O temor, como já dissemos, é que isso seja um prenúncio do que poderia acontecer em escala nacional em algumas semanas. A taxa de ocupação de leitos de UTI na capital é de 96%, disparada a maior do país. Junto ao Rio, apenas Boa Vista, com 86%, apresenta status “muito crítico” quanto à ocupação de leitos. 

Entre 1º e 14 de agosto, segundo o levantamento da Fiocruz, o número de infecções no estado do Rio subiu 3,7%.  Além do Rio, só o Espírito Santo apresentou alta no número de casos – e, mesmo assim, de apenas 0,6%. Todos os outros estados registraram queda de infecções. A notícia boa é que, mesmo no Rio, as mortes seguem em queda.

Outra estratégia?

A única vantagem que o Brasil tem na corrida contra a Delta é que, agora a população está sendo vacinada com relativa rapidez. Nossos percentuais – mesmo juntando com a parte da população que já foi infectada e possui alguma imunidade adquirida pelo vírus – ainda não são suficientes para evitar uma grande onda, mas não dá para ter certeza do que vai acontecer nas próximas semanas. De todo modo, à medida que locais com ampla cobertura vacinal continuam registrando altos números de casos (ainda que com poucas mortes) de covid-19, vai tomando corpo uma discussão que, acreditamos, deve se tornar cada vez mais importante: a de qual estratégia deve ser adotada para o controle do vírus em cenários de ampla vacinação.

Na semana, Scott Morrison, o primeiro-ministro da Austrália – um dos poucos países a adotar o “covid zero” – disse que vai haver uma guinada nos planos. “Esta não é uma maneira sustentável de viver neste país”, disse ele ao parlamento na semana passada, referindo-se aos bloqueios localizados, mas pesados, às fronteiras fechadas e ao rastreamento incansável de casos e contatos até eliminar cada um dos surtos. Hoje, mais da metade dos australianos estão presos em alguma parte desde junho. 

Mas a avaliação é a de que a chegada da Delta dificultou esse controle. Temos visto um esforço muito maior do que o normal para conter os casos em países como China e Vietnã. Embora os números da Austrália ainda sejam melhores do que poderíamos sequer sonhar para o Brasil, são os piores da pandemia no país até agora. O plano, diz a Economist, é aceitar que os casos vão aumentar e, numa medida bem menor, as mortes também. O governo deve começar a flexibilizar as restrições quando 70% da população adulta for vacinada e eliminar quase todas elas quando se chegar a 80%Singapura está caminhando na mesma direção.

Claro que mesmo esse novo movimento da Austrália e de Singapura ainda é muito conservador se comparado à maior parte dos países que saíram da caverna há muito tempo – ou que nunca estiveram nela. Mas são exemplos extremos que ajudam a pensar quais poderão ser as novas metas globais.

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