Um mundo que não dorme

Pesquisas e medicamentos se voltam para o “aprimoramento humano” – e nos direcionam para conexão, consumo e produção 24 horas por dia

Pesquisas e medicamentos se voltam para o “aprimoramento humano” – e direcionam a humanidade para se conectar, consumir e produzir 24 horas por dia

O resumo desta e de outras notícias você confere aqui em sete minutos.

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UM MUNDO QUE NÃO DORME

Nessa semana, a reportagem do Outra Saúde aborda o sono. Ou melhor, a falta dele como consequência de intervenções que visam aumentar a produtividade no trabalho (e também na guerra). Num mundo cada vez mais parecido com as distopias da ficção científica, pesquisas científicas e medicamentos já disponíveis no mercado se voltam para o “aprimoramento humano” – e, ao mesmo tempo, moldam e direcionam a humanidade para um destino específico: se conectar, consumir e produzir 24 horas por dia, sete dias por semana.

A SAÚDE E A GREVE

A greve (ou locaute, dependendo da interpretação) dos caminhoneiros continua hoje. E está sendo abordada por diversos veículos pelos seus efeitos nos serviços de saúde.

Na sexta, duas entidades que representam hospitais, clínicas e laboratórios do estado de São Paulo entraram com ação na Justiça Federal para garantir o abastecimento das unidades de saúde durante a greve. Uma delas apontava risco de falta de oxigênio entre hoje e amanhã em diversas unidades.

O programa Bem-Estar, da TV Globo, destacou o cancelamento de cirurgias eletivas em diversas cidades, como Florianópolis, Palmas e Juiz de Fora. Presidente da Indústria Brasileira de Gases afirmou em entrevista que os caminhões com oxigênio foram barrados nas estradas. Mais de seis milhões de remédios deixaram de ser entregues desde o começo da greve e o maior déficit das farmácias são de medicamentos que precisam ser acondicionados em baixas temperaturas.

Nesta segunda, em São Paulo, o Estadão informa que as unidades de saúde devem funcionar normalmente, assim como o Samu, que teve suas ambulâncias abastecidas pelo Sincopetro. Estão garantidos o transporte de vacinas e medicamentos, e os hospitais municipais foram abastecidas de oxigênio e diesel (combustível é usado nos geradores).

No Rio, o governador Luiz Fernando Pezão afirmou que desde sexta, todas as escoltas para caminhões com combustível foram atendidas para que serviços essenciais não sejam paralisados. Mas há municípios no interior em que médicos não conseguiram chegar, segundo o governador.

Segundo a colunista Monica Bergamo, líderes dos principais partidos no Congresso avaliam que “não há mais governo” enquanto a oposição mira na queda do presidente da Petrobras  Pedro Parente, pois Michel Temer estaria tão desgastado que não valeria a pena perder tempo com ele.

A partir de quarta, os petroleiros fazem paralisação de 72 horas pela baixa dos preços dos combustíveis e pela queda de Parente.

CINQUENTINHA

No sábado, o primeiro transplante de coração realizado no Brasil completou 50 anos. A Folha conta a história do procedimento, que vai de João Boiadeiro – primeiro transplantado, que não resistiu e morreu 28 dias depois da cirurgia – a pessoas como Eunice Maria Alves, 57, que recebeu seu novo coração no dia 10 de maio e passa bem. No meio do caminho, mais de cinco mil transplantes cardíacos. E no futuro, a aposta é avançar para o uso de órgãos de animais e criados em laboratório para dar conta da demanda, estimada em 1,6 mil transplantes por ano.

DISTANTES (E BOMBANTES)

O ensino a distância teve um crescimento de 133% depois da edição de um decreto do MEC que eliminou exigências, como vistorias prévias. Eram 6.583, mas em um ano passaram a ser 15.394. Os cursos do segmento ‘saúde e bem-estar’ ocupam o terceiro lugar no ranking das áreas com mais matrículas, atrás das áreas de educação e ‘ciências sociais, negócios e direito’. Dados do Inep contabilizaram 108.346 matrículas em 2016. E quem oferece esse tipo de curso? Instituições privadas são responsáveis por 91,8% das vagas.

SERÁ?

A coluna Broadcast, do Estadão, especializada em mercado, repercutiuanúncio da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abrange). Segundo a entidade – que representa a Amil, entre outras –, ‘nunca antes na história deste país’ os brasileiros estiveram tão interessados em pagar por planos de saúde. É que a Abrange faz uma pesquisa semanal através da ferramenta Google Trends, que mede as buscas pelo termo “planos de saúde”. E, com base nisso, bolou um índice de interesse pelo produto batizado de IPS, que teria chegado aos 65,7 pontos (numa escala de zero a cem) no primeiro semestre de 2018. Asseguram que é um recorde.

DECISÃO HISTÓRICA

Depois de muita especulação, o referendo irlandês realizado na sexta revelou uma vitória massiva pelo fim da legislação antiaborto, com 66,4% (1,429 milhão) contra 33,6% (723 mil). Quase todas as regiões do país votaram pelo sim – e quase todos os grupos demográficos, com exceção das pessoas com mais de 65 anos. Em Dublin, o sim chegou a 77%.

Agora, o próximo passo é o governo apresentar uma legislação que pretende legalizar o procedimento antes das 12 semanas de gravidez. O primeiro-ministro, Simon Coveney, declarou que o país “passou por uma revolução silenciosa”. Ele e seu gabinete fizeram campanha pelo fim da emenda antiaborto.

Reportagem da BBC Irlanda traduzida para o português fala sobre as mudanças na sociedade irlandesa que levaram a esse desfecho. Tudo começou em 1983: após visita do papa João Paulo II, o país aprovou uma emenda constitucional que igualava os “direitos” dos fetos aos das mulheres. A Oitava Emenda, na prática, proibia o aborto em todos os casos, salvo quando havia risco de vida para a gestante. Desde então, estima-se que mais de 170 mil irlandesas tenham viajado para a vizinha Grã-Bretanha em busca do procedimento feito legalmente por lá. Mulheres que recebiam diagnósticos de problemas fatais nos fetos não tinham direito de interromper a gravidez. E mesmo a “brecha” na lei não era respeitada, como no caso da morte da dentista indiana Savita Halappanavar, que mesmo com sépsis, teve seu pedido negado em 2012. O resultado foi trágico: ela e o feto morreram.

A organização política das mulheres foi fundamental para o resultado da sexta. Aqui, as fotos das mobilizações nas cidades irlandesas. E aqui, um vídeo emocionante que pega o momento em que a vitória do sim foi anunciada.

EUTANÁSIA

Portugal vai votar amanhã a legalização da eutanásia. Como aconteceu na Irlanda, grupos a favor e contra estão mobilizados. Mas diferente de lá, a decisão está na mão de 230 parlamentares – e basta uma maioria simples. Se aprovada, o presidente pode sancionar, vetar ou lavar as mãos, encaminhando a lei para o Tribunal Constitucional.

E o debate sobre eutanásia na Holanda toma outro rumo, relata João Perassolo de Amsterdam na Folha, à medida que mais pacientes com transtornos mentais como depressão, bipolaridade, psicose, TOC e estresse pós-traumático solicitam o suicídio assistido. Por lá, não são apenas doenças que causam sofrimento fisiológico que figuram na lei em vigor desde 2002, mas qualquer enfermidade que não tenha perspectiva de melhora depois de esgotados os tratamentos possíveis. Dessa forma, a partir de 2008, as pessoas com sofrimento mental passaram a exigir os mesmos direitos dos demais. Os números são baixos, mas mostram que esse tipo de procedimento dobrou entre 2010 (41) e 2017 (83). De toda forma, representam pequena fração do total de mortes por eutanásia, que foi de 6.585 no ano passado.

Recém-lançado por lá, o documentário A Dignified Death conta a história de Eelco de Gooijer, diagnosticado com depressão e autismo, que optou pelo suicídio assistido em 2016.

AMANHÃ

A votação do “Pacote de Veneno” está marcada para amanhã. A radioagência Brasil de Fato entrevistou o pesquisador André Burigo, da EPSJV/Fiocruz, que fala sobre os tipos de contaminação causados pelos agrotóxicos.

CRACOLÂNDIA, UM ANO  

Um ano após a operação policial realizada pelo governo estadual e pela prefeitura de São Paulo na cena de uso de drogas conhecida como Cracolândia, a Revista Vaidapé foi ao local entender os efeitos práticos da mega ação policial na vida dos moradores, trabalhadores e usuários. E conta como está a situação dos programas de atendimento à população.

Os argumentos contra e a favor do “fim” da cracolândia e do programa De Braços Abertos, criado pela gestão Fernando Haddad e que não exigia abstinência do consumo das substâncias psicoativas da população atendida, são ouvidos na reportagem publicada na época pela Fiocruz, escrita por nossa editora Maíra Mathias.

RETROSPECTIVA

O Observatório de Análise Política em Saúde acaba de divulgar seu relatório de monitoramento das políticas de 2017. Os pesquisadores fazem uma verdadeira retrospectiva de tudo o que foi decidido e teve impacto no direito à saúde dos brasileiros, seja pelo executivo, pelo legislativo ou pelo judiciário. Alguns dos pontos negativos foram a revisão da Política Nacional de Atenção Básica, o fim dos blocos de financiamento para repasses do governo federal a estados e municípios, a aprovação da reforma trabalhista, da lei da terceirização, a tramitação do projeto que muda o marco legal dos planos e seguros de saúde e também a proposta do plano de saúde acessível, prioridade da gestão Ricardo Barros. E, claro, a EC 95.

AGENDA

As comemorações pelo 118º aniversário da Fiocruz começam hoje e vão até amanhã. Confira a programação.

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