Ainda a greve

Os impactos do desabastecimento na saúde e a guinada da pauta dos protestos, que continuam

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AINDA A GREVE

Hoje, a paralisação completa nove dias. Em sua coluna na Folha, Claudia Collucci reforça um aspecto que foi ganhando mais força na cobertura à medida que a greve dos caminhoneiros foi se estendendo: os impactos do desabastecimento na saúde.

Há desde o cancelamento de cirurgias eletivas, como já mostramos ontem, até relatos de unidades de diagnóstico que encontraram dificuldades para receber reagentes e contrastes porque essas cargas não foram priorizadas nas aeronaves em meio à crise. Os estoques em bancos de sangue de todo o país também baixaram na medida em que os doadores não se animam a ir aos hemocentros.

E a BBC Brasil e a Piauí, que vêm fazendo o melhor acompanhamento da paralisação, foram a campo para entender por que, após as concessões do governo, não acabou a greve.

Ontem circularam nas redes sociais mais fotos do que nunca de pessoas pedindo por intervenção militar, não só nas barreiras de rodovias e outros pontos de manifestação. Em Cuiabá, um grupo de pessoas se ajoelhou em frente ao batalhão de infantaria do Exército. O El País Brasil conversou com pessoas que participavam desse tipo de manifestação – e com outras, atraídas pelo protesto por outras razões.

“Tudo é muito caro. A gente não vive como poderia viver, porque nosso dinheiro é tão pouco e vai todo para imposto. O que você faz com um salário mínimo? Você vai no mercado e não consegue fazer uma compra decente. Se o imposto não melhora a educação e saúde, então serve para quê?”, disse a manicure Andreia Ferreira, 33 anos, ouvida pela reportagem.

ERROU O DIAGNÓSTICO

Luiz Vianna Sobrinho no Outra Saúde analisa declaração do presidente da Unimed Brasil de que “saúde para todos não é mais possível”. Para o autor de ‘Medicina financeira: a ética estilhaçada’, o executivo erra no diagnóstico, mas mesmo assim quer dar o remédio.

DR. EX MACHINA

Nós já falamos por aqui que a inteligência artificial, através da tecnologia da machine learning (quando a máquina aprende com erros e acertos) desponta como substituto dos médicos na leitura de exames oftalmológicos.

Pois há mais um estudo na praça, desta vez voltado para que a máquina distinga entre tumores benignos e malignos na pele (leia aqui ou aqui). Os cientistas treinaram o programa com 100 mil imagens de melanomas. Os médicos mais experientes detectaram com precisão 86,6% dos melanomas, enquanto a máquina cravou 95%. A pesquisa foi publicada ontem na revista Annals of Oncology.

A aplicação da inteligência artificial na saúde “é um ponto de virada na medicina”, segundo o pesquisador Gregg Meyer, da Universidade de Harvard. No final de abril, cerca de 1,5 mil pessoas se reuniram em Boston para debater o tema no Fórum de Inovação Médica Mundial.

ESCÂNDALO

A crise dos opioides nos Estados Unidos tem mais um capítulo: documento confidencial do Departamento de Justiça afirma que a empresa Purdue Pharma sabia que o medicamento vendido por ela era altamente viciante, mas mesmo assim continuou investindo em estratégia de marketing que dizia o contrário.

OFENSIVA ANTIABORTO

Matéria do Nexo aborda vários ângulos do referendo irlandês que riscou a emenda antiaborto da Constituição do país na sexta. Um deles é o efeito da decisão nos outros países. Na Irlanda do Norte, por exemplo, já no sábado começou uma pressão que envolve políticos e a Anistia Internacional para que a primeira-ministra Theresa May reveja a proibição do aborto na ilha. Enquanto isso, em outros países, como Polônia, Eslováquia, Croácia e até mesmo Espanha e França, o que desponta no horizonte é o retrocesso. Na medida em que a ultra-direita ganha mais representação nos parlamentos europeus com pautas contrárias aos direitos reprodutivos das mulheres, miram na redação de projetos de lei de iniciativa popular para endurecer o acesso ao aborto. Querem que esses países fiquem como a Itália, onde apesar da lei, é muito difícil para as mulheres terem acesso ao procedimento: nada menos do que 70% dos médicos se recusam a praticar a intervenção.

CANNABIS MEDICINAL

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) quer que o uso medicinal da cannabis seja discutido na Câmara dos Deputados para que mudanças na Lei de Drogas facilitem a vida dos pacientes. Um exemplo é o plantio, hoje autorizado apenas para produção de medicamentos e pesquisa científica, que poderia ser liberado para pessoas com doenças. Mas vai encontrar na Casa um adversário nada desprezível, o proibicionista Osmar Terra (MDB-RS). Uma amostra disso foi dada na última quarta (23), quando o presidente da Anvisa foi acusado por Terra de querer estar “acima do Congresso, que é quem tem que decidir” sobre o uso medicinal da maconha.  A agência é responsável por aprovar registros de medicamentos, inclusive os que têm como base o canabidiol.

SAÚDE MENTAL

E, falando em Osmar Terra, amanhã será debatida na Câmara a Política Nacional de Saúde Mental, modificada em dezembro passado no contexto da dobradinha entre Ricardo Barros e Terra. A audiência pública acontece às 14h.

A CONTA DA MALÁRIA

Com a doença avançando no norte do país, uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP calculou o impacto do desmatamento nesse processo. Concluiu que a cada quilômetro quadrado de floresta no chão, surgem 27 novos casos de malária.

NOVA DATA

O Congresso Brasileiro de Saúde Mental tem nova data. O evento, que ocorreria a partir de amanhã, vai acontecer entre os dias 3 e 5 de setembro em Brasília. Os organizadores adiaram o evento no domingo depois que a greve dos caminhoneiros desencadeou um plano de contingência na capital federal, afetando serviços públicos. A expectativa era reunir 3 mil participantes.

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