Temer briga com Alckmin: “Fale a verdade”

“Você fala mal da saúde como se a saúde fosse um desastre”, reclamou Michel Temer, em vídeo no Twitter.

Essa e outras notícias aqui, em dez minutos.

06 de setembro de 2018

RESSENTIDO

Michel Temer publicou ontem, no Twitter, um vídeo dando a maior bronca em Geraldo Alckmin. O tucano tem procurado se desvincular do governo, criticando a gestão de Temer em áreas como saúde e educação. Mas, no vídeo, Temer ressalta que os partidos da sua base de governo são os mesmos que apoiam o candidato, inclusive comandando ministérios nas áreas criticadas. A única coisa escrita na publicação é: “@geraldoalckmin: fale a verdade”.

“Eu me lembro, Geraldo, quando você era candidato a governador, candidato a presidente, nas vezes em que te apoiei precisamente para esses cargos, eu acho que você era diferente. Não atenda ao que dizem seus marqueteiros. Atenda apenas à verdade e a verdade é que fizemos muito por essas áreas conduzidas por aqueles que hoje apoiam sua candidatura”, diz Temer.

Ele menciona especificamente à saúde: “Você fala mal da saúde como se a saúde fosse um desastre. A saúde melhorou muito no nosso governo e está com o PP, um partido que apoia a sua candidatura, teve três ministérios, continua com três ministérios e ele, Ricardo Barros, que foi ministro, também fez um extraordinário trabalho, e você critica. Critica indevidamente”, afirma, algo ressentido.

Mais cedo, o candidato tucano fez campanha em Goiânia e mirou os filantrópicos. Disse que tem “visitado Santas Casas pelo Brasil e quase metade dos leitos do SUS são de hospitais filantrópicos, estão passando por grande dificuldade porque quanto mais atende mais prejuízo tem”. Ele pretende “corrigir as tabelas do SUS“.

OS CANDIDATOS E A SAÚDE

Ontem o Ibope divulgou os resultados de sua última pesquisa de intenção de voto para presidente. É a primeira desde que a candidatura de Lula foi indeferida. Bolsonaro lidera o primeiro turno, só que praticamente com o mesmo percentual de antes, 22%. Mas candidato também é líder em rejeição (44%) e, no segundo turno, perde para Ciro, Marina e Alckmin, e embata tecnicamente com Haddad.

E o Outra Saúde começa hoje a analisar as propostas e também o histórico dos presidenciáveis em relação à saúde. Começamos com o Cabo Daciolo, cujas planos, diante de seus projetos como deputado e de sua performance nas aparições públicas, até que são mais razoáveis do que se poderia esperar… Mas o documento tem dados errados pra todo lado.

A propósito, Dráuzio Varella mandou quatro perguntas para os 13 candidatos à presidência, e vai publicar uma por semana. Ontem, a questão foi: “Como o senhor pretende reduzir o tempo de espera na fila do SUS?”.  Você confere as respostas aqui (Alckmin, Bolsonaro e Daciolo não responderam).

MEIRELLES SABATINADO

O candidato do MDB participou da sabatina Estadão-FAAP. Sobre manter o SUS 100% público, disse que “acredita” que o fará. Mas citou o estudo recente do Banco Mundial, voltado justamente para os presidenciáveis, que prega o aumento da eficiência sem aumento dos custos. Segundo Meirelles, isso pode ser feito com “informatização e melhor estruturação”. “Um sistema público, universal, que já é de sucesso, que tem muito problema. Será um sistema de saúde com tudo eletrônico, de forma viável, com atendimento melhor. O sistema pode funcionar melhor, com mais eficiência e com menor custo”, disse.

Ele também declarou ser totalmente contra a liberação das armas e ser “favorável ao direito da mulher” em relação ao aborto – mas só nos casos já previstos em lei. Sobre as drogas,  afirmou que “ninguém pode ser preso por consumo, mas o tráfico deve ser combatido”, com policiamento das fronteiras, com um sistema nacional de informações e satélites para mapear pontos de contrabando.

NA EBC

Falta honestidade: em entrevista à EBCAlvaro Dias descartou a possibilidade de recriar a CPMF para aumentar o financiamento do SUS. Disse que o Brasil já aplica muito dinheiro em saúde, mas tem “incapacidade de gestão” e “desonestidade” no gerenciamento de recursos e na execução dos programas de saúde pública.

Já o candidato do PPL, João Goulart Filho, afirmou que o repasse de recursos para as organizações sociais deve ser suspenso. “No nosso governo, distribuição de recursos, somente para instituições públicas”.

ATÉ TU?

O Partido Social-Democrata e do Trabalhador da Suécia está minguando. Vai haver eleições no domingo, e a última pesquisa mostra apenas 24,6% das intenções de voto para a social-democracia, responsável por construir tudo o que a gente em geral inveja. Ainda seria o mais votado, mas, colado a ele está o Democratas Suecos, partido de extrema direita que até pouco tempo tinha nazistas históricos entre seus membros.

Em coluna na Folha, Clóvis Rossi apresenta a análise de  Hakan Blomqvist, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Sodertorn. De acordo com ele, a derrocada começou com a guinada para o centro. “A social-democracia sueca seguiu, até certo ponto, a ‘Terceira Via’ de Tony Blair [o líder trabalhista britânico dos anos 90]. Desregulamentou os mercados financeiros, privatizou serviços do Estado como eletricidade, telecomunicações e algo da seguridade social, além de ter praticado cortes na saúde, no seguro-desemprego, no sistema de aposentadoria e outros benefícios sociais”. E os votos perdidos não estão indo para o centro, mas para a extrema direita.

FRAUDES E DESPERDÍCIO NA SAÚDE SUPLEMENTAR

Recentemente o Banco Mundial divulgou um relatório em que critica o desperdício de 20% dos recursos do SUS. Bom, os planos e saúde não ficam atrás. O estudo “Impacto das fraudes e dos desperdícios sobre gastos da Saúde Suplementar”, do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), diz que no ano passado cerca de R$ 28 bilhões foram gastos de forma indevida, seja por procedimentos desnecessários ou fraudulentos. Isso representa 19% do total de despesas assistenciais das operadoras no período. Entre 12% e 18% das contas hospitalares têm itens indevidos e de 25% a 40% dos exames laboratoriais não são necessários. Não é nada exclusivo de 2017 – o relatório anterior tinha identificado quase o mesmo desperdício, 18,7%.

VÁRIAS VIOLÊNCIAS

Metade dos alunos com idades entre os 13 e os 15 anos, em todo o mundo, passa por situações de violência na escola ou nas imediações do estabelecimento de ensino, mostra um estudo do Unicef. Além disso, 750 milhões de crianças em idade escolar vivem em países onde os castigos corporais nas escolas não são totalmente proibidos. E um dos dados mais estarrecedores é que 150 milhões de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos vivem em áreas de conflito, frequentando, portanto, em escolas inseguras. No ano passado, as Nações Unidas identificaram 396 ataques em escolas da República Democrática do Congo, 26 em escolas do Sudão do Sul, 67 na Síria e 20 no Yemen (ataques em escolas são uma das seis violações graves frequentemente perpetradas em conflitos armados e condenadas pelo conselho de segurança da ONU).

NÃO É BRINCADEIRA

Em Yola, no nordeste da Nigéria, crianças que saíram com suas famílias de comunidades para fugir do grupo armado islâmico Boko Haram agora brincam de matar umas às outras e querem vingança. O Boko Haram já matou 30.000 pessoas (sendo dois mil professores), destruiu quase 1.400 escolas, sequestrou milhares e incendiou um número incontável de aldeias. “Eu os vi usando faca e picando a cabeça do meu avô”, disse Ibrahim Daniel, um menino de 13 anos, à reportagem do Al Jazeera.

Danladi Saleh, um médico que ajudou a coordenar o aconselhamento psicossocial em uma das áreas atingidas, contou disse que muitas crianças veem a violência como algo divertido do qual elas querem fazer parte. Quando um grupo de voluntários repeliu com sucesso o Boko Haram durante determinada invasão, “você pôde ver uma criança que parecia ter 12 anos carregando a cabeça de um membro do Boko Haram, a cabeça de um ser humano”, explicou Saleh. “Imagine o futuro de uma criança que carrega uma cabeça humana e o impacto psicológico daquela criança. Como será seu futuro?” Há programas relacionados à saúde mental, como de reabilitação e apoio psicossocial, mas o trauma mental é muitas vezes incompreendido, particularmente em crianças, diz a matéria.

O LOBBY DO AGRO

A Frente Parlamentar da Agropecuária se reúne periodicamente para definir o “cardápio da semana”: os temas de seu interesse que serão debatidos no Congresso, em plenário ou em comissões temáticas. Financiada pelo Instituto Pensar Agro (que, por sua vez, é sustentado por entidades do setor), ela tem acumulado grande poder – e a bancada ruralista se estende para além dela. Esta matéria do Le Monde fala sobre essa atuação.

“Além de representarem o lobby de organizações setoriais e de empresas, por sua vez financiadoras de campanha, a bancada ruralista tem “filiais” em vários órgãos públicos estratégicos por meio de indicações de aliados e parentes. Nesse sentido, é comum que superintendências do Incra em regiões de expansão do agronegócio ou coordenações da Funai sejam ocupadas por correligionários de políticos da bancada ruralista. O mesmo ocorre em comissões, relatorias e demais espaços estratégicos no Congresso Nacional”, escreve o autor, Luís Castilho, que dirige o projeto De Olho nos Ruralistas.

TRÊS ANOS DEPOIS

Quase três anos após o desastre da Samarco em Mariana, a Agência Públicatraz esta reportagem sobre a atuação da Fundação Renova, criada para reparar os danos. Representantes dos moradores têm muitas críticas: a Renova seria um braço das mineradoras, atuando sem transparência nem diálogo com a população, que ainda está sem suas casas e cuja a saúde – especialmente mental –  foi muito afetada. Exemplo de uma ação condenável: em 2016, a Renova contratou uma empresa privada para prestar serviço de saúde e assistência social em Mariana, sem vínculo com a prefeitura. No entanto, os funcionários da empresa usam toda a estrutura da Secretaria Municipal de Saúde, o que é ilegal.

MÁFIA DAS AMBULÂNCIAS

Em Canadeia (SP), o ex-prefeito e mais quatro pessoas foram condenados à prisão por fraude na compra de ambulâncias.

COMPRAS

NotreDame, terceira maior operadora de saúde do país, comprou a GreenLine por R$ 1,2 bilhão. Falta aprovação do  Conselho Administrativo de Defesa Econômica e da ANS.

SARAMPO

O número de casos no Brasil chegou a 1.579. Há surtos no Amazonas, responsável por 1.232 casos e 7.439 em investigação, e em Roraima, com 301 casos e 74 em apuração.

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