Também para assassinar

Levantamento aponta mais de 300 tentativas de envenenamento por agrotóxicos na última década

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Agência Pública e a Repórter Brasil descobriram os números de mais uma trágica faceta dos agrotóxicos no Brasil: seu uso como arma na violência doméstica. Ao longo da última década, eles foram a base de mais de 300 casos de tentativa de envenenamento (em 77% deles, a violência aconteceu dentro de casa). Nesse período foram 32 assassinatos, sendo que as vítimas são, em sua maioria, pessoas do sexo masculino, negras e jovens. Ao contrário do que se poderia imaginar, a maior parte dos casos aconteceu em áreas urbanas, embora a maior incidência esteja em cidades com menos de 100 mil habitantes e afastadas das grandes metrópoles.

O levantamento foi feito com dados do Ministério da Saúde, que trazem outros pontos graves, como o fato de que o agrotóxico mais usado nesses crimes foi o aldicarbe. É o famoso chumbinho, que está banido no país desde 2012 mas ainda é encontrado com muita facilidade – e é muito presente nas zonas urbanas. Outros 22 agrotóxicos, entre eles o glifosato, aparecem na lista. Das cidades que registraram esse tipo de envenenamento, 60% são classificadas com nível alto ou muito alto de privação: nelas, o acesso à educação, renda e moradia são precárias. 

Para os especialistas ouvidos, a falta de fiscalização é um dos problemas que impulsionam o uso dos agrotóxicos como armas. “Os dados levantam vários debates urgentes, mas principalmente a ausência de um sistema de controle destes receituários agronômicos, que permitiria rastrear quem comprou, vendeu e receitou o produto. Assim como identificar o passivo de substâncias proibidas existentes no país”, diz a pesquisadora da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Karen Friedrich.

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