Sarampo: Brasil próximo da Emergência

Mais de 600 casos, em 8 estados — foco central em SP. Leia também: mais homicídios nas cidades pequenas; Rio internar moradores de rua; como o neoliberalismo induz à comida trash; a teimosia de Trump pelas armas

Por Raquel Torres

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PERTO DA EMERGÊNCIA

Quatro meses depois de perder seu certificado de país livre de sarampo, o Brasil tem 646 casos da doença confirmados em oito estados. E, com o avanço, o Ministério da Saúde decidiu colocar em operação ontem o Comitê Operativo de Emergência em Saúde (COE). O grupo tem representantes de vigilância, vacinação, atendimento hospitalar, atenção básica e assistência farmacêutica, e vai fazer o acompanhamento diário da evolução da epidemia – até agora, o monitoramento era semanal. Segundo o Estadão, esse é o primeiro passo para a decretação de emergência em saúde pública. 

O estado que mais preocupa é São Paulo, onde estão quase todos os casos – na semana passada, já eram 633, a maior parte na capital. Mas também são importantes registros em cidades turísticas. Paraty, no Rio, teve dez casos confirmados, e Porto Seguro teve um. 

O BODE EXPIATÓRIO

Numa atitude nem um pouco incomum, Donald Trump culpou videogames e distúrbios mentais pelos ataques via armas de fogo que aconteceram no fim de semana. “Distúrbios mentais e ódio puxam o gatilho, não a arma”, disse. Uma série de estudos, divulgados tanto por universidades como pelo próprio governo, o desmentem. Um relatório do FBI, por exemplo, analisou casos entre os anos 2000 e 2013 e concluiu que apenas um quarto dos atiradores tinha diagnóstico de distúrbio mental. Mas o acesso a armas se mostrou muito mais determinante: em 40% dos casos, o atirador comprou a arma usada no crime de forma legal; em 35%, já tinha o armamento em casa. Apenas 2% deles adquiriram a arma ilegalmente. Os EUA têm 4,4% da população global, mas 42% das armas que existem no mundo.

O presidente até incentivou, via Twitter, que o Congresso aprove uma reforma impondo processos de verificação e requisitos “fortes” para a compra de armas de fogo… Mas vinculou essas mudanças legislativas à reforma migratória.

Em tempo: o atirador de Ohio tinha uma banda de ‘pornogrind’, com músicas sobre estuprar e matar mulheres e capas de discos mostrando estupro e massacre de corpos femininos. A Vice informa que o ‘gênero’ tem fãs no Meio Oeste. Um colega de banda, entrevistado, disse que as músicas são uma brincadeira…: “Me sinto um merda por ter deixado ele entrar na banda, fazer essas letras. Porque sei, tipo, mesmo vendo isso como uma piada – tipo ‘Vamos tocar isso e chocar as pessoas’, e das pessoas que conhecem rirem – ele não via como piada. Ele estava pensando, tipo, ‘Foda-se, vamos fazer isso mesmo’.”

EM CADA CIDADE

Ontem foi divulgada a seção ‘Retratos dos municípios brasileiros’ do Atlas da Violência 2019. O levantamento mostrou que 18 das 20 cidades mais violentas estão nas regiões Norte ou Nordeste; a maior taxa de homicídios foi Maracanaú, com 145,7 assassinatos a cada 100 mil habitantes. A Bahia é o estado com mais cidades no ranking: são cinco. O Pará tem quatro, incluindo a segunda mais violenta do país – Altamira. Já as 20 cidades menos violentas estão em São Paulo (onde estão 14 delas), Minas Gerais (três) e Santa Catarina (mais três). 

Mas, além dos rankings de municípios menos ou mais violentos, a pesquisa traz outras informações relevantes. Por exemplo, aponta que nas últimas duas décadas as cidades menores tiveram grande crescimento em suas taxas de homicídios, enquanto nas médias elas aumentaram pouco, e nas maiores houve redução. Além disso, o Altas mostra que as localidades mais violentas em geral são as mais precárias em prestação de serviços públicos – o que não surpreende, mas é bom que se demonstre sempre. 

ELIMINADOS

A taxa de ativistas pelo meio ambiente assassinados dobrou nos últimos 15 anos, segundo relatório divulgado ontem na Nature Sustainability. Ao todo, foram 1.558 mortes registradas em 50 países entre 2002 e 2017. Os mais atingidos são representantes de indígenas, e, de cada três mortes entre 2014 e 2017, três foram relacionadas à mineração e ao agronegócio. Mas a notícia piora. Se, no geral, 43% dos assassinatos são resolvidos com a condenação dos criminosos, nos casos ligados ao meio ambiente esse percentual é muito menor: 10%. “Um Estado de direito fraco leva a que casos em muitos países não sejam devidamente investigados. E, às vezes, a polícia ou as autoridadessão as responsáveis pela violência. Por exemplo, em Pau d’Arco, no Brasil, dez defensores da terra foram mortos pela polícia em maio de 2017″, diz uma das autoras do estudo. 

RUMO AO HIGIENISMO

Foi publicado ontem um decreto que detalha a possibilidade de internação involuntária de pessoas em situação de rua e usuários de drogas no município do Rio. A medida, assinada pelo prefeito Marcelo Crivella, chega oito dias depois que duas pessoas foram mortes por um morador de rua na Lagoa, bairro nobre da cidade. A internação involuntária deve durar no máximo 90 dias e vai poder ser feita a pedido de um familiar, de um responsável legal ou de servidor público da saúde ou assistência social. Um médico responsável deve formalizá-la.  O decreto também prevê a criação de um cadastro da população em situação de rua, para identificar o seu perfil. Os dados da prefeitura mostram que entre 2013 e 2016 essa população triplicou, chegando a 14 mil pessoas – mas não há mais informações depois desse período. Crivella assumiu a prefeitura em 2017. 

“O receio que se tem é de uma retirada de todos os moradores de rua”, alerta, no Estadão, o professor Carlos Guerra, do Direito do Ibmec. 

É OUTRA COISA

O argumento de que é preciso ter acesso a informação para fazer boas escolhas alimentares é enganoso, e felizmente há pesquisadores dispostos a derrubá-lo. O sociólogo mexicano Gerardo Otero, por exemplo, sustenta que as pessoas em geral não têm “capacidade econômica” para decidir. Ele é autor do livro The neoliberal diet. Healthy profits, unhealthy people (A dieta neoliberal. Lucros saudáveis, pessoas não saudáveis, ainda sem edição em português) e conversou com João Peres, do site O Joio e o Trigo. A partir de vários bancos de dados públicos, o autor mostra como o neoliberalismo nos trouxe até aqui, de modo que, hoje, as comidas nocivas estão cada vez mais disponíveis e baratas enquanto alimentos frescos vão encarecendo. Como a questão não é individual, mas sim estrutural, só pode ser resolvida pelo Estado, diz ele. Vale a pena ler o longo texto do Joio. 

Outra autora que estuda alimentação, a jornalista e escritora Bee Wilson, falou sobre isso ao Estadão. 
“Os seres humanos sempre comeram a comida que estava disponível para eles“, diz ela. Assim, o crescimento da obesidade no Brasil, por exemplo, não está ligado às “más escolhas” das pessoas, mas ao aumento da oferta de comida ruim em um curto espaço de tempo. “A obesidade nunca foi tão comum no Brasil até que as grandes empresas multinacionais de alimentos entraram e começaram a comercializar agressivamente seus produtos”, diz. Como exemplo positivo ela cita a Holanda, que conseguiu reduzir a obesidade infantil em 12% em cinco anos. Foram várias medidas tomadas ao mesmo tempo (e nada individuais), desde tornar a água a única bebida disponível em escolas até proibir a venda de ‘junk food’ em eventos esportivos. 

CONTRA O AEDES

Pesquisadores da Unicamp desenvolveram um mecanismo à base de dois ingredientes biodegradáveis e que não fazem mal à nossa saúde – amido de milho e óleo de tomilho – para acabar com as larvas do Aedes aegypti. O óleo de tomilho é o que mata as larvas; já o amido de milho é usado para estocar o óleo quando o ambiente está seco e liberá-lo aos poucos quando em contato com a água. As partículas podem continuar funcionando por até cinco ciclos de chuva. A metodologia foi descrita na revista Industrial Crops and Products e um pedido de patente foi requisitado. 

EX-MINISTROS PELO SUS

Seis ex-ministros da Saúde dos governos petistas divulgaram ontem um manifesto em defesa do SUS. O documento foi entregue ao presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Pigatto, durante a 16ªCNS.  “A reafirmação de um sistema público e universal no campo da saúde fundamenta-se, em primeiro lugar, em princípios civilizatórios e de justiça, mas também em evidências sobre as vantagens dos sistemas públicos universais em termos de custo-efetividade nas comparações com outros modelos, baseados no setor privado, planos e seguros de saúde”, diz o texto, assinado por Humberto Costa (ministro de Lula entre 2003 e 2005), José Saraiva Felipe (2005 a 2006), Jose Agenor Alvarez da Silva (2006 a 2007), José Gomes Temporão (2007 a 2011), Alexandre Padilha (ministro de Dilma de 2011 a 2014) e Arthur Chioro (2014 a 2015).

MAIS UM MILITAR

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, escolheu um nome para substituir interinamente o físico Ricardo Galvão no Inpe. Vai ser Darcton Policarpo Damião, militar da Força Aérea.

ABORTO LEGAL

O governo da Nova Zelândia vai fazer uma reforma legislativa para descriminalizar o aborto e legalizá-lo até 20 semanas de gestação. O projeto anunciado ontem também prevê a implementação de “áreas seguras” perto das clínicas de aborto para evitar assédio ou ataques por parte de opositores.

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