Recomendados, mas inacessíveis

Por alto preço e baixa disponibilidade, tratamento que pode salvar pacientes graves com covid-19 não deve chegar a quem mais precisa. OMS pede que fabricantes façam acordos de licenciamento voluntário

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A OMS decidiu recomendar o uso dos anticorpos monoclonais tocilizumabe e sarilumabe para tratar casos graves de covid-19, depois da publicação no JAMA de um amplo estudo sobre a atuação das drogas. Analisando 27 testes clínicos randomizados que envolveram cerca de 11 mil pacientes em 28 países, os pesquisadores viram que, quando combinadas com corticosteroides, as drogas diminuíram em 13% o risco de morte e em 28% a necessidade de ventilação, comparando com o tratamento padrão. O estudo foi coordenado pela OMS em parceria com instituições como King’s College London e University College London.

Esses medicamentos são antagonistas de interleukina-6, uma proteína usada na regulação de inflamação aguda e crônica, que pode gerar inflamação excessiva. Como sabemos, o sistema imunológico de pacientes com covid-19 pode reagir exageradamente e provocar a chamada tempestade de citocinas. A iterleukina-6 é uma dessas citocinas, e os medicamentos em questão atuam para suprimir essa reação desmedida.

Mas há um problema. Assim como outros anticorpos monoclonais, eles são muito caros, e o diretor-geral da OMS, Tedros Gebreyesus, reconhece que podem nunca chegar a quem mais precisa: “A distribuição desigual de vacinas significa que as pessoas em países de baixa e média renda são mais suscetíveis a formas graves de covid-19. Portanto, a maior necessidade desses medicamentos está nos países que atualmente têm menos acesso. Precisamos mudar isso com urgência”.

Também há limitação na oferta, como observa o Health Policy Watch. A Roche é a única produtora de tocilizumabe, que está no mercado há anos para tratamento de doenças reumatológicas. Segundo o Médicos sem Fronteiras, sua patente expirou em 2017, mas várias patentes secundárias ainda vigoram ao redor do mundo. Para se ter uma ideia, o preço de cada dose para covid-19 varia de US$ 410 na Austrália até $ 3.625 nos EUA. Já o sarilumabe foi desenvolvido pela Regeneron e pela Sanofi, e a Regeneron detém sua patente em pelo menos 50 países de média e baixa renda. 

A OMS pediu que os fabricantes façam acordos de licenciamento voluntário ou renunciem aos direitos de exclusividade. E também lançou uma manifestação de interesse para pré-qualificar outras farmacêuticas que produzam medicamentos antagonistas de interleucina-6. A ver.

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