Os dados e Israel e uma pergunta: a variante Delta escapa da vacinação?

Governo anuncia queda de eficiência da Pfizer para 64% com a variante – mas proteção quase intacta contra casos graves e internações. Distribuição de novas mortes no mundo sugere que falta de vacinas é problema bem maior do que a disseminação das novas cepas

Imagem: Pixabay

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O Ministério da Saúde de Israel divulgou ontem a informação de que houve uma queda muito brusca da efetividade da vacina da Pfizer diante da variante Delta: a proteção contra covid-19 sintomática caiu de 94,3% em maio para 64% em junho. No fim de maio, a Delta era responsável por 9,3% das infecções no país, mas nas últimas semanas sua prevalência deu um salto, chegando a quase 60% em meados de junho, segundo a plataforma Our World in Data, e a 90% agora, de acordo com o Times of Israel.

Porém, os dados também mostram que a vacina continua altamente eficaz na prevenção de sintomas graves e hospitalizações; nesse caso, a proteção caiu muito menos, de 98,2% para 93%. Os dados relacionados a isso são animadores: 2,5% dos infectados tiveram covid-19 grave nas ondas anteriores, contra 0,5% agora. Isso leva a crer que o impacto na curva de óbitos deve ser baixo. Por enquanto, elas estão zeradas, mas, como os novos casos começaram a aumentar em meados de junho, ainda é preciso ver o que acontece com o tempo.

No geral, faltam algumas informações para compreender o que está acontecendo, até porque os percentuais de proteção foram divulgados isoladamente, sem nenhum dado adicional. Segundo Ran Balicer, presidente do Painel Nacional de especialistas de Israel sobre a doença, há poucos casos entre pessoas totalmente vacinadas, e eles não estão uniformemente distribuídos entre a população, o que torna difícil avaliar o quanto as infecções estão de fato relacionadas à falhas da vacina. Embora Israel tenha sido um dos países a vacinar mais rápido no começo das campanhas pelo mundo, o número de pessoas totalmente imunizadas estacionou em 55%-60% da população no fim de março.

Além disso, a alta nas infecções coincide com o relaxamento total das medidas restritivas, o que pode ter ajudado o vírus a se propagar entre não-vacinados. De todo modo, o governo vai promover dois estudos para avaliar a eficácia da vacina e seu desgaste ao longo do tempo. 

A maior preocupação

Vale lembrar que dados do Reino Unido – onde a taxa de vacinação é ligeiramente menor que a de Israel e onde hoje mais de 97% das infecções são provocadas pela Delta – mostraram que as vacinas da Pfizer de de Oxford/AstraZeneca são extremamente efetivas para evitar hospitalizações relacionadas a essa variante, ambas oferecendo mais de 90% de proteção após duas doses. Os casos estão crescendo por lá, mas as internações permanecem estáveis. E ainda não há evidências de que a Delta seja mais mortal do que outras cepas. 

Até agora, os ensaios com os imunizantes disponíveis têm indicado que eles são muito bons em evitar internações e mortes, contra todas as cepas já identificadas. Isso indica, que, muito mais do que a Delta, neste momento o maior problema do mundo é não haver vacina para todos. 

Hoje, quando se olha para os dez países com maior taxa de novos óbitos por milhão de habitantes, em nenhum deles a Delta é dominante, até onde se sabe. E todos, exceto o Uruguai, têm menos de 15% da população totalmente vacinada. Dois países africanos que até pouco tempo atrás despertavam pouca atenção na pandemia – Namíbia e Tunísia – estão hoje no topo do ranking das novas mortes. No geral, o mapa de óbitos recentes no mundo aponta para dois focos claros de preocupação: a América do Sul e parte do continente africano.

Se levarmos em conta que praticamente todos os patógenos contra os quais existe vacina continuam circulando entre nós, talvez seja demais esperar que os imunizantes nos levem a um cenário de erradicação do coronavírus no curto prazo. Mas dá para acabar com o horror da pandemia mesmo assim – desde que os esforços para isso alcancem toda parte.

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