Pior que a primeira

Manaus bate recorde de sepultamentos diários e veta realização do Enem

Foto: Simeam

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O crescimento é rápido e inequívoco: 144 no domingo, 150 na segunda, 166 na terça e 198ontem. Estamos falando do número de sepultamentos diários em Manaus, que nesta quarta foi o maior de todo o período da pandemia, quebrando o recorde anterior, que tinha sido de 167 enterros em um dia em abril. A segunda onda da covid-19, por lá, já parece mais violenta que a primeira. Nem todas os óbitos são pelo coronavírus, mas grande parte, sim. Entre os de ontem, 87 foram de casos confirmados, sendo que 26 pessoas haviam morrido em casa. E, dado o colapso na saúde, boa parte das mortes por outras doenças deve estar indiretamente ligada à pandemia também. 

Outro recorde ficou marcado ontem na cidade, que registrou, nos 12 primeiros dias de janeiro, 2.221 novas internações por covid-19 – é mais do que o total do mês de abril, primeiro pico da pandemia no Amazonas. A matéria da Folha relata como muitos pacientes peregrinam pela cidade em busca de vaga e como, para quem consegue um leito, a luta continua: falta oxigênio em várias unidades. O governo estadual está usando aviões da FAB para trazer oxigênio de outros estados e tentar atender à demanda. 

As taxas de ocupação de leitos de UTI, que já bateram os 90%, sugerem que os critérios para admissão devem estar cada vez mais apertados, o que explica a quantidade de gente morrendo em casa: já foram 169 desde o incio do ano. “O exame constatou uma mancha no pulmão dela, mas o médico disse que não tinha como internar, e mandou de volta para casa. Isso foi na sexta. Ontem, quando eu acordei, ela estava morta na cama dela. Foi muito rápido”, diz na reportagem Esteliano Lopes, padrasto de uma das vítimas. 

Sem condições

A prefeitura de Manaus decidiu vetar a realização do Enem na cidade (marcado para este domingo e o próximo) e vai pedir nova data de aplicação. “Prefiro arcar com o ônus de tomar a decisão de não fazer a prova do que ter a culpa de ter liberado para pessoas se algomerarem, serem infectadas e irem a óbito”, declarou Pauderney Avelino, secretário de Educação. Em seguida, a Justiça Federal do Amazonas mandou suspender a aplicação do exame em todo o estado.

O presidente do Inep, Alexandre Lopes, não quer que outros municípios sigam o exemplo: “O prefeito que decidir não liberar Enem corre risco de ter prova cancelada. Não posso garantir a reaplicação em cidades inteiras”, disse ao Globo. Segundo ele, há “um diálogo e uma boa vontade de ambas as partes” no caso de Manaus para possibilitar uma nova data por lá, mas isso não vai acontecer em outros lugares.  É claro que a discussão seria evitada se o Inep optasse por adiar o exame em todo o país. 

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