Paraíso às avessas

Não bastasse o Pacote do Veneno, agora um PL quer restringir a venda de orgânicos

Agrotóxicos: Tem Copa do Mundo rolando, mas não dá para deixar de lado as discussões sobre o Pacote do Veneno

O resumo dessa e outras notícias aqui, em nove minutos

03 de julho de 2018 (editada em 05 de julho de 2018)

PARAÍSO ÀS AVESSAS

Tem Copa do Mundo rolando, mas não dá para deixar de lado as discussões sobre o Pacote do Veneno, que está perto de ser votado no plenário da Câmara. A Agência Pública entrevistou Fernando Carneiro, pesquisador da Fiocruz, e ele diz que um dos pontos mais perigosos do projeto é centralizar no Ministério da Agricultura a avaliação de novos produtos e a autorização de registros – hoje, os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente também precisam analisar. O país vai virar um “paraíso dos agrotóxicos”, de acordo com ele.

Em ano de eleições, o Huffpost foi atrás das declarações que alguns pré-candidatos fizeram sobre o Pacote. Álvaro Dias (Podemos) disse que é “prematuro” emitir opinião; Flávio Rocha (PRB) é favorável, pois a legislação atual está “defasada” e o agronegócio sofre “preconceito”; Bolsonaro disse que, se depender dele, o Ministério da Agricultura decide sozinho sobre a liberação dos agrotóxicos; Alckmin ficou meio em cima do muro, mas disse que é favorável à criação de mecanismos que permitam reduzir o tempo de aprovação; Guilherme Boulos (PSOL) considera o PL “um atentado contra o meio ambiente e contra a saúde humana”; Marina Silva (Rede) e Manuela D’Ávila (PCdoB) criticaram o PL nas redes sociais; e a assessoria da pré-campanha de Lula disse que é contra. Ciro Gomes (PDT), João Amoêdo (Novo), Rodrigo Maia (DEM) e Henrique Meirelles (MDB) não disseram nada.

“Mais pessoas, mais alimentos, água pior?” é o título de uma publicação lançada pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e pelo Instituto Internacional de Gestão da Água, que revisa a poluição hídrica provocada pela agropecuária no mundo. Além de usar 70% da água consumida no planeta, a agricultura como é praticada despeja enormes quantidades de agrotóxicos, enquanto o gado gera toneladas de excrementos. Um resumo está na Exame.

OLHO VIVO

O avanço das clínicas privadas baratas em São Paulo foi estudado pelo sociólogo Ricardo Lima e uma discussão sobre sua pesquisa está nessa matéria do Jornal da USP. “Dr. Consulta” e “Dr. Alegria” oferecem atendimento ambulatorial e de média complexidade, têm consultas que custam entre R$ 70 e R$ 120 e estão em diversas regiões da capital e do litoral. Ricardo Lima diz que elas são pouco perto do tamanho do SUS, mas não deveriam ser ignoradas. “A questão hoje é que estamos saindo de uma discussão da universalidade do direito à saúde e estamos discutindo formas de cobrir a saúde para toda a população, e não importa como isso seja feito, se vai ser pago ou não. O interesse dessa cobertura universal, que não é o sistema universal que a gente tem, é uma parceria entre público e privado que fique cada vez mais oficializada para os governos”, afirma.

Por falar em preços, em sua coluna do Globo, a sanitarista Ligia Bahia falou ontem sobre as últimas decisões da ANS em relação aos planos com coparticipação e franquia. Seria um jeito de aprovar, “por vias tortas“, os planos acessíveis propostos pelo ex-ministro da Saúde Ricardo Barros, que foram barrados no Congresso: “Existem evidências cabais sobre a interdependência entre planos privados e SUS. As filas para a rede pública aumentaram durante a onda de crescimento dos planos. E a recente pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina expõe a insatisfação dos entrevistados com a saúde pública (87%) e privada (94%), e sugere a importância do SUS para a maioria (88%)”.

E os efeitos do reajuste dos planos – em 10%, bem acima da inflação – sobre o bem-estar das famílias é comentado pelo economista Carlos Ocké-Reis neste artigo.

MÁS INTENÇÕES

A revista Radis traz este mês uma reportagem especial sobre fake news, que, se no fundo é algo que existe desde sempre, sem dúvidas encontra terreno bem fértil na internet. Há sites especializados em criar e disseminar mentiras e, na saúde, elas causam grandes problemas. Na última epidemia de febre amarela, por exemplo, as pessoas mataram macacos, deixaram de se vacinar e entraram em pânico com notícias falsas.

MENOS PRESENTES E MENOS RECONHECIDAS

Não existe biologicamente nada que determine que mulheres tenham menos afinidade com as ciências mas, ainda assim, elas são minoria: só 28% dos pesquisadores no mundo são mulheres e, enquanto 572 homens já ganharam prêmios Nobel de Medicina, Química e Física, só 17 mulheres conseguiram o mesmo. A Unesco lançou um estudo sobre isso e a Agência Brasil conversou com sua autora, Theophania Chavatzia. Ela conta que, embora meninas pequenas se interessem por exatas, o interesse vai caindo conforme elas vão crescendo e os esteriótipos de gênero vão se reforçando: é uma questão de socialização.

No Panteão de Paris, que guarda restos mortais das maiores personalidades da França, até semana passada havia 76 homens e 4 mulheres. Agora tem mais uma: no domingo, uma cerimônia levou ao Panteão o caixão de Simone Weil, primeira mulher a ocupar a Ministério da Saúde francês e responsável pela lei que legalizou o aborto no país em 1975. Ela morreu no ano passado.

CUIDADOS INVERSOS

Morreu este fim de semana o médico inglês Julian Hart, defensor do NHS, o sistema de saúde pública inglês [aliás, o sistema completa 70 anos nesta quinta]. Em coluna na Folha, Claudia Collucci lembra sua teoria dos cuidados inversos: quem mais precisa dos serviços de saúde é quem tem menos acesso a eles. “Em áreas com maior número de doenças e mortes, os médicos generalistas têm mais trabalho, listas maiores, menos apoio hospitalar e herdam tradições de consulta clinicamente mais ineficazes do que nas áreas mais saudáveis. E os médicos dos hospitais suportam cargas de casos mais pesadas, com menos pessoal e equipamento, edifícios mais obsoletos e sofrem crises recorrentes na disponibilidade de leitos e pessoal”, escreveu Hart há quase 50 anos.

UMA COLHER GIGANTE E UM ARTISTA PRESO

O que essa chamada tem a ver com saúde? De vez em quando a gente fala aqui sobre a crise dos opiáceos nos EUA, país onde o número de overdoses por essas substâncias já caracteriza uma epidemia. Já falamos de como a indústria farmacêutica está envolvida nisso: é comum que as pessoas comecem consumindo legal e legitimamente remédios para dor e, depois, acabem viciadas e recorrendo à heroína, mais barata. E empresas têm sido acusadas pela propaganda que fazem omitindo e contornando deliberadamente informações sobre o potencial viciante de seus remédios. Agora, um artista plástico criou a escultura de uma colher gigantesca e entortada – objeto frequentemente usado no consumo de heroína – e colocou em frente à Purdue Pharma, empresa que há mais de 20 anos começou a vender e propagandear um dos mais famosos opiáceos para dor (o Oxycontin). Domenic Esposito, o artista, tem um familiar que, justamente, se viciou em analgésicos e passou à heroína. Ele não obedeceu aos pedidos da polícia para que removesse a escultura, e foi preso. A história está no Nexo.

O CASO DE JANAÍNA

Amanhã a Corregedoria de SP vai ouvir testemunhas do caso de Janaína Quirino, a mulher cuja laqueadura forçada impressionou todo o país. É que Janaína nega ter concordado com o procedimento, mas advogados dizem tê-la ouvido dizer que autorizava. Vão falar advogados que estiveram com ela na cadeia e uma assistente social.

O ENVELHECIMENTO E O SUS

Alexandre Kalache, ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS conversa com a Radis. “O SUS foi uma grande conquista e hoje está ameaçado. A única chance de envelhecer bem é com um sistema universal de saúde forte que funcione para absorver os problemas e evitar as complicações que vão exigir hospitalização. Só isso pode resolver as questões na base”.

188 DE GRAÇA

O Ministério da Saúde informa que fez uma parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVC) para tornar gratuitas em todo o país as ligações para o 188, número do CVC voltado orientar pessoas que estejam pensando em suicídio. A pasta passou R$ 500 mil ao CVC e já havia gratuidade em vários estados. O CVC tem 2.400 voluntários que não necessariamente têm formação em psicologia, mas uma capacitação de 40h.

EBOLA SOB CONTROLE

Depois de sete semanas, o surto na República Democrática do Congo está chegando ao fim, segundo o Ministério da Saúde. Todas as pessoas potencialmente expostas ao vírus já estiveram isoladas por um período de 21 dias, tempo suficiente para aparecem sintomas. Mas não ficaram doentes. Boa notícia.

VAI TER QUE EXPLICAR

Ontem falamos aqui sobre o alerta do Ministério da Saúde quanto ao risco de retorno da poliomelite em 312 cidades. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão quer entender melhor. Pediu à secretaria de Vigilância em Saúde informações sobre as causas do problema, as medidas desencadeadas e as ações da política nacional de imunizações pra resolver a situação. O prazo para resposta é de cinco dias, informa o Estadão.

ESTÁ ACONTECENDO

No caso do sarampo, a volta já é uma realidade: temos surtos. No Amazonas, já são 263 casos confirmados e, em Roraima, 200. Fora os mais de mil que estão em investigação nos dois estados. E Mato Grosso tem dois casos.

TESTES

Ainda não tem cura, mas um remédio experimental conseguiu desacelerar a progressão e os sintomas da doença de Parkinson em ratos. É da Universidade Johns Hopkins.

E também foram feitos testes sobre o que pode se tornar uma boa nova em relação ao mal de Alzheimer: um estudo da Universidade Rush sugere que o uso de aspirinas pode amenizar os sintomas. Ainda são necessárias mais evidências para, de fato, comprovar o efeito e, em comprovando, determinar doses e frequências. Não é pra ninguém sair tomando aspirina, até porque há efeitos colaterais.

AGENDA

Estão rolando os cursos de férias na Fiocruz, como este aqui, sobre expressões do racismo e saúde. Quem não está inscrito pode participar como ouvinte.

EDIÇÃO: a primeira versão desse texto divulgava uma reportagem sobre um projeto de lei que supostamente restringia a venda de produtos orgânicos, impedindo sua comercialização em supermercados. Retiramos a informação e a corrigimos na newsletter do dia 05 de julho. Na realidade o projeto estabelece que a venda direta, ou seja, feita diretamente pelos produtores aos consumidores, vai ser possível apenas em feiras livres e propriedades particulares… Mas a venda em supermercados não é direta, então o PL não tem a ver com ela.

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