Eleições mexicanas: o que esperar na saúde?

O México elegeu ontem o candidato de esquerda López Obrador para a presidência, com ampla vantagem.

López Obrador venceu as eleições presidenciais na terceira tentativa. A foto é do encerramento de sua campanha anterior, em 2012. Crédito: ProtoplasmaKid / Wikimedia Commons

O resumo dessa e outras notícias aqui, em dez minutos.

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ELEIÇÕES NO MÉXICO

O país elegeu ontem o candidato de esquerda López Obrador para a presidência, com ampla vantagem. “É um Lula mexicano“, diz a manchete naCarta Capital, que lista semelhanças a partir de uma entrevista com o analista político Julio Astillero. No El País, dúvidas sobre a futura gestão, vista como enigmática. A matéria diz que ele se aproximou da elite empresarial e encarnou a figura “paz e amor”, mas não apresentou planos concretos.

Em sua última mensagem da campanha, Obrador falou de muitas coisas – prometeu acabar com a corrupção, combater a escalada de violência sem violar direitos humanos, reduzir salários dos altos funcionários públicos para aumentar os dos baixos, fortalecer a educação gratuita e e qualidade, aumentar aposentadorias… Mas, em relação especificamente à saúde em um sentido mais estrito, não disse muito. Afirmou que vai haver atenção médica e medicamentos gratuitos, que não se vai privatizar a água e que “os esportes serão parte fundamental do plano de saúde pública”.

Voltado a médicos, este site diz que, no último debate presidencial, na verdade ninguém foi fundo no tema, mas apenas Obrador anunciou seu ministro da saúde. Vai ser o reumatologista Jorge Alcocer, que defende “buscar e integrar um sistema de saúde universal”, aumentar os investimentos em saúde em 8% ao ano e ter um enfoque humanizado nos atendimentos médicos.

Durante a campanha, Obrador garantiu que não vai privatizar órgãos de saúde pública. Seu partido, o Morena, tem um site específico para tratar do tema e propõe, entre outras coisas, aumentar o financiamento em 1% do PIB (hoje ele equivale a 5,8% do PIB) e implementar um sistema efetivo de emergências.

NO BRASIL…

Oito candidatos à presidência foram convidados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar para falar de seus planos de governo, entre eles Alckmin, Bolsonaro, Ciro e Marina. Nenhum falou do controle de agrotóxicos nem de obesidade à entidade, que, com boas razões econômicas para isso, contesta os estudos sobre os malefícios do açúcar.  Está no site O joio e o trigo.

E o Pacote do Veneno, que está passando pela Câmara e a gente tem acompanhado, é foco desta matéria de Felipe Betim no El País. Ela diz que estamos na contramão dos EUA e da Europa. Nesse continente, agrotóxicos precisam ter sua liberação renovada a cada dez anos e, nos EUA, ainda nos anos 1970 a responsabilidade pela regulamentação passou do Departamento de Agricultura para a Agência de Proteção Ambiental. Na Rede Brasil Atual, Cida de Oliveira informa que a renúncia fiscal com agrotóxicos custa ao Brasil R$ 9 bilhões.

ÚNICOS CRESCENDO

Idosos são a faixa etária que mais cresce em relação ao consumo de planos de saúde, principalmente a partir dos 80 anos. A informação é das repórteres Fabiana Cambricoli e Priscila Mengue, do Estadão, a partir de dados da ANS. Segundo a matéria, nos últimos três anos a clientela idosa foi a única que cresceu como consumidora de planos e, no geral, o número de beneficiários caiu. A reportagem diz ainda que o crescimento da longevidade vai aumentar os custos das operadoras (o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar de SP estima que as despesas assistenciais do setor vão saltar de R$ 149 bilhões para R$ 383 bilhões em 2030) e, certamente, das mensalidades.

A gente aqui só fica pensando que a população que depende do SUS também vai envelhecer mas, para o Sistema, os investimentos federais estão congelados pela Emenda 95.

Em tempo: depois da saraivada de críticas em relação às mudanças nos planos com coparticipação em franquia (falamos disso semana passada), a ANS disse que “protege o consumidor” por fixar regras onde antes havia um terreno pantanoso. Mas vale lembrar que, como dissemos aqui, as regras fixadas são piores para os consumidores do que as sugestões de outrora (a sugestão anterior, ainda que sem ser regra, era um teto de 30% do valor dos procedimentos, mas ele agora foi estabelecido em 40%, podendo chegar a 50% em planos empresariais com acordos coletivos).

TRÊS ENTREVISTAS

O envelhecimento da população esteve em vários cantos no fim de semana. O El País conversou com o médico Ezequiel Emanuel, um dos formuladores do Obamacare. Além de criticar Donald Trump, ele defendeu que as pessoas não precisam necessariamente viver mais, mas sim viver melhor. Disse que coisas como “comer bem, não fumar e fazer exercício são mais valiosas que o novo exame ou a nova ressonância”, e que se deveria investir mais dinheiro nas crianças, ensinando-as a viver dessa forma.

A dimensão psíquica e social da velhice é objeto de estudo de Junia de Vilhena, que falou ao G1 sobre um clima de “gerontofobia” que envolve o Brasil: “Parece que ser velho é deselegante”, diz.

E o conceito de idoso está… velho, segundo Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea especializada nisso. Em entrevista à Folha, ela diz que, hoje, quem tem 70 é como quem tinha 50 antes. Defende o estabelecimento de idade mínima para aposentadoria, afirma que as pessoas estão se aposentando muito novas (mulheres com em média 54 anos, homens com 58), mas reconhece que o aumento da idade para aposentadoria teria que vir com políticas de inserção de idosos no mercado de trabalho, porque hoje muitos acima dos 50 anos não estão aposentados mas também não encontram emprego. E afirma que, embora seja preciso garantir que as pessoas envelheçam com saúde, educação, trabalho e renda, o Brasil está bem por fora desse caminho.”Pode ser que as pessoas não consigam se aposentar”, afirma, e acrescenta que, na saúde, o projeto do SUS é “muito avançado”, mas “o acesso é difícil”.

NA AMAZÔNIA

Para acabar com dores em indígenas da região amazônica, remédios tradicionais funcionam melhor do que os “de branco”. Uma pesquisa da enfermeira Elaine de Morais baseado em entrevistas mostrou que os medicamentos “de branco” são usados em 87% dos casos e aliviam a dor em 22%, enquanto os “do mato” são usados em 80% e resolvem 64,5% dos casos.

Mas pra picada de cobra a coisa se complica, e o Brasil tem um problema importante. É nas comunidades amazônicas que acontecem 35% dos acidentes, mas a maioria não tem eletricidade pra manter o antídoto refrigerado. O soro produzido no Brasil (pelos laboratórios públicos Butantan, Vital Brasil e Ezequiel Dias) é líquido e precisa ser mantido em baixas temperaturas. O Butantan chegou a produzir soro em pó em caráter experimental – e deu certo -, mas, sem dinheiro, não deu sequência.

VULNERÁVEIS

Na Índia, 524 milhões de pessoas não têm banheiro e precisam defecar ao ar livre. Mas o que já é ruim fica ainda pior para mulheres: elas ficam vulneráveis a estupros. Por medo, procuram ir em grupo e, além disso, evitam beber água de propósito, para sentirem menos vontade de ir ao mato. Elas basicamente se desidratam por medo de estupro e descobriu-se que, durante ondas de calor, têm mais risco de morte do que os homens.

Por aqui, o perigo continua em casa. O Ministério da Saúde divulgou um boletim epidemiológico mostrando que as notificações de violências sexuaiscontra crianças e adolescentes cresceu 83% entre 2011 e 2017. Como já acontecia, a maior parte das agressões acontece em casa, muitas (mais de 30%) se repetem, e agressores são pessoas do convívio da vítima, sobretudo familiares – na  maioria esmagadora das vezes, são homens. Já as vítimas são em geral do sexo feminino, especialmente as adolescentes (92,4% no caso delas e, entre as crianças, 74,2%). No caso das crianças, 45,5% das vítimas são negras, contra 39% brancas. A diferença aumenta nas adolescentes: 55,5% são negras e 32,5% brancas.

E, na Suécia, agora é oficial: todo ato sexual sem consentimento claro é considerado estupro. A ‘lei do consentimento‘ começou a valer ontem.

UTILIDADE PÚBLICA

O SUS oferece oito tipos de contraceptivos, inclusive DIU anticoncepcional injetável, mas muitas vezes é difícil conseguir algo além de camisinha masculina e pílula. A BBC diz o que fazer em caso de dificuldades. Usuárias podem procurar as ouvidorias, reclamara no Disque Saúde (discando 136) e recorrer ao Ministério Público.

VOLTA DA POLIOMELITE

Ela é um risco em 312 municípios do país, segundo o Ministério da Saúde. Não há registros da doença há 28 anos. Na lista com maior risco, cidades que não atingem cobertura vacinal nem de 50% (quando o objetivo é bater os 95%). Na Bahia, 15% dos municípios estão nessa situação e, no Maranhão, 14,29%.

GRIPE

Já morreu mais gente de gripe este ano do que em todo o ano passado no estado de São Paulo: foram 206 pessoas, contra 200 em 2017.

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