Para Bolsonaro, mortes por coronavírus são motivo de piada

“E daí?” foi a resposta dada pelo presidente ao ser questionado sobre novo recorde mortal da epidemia brasileira

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 29 de abril. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui.

“E daí? Quer que eu faça o quê?”. Jair Bolsonaro chocou o país com essa mesmíssima reação após o incêndio do Museu Nacional, quando concorria à presidência. Já no governo, também lançou a indagação quando confrontado com dados que indicavam o aumento das queimadas na Amazônia. Mas nunca essas palavras tiveram um tom de deboche tão pesado quanto ontem, quando ele se referiu às pessoas que morreram por covid-19 no Brasil – e, por tabela, às milhares que ainda vão morrer. As palavras foram ditas à noite, em frente ao Palácio da Alvorada, em referência ao (novo) recorde de óbitos diários registrados no país. Foram 479 entre segunda e terça-feira, chegando a um total de 5.385. O número de casos no extremamente subestimado registro oficial chegou a 71,8 mil.

No vídeo, ouvem-se risadas com ‘piada’ que o presidente fez a seguir: “Eu sou Messias, mas não faço milagre”. Depois de ser informado de que sua entrevista estava sendo transmitida ao vivo, ele tentou parecer menos cruel, mas, convenhamos, nem assim foi bom: “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida”.

O escárnio é ainda maior porque, desde que a pandemia começou, tudo o que modelos matemáticos, especialistas de saúde pública, a OMS e até jornalistas fazem justamente é indicar o que ele e outros chefes de Estado deveriam fazer. Bolsonaro prosseguiu sua ‘argumentação’ ontem explicando que “o vírus vai atingir 70% da população, infelizmente é a realidade”. Mesmo que seja essa a realidade (o que ninguém tem certeza ainda), já estamos cansados de saber que 70% da população procurando atendimento de uma vez só é muito, muito diferente do que de forma escalonada.

Parece que, na cabeça do presidente, o melhor é que esses 70% (147 milhões de brasileiros) se infectem logo, que deixemos mesmo morrer na fila do hospital quem poderia ser salvo em condições adequadas e que tudo acabe o quanto antes porque ‘o Brasil não pode parar’. Ele voltou a dizer que está preocupado com a economia: “O próprio pessoal da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) de hoje disse que tem que ser retomado”. Antes, havia conversado com empresários da Firjan por videoconferência e garantiu a eles: “Hoje mesmo conversei com o ministro da Saúde e ele é favorável, vai emitir um parecer de modo que se volte com o futebol, com portões fechados (…). É, da nossa parte, o que nós podemos fazer, nós estamos colaborando com pareceres de modo que o comércio volte a funcionar o mais rápido possível”. Como já dissemos por aqui, o primeiro protocolo de reabertura no Brasil não foi feito pelo governo federal, mas pela Fiesp.

A propósito: termina hoje o prazo para que o presidente apresente o laudo do seus exames do novo coronavírus. Como dissemos aqui, na segunda-feira o Estadão conseguiu na Justiça o direito de obtê-los em 48 horas. O presidente segue afirmando que não pretende obedecer: “Eu quero mostrar que eu tenho o direito de não mostrar. Pra que isso? Daqui a pouco quer saber se eu sou virgem ou não, vou ter de apresentar exame de virgindade para você. Dá positivo ou negativo, o que vocês acham aí?”, disse Bolsonaro, também no Alvorada.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos