O massacre de Suzano e o ódio cultivado na internet

Autores do atentado buscaram dicas em fórum extremista e são vistos como mártires. Leia também: um ano sem Marielle; a ONU prevê milhões de mortes pela poluição, e muito mais

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EM TORNO DE SUZANO

Desde ontem de manhã, circularam rápido as informações mais objetivas sobre o tiroteio na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. Pelo menos 10 pessoas morreram e outras 11 ficaram feridas. Os dois atiradores – Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, e Guilherme Taucci Monteiro, de 17 – eram ex-alunos. Entraram encapuzados na escola, com um revólver, uma besta, um arco e flecha e uma machadinha. Atiraram contra trabalhadores e colegas e se mataram em seguida.

Embora não tenha sido o primeiro caso do tipo (o Estadão lembra outros tiroteios em escolas no Brasil, como o de Realengo em 2011 e o de Medianeira no ano passado), é claro que discussões sobre a flexibilização do porte de armas voltaram à mesa. 

Simploriamente, o general Mourão atribuiu os crimes aos videogames. “Na minha opinião (…) vemos essa garotada viciada em videogames (…) videogames violentos. Tenho netos e os vejo muitas vezes mergulhados nisso aí”, disse, afirmando que o debate sobre armas não tem nada a ver com a questão. “Vai dizer que a arma que os caras estavam lá era legal? Não era. Não tem nada a ver, né?”. Flavio Bolsonaro foi mais longe e culpou o Estatuto do Desarmamento, acompanhando pelo major Olimpio, que defendeu nas redes sociais que a tragédia seria evitada se os professores estivessem armados. Ele ainda falou que a redução da maioridade penal poderia inibir casos como este… Desconsiderando  que em geral os atiradores se matem no fim. Já Bolsonaro demorou seis horas para dizer algo. Prestou condolência às famílias e disse que foi “uma covardia e monstruosidade sem tamanho”. 

Em tempo, ter gente armada nas escolas é também o que defende Donald Trump em seu país. E, lá, alguns estados já fazem isso. Mas o Nexo explica por que é uma ideia sem sentido: os dados disponíveis sobre circulação de armas e crimes violentos refutam fácil o argumento. 

Bom, por enquanto ainda não se descobriu nada sobre videogames. Mas já se sabe outra coisa: segundo a apuração do R7,  Guilherme e Luiz frequentaram o Dogolachan, um fórum acessível na dark webe usado por homens que seu autointitulam ‘masculinistas’, que nutrem ódio por minorias e reverenciam quem comete esse tipo de crime. Nos ‘chans’, usuários não precisam se identificar e podem basicamente fazer e falar qualquer coisa. Os rapazes chegaram a pedir dicas por lá sobre como fazer o atentado. “Fique com Deus, meu mentor. O sinal será a música no máximo 3 dias depois estaremos diante de Deus, com nossas 7 virgens”, mostra o print de uma mensagem supostamente enviada ao administrador do fórum.

Pouco depois das mortes, os dois já eram heróis nos chans, embora alguns usuários lamentem o fato de que eles não conseguiram matar mais gente. Para quem não sabe ou lembra, a professora e militante feminista Lola Aronovich passou quase uma década denunciando as ameaças e ações de ódio contra ela por parte de frequentadores desses espaços, que chegaram a expor seu nome e endereço. O Dogolachan foi enfim alvo de uma grande operação da Polícia Federal, e no ano passado um dos seus criadores foi preso e condenado a 41 anos. O outro está foragido.

Quando aconteceu o massacre em Realengo, Lola foi a primeira a apontar uma possível ligação entre Wellington Menezes de Oliveira, autor do crime, e fóruns de masculinistas. Estava certa: a polícia acabou descobrindo sua relação com o Homini Sanctus, que depois deu origem ao Dogolachan. Ontem, em seu blog, Lola escreveu que deixou de acompanhar o fórum depois que ele foi para a dark web. “Entretanto, durante os quatro anos e pouco que li o chan, posso dizer que não houve um só dia em que os membros não fantasiavam com o dia em que teriam acesso livre a armas de fogo. Todos votaram em Bolsonaro, o candidato que lhes prometia isso”. (Mas atenção, a foto que está circulando com um dos atiradores de camisa do Bolsonaro é montagem).

A coordenadora da escola, Marilena Umezu, foi a primeira pessoa a ser morta. No início do ano, tinha se manifestado no Facebook sobre armas: “Somos a favor do porte de livros“.  

UM ANO SEM ELA

Hoje faz um ano que Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados. O Intercept publicou um relato da irmã de Marielle, Anielle Franco. Já o Brasil de Fato conversou com sua mãe, Marinete da Silva. Agora de manhã e ao longo do dia, vai haver atos por todo o Brasil e em pelo menos 14 países

Esta semana a piauí publicou uma grande matéria que resume as investigações desde que elas tiveram início, entremeando-as com a atuação de Marielle e com a própria história das milícias no Rio. Vale a pena.

Depois que foram dadas importantes – mas ainda insuficientes – respostas sobre o crime, o delegado Giniton Lages, responsável pela investigação, vai ser afastado do caso pela Polícia Civil. A notícia foi dada no blog de Lauro Jardim no Globo e, segundo o jornalista, oficialmente o motivo é que o delegado “cumpriu sua missão’. A segunda etapa, responsável por descobrir quem mandou matar e por quê, vai ter outro encarregado, que será indicado na semana que vem.

O próprio Lages ficou sabendo do afastamento pela notícia da coluna. Segundo uma matéria do mesmo site, ele e o atual diretor do Departamento Geral de Homicídios tinham certas “diferenças“, porque Lages não abria os dados do inquérito para o diretor. Mas o governador do  Rio, Wilson Witzel, disse que Lages está “esgotado” e acumulou “muita informação”, por isso foi convidado a sair e passar quatro meses num intercâmbio na Itália.

ALERTAS – E UMA GRANDE DIFICULDADE POLÍTICA

A ONU lançou ontem um relatório – o 6º Panorama Ambiental Global, elaborado por 250 cientistas de mais de 70 países durante seis anos – que avalia aspectos como poluição do ar e dos oceanos, perda de biodiversidade, desmatamento, disponibilidade de água potável, mudanças climáticas e uso de recursos naturais. Intuitivamente, qualquer um sabia que os dados deviam ser ruins… Mas mesmo assim alguns números impressionam. Uma em cada quatro mortes prematuras e por doenças no mundo está relacionada com danos ao meio ambiente provocados pelo homem. Em 2015, foram 9 milhões de mortes por isso. E só a poluição do ar pode ser responsável por mais 7 milhões até a metade do século, se continuar crescendo na mesma velocidade. 

No geral, a conclusão é que, apesar de avanços pontuais, tudo tem pioradodesde que o primeiro Relatório foi publicado, em 1997. A coisa não é irreversível, porém, e o documento traz uma série de recomendações, sustentadas também por argumentos econômicos . Diz que diminuir os gases do efeito estufa, cumprindo o Acordo de Paris, custaria cerca de US$ 22 trilhões aos países, mas em compensação os benefícios obtidos com a redução da poluição no ar chegariam a US$ 54 tri. 

O descompasso entre os países ricos e pobres (com os primeiros precipitando a fome, a pobreza e as doenças nos últimos) é lembrado. Além da redução das emissões de gás carbônico, o relatório pede diminuição dos agrotóxicos e do gado, com uma “mudança no modo de vida”, segundo copresidente do Panorama. Mas alguns países ricos liderados pelos EUA não devem receber favoravelmente o relatório, segundo “fontes próximas” mencionadas pela Folha. Nem precisa ser fonte próxima para imaginar…

O RECUO DE GUEDES

Não tem nada certo, mas ontem Paulo Guedes disse que pode adiar o envio da PEC do Pacto Federativo (que pode acabar com os percentuais mínimos que os governos devem gastar em saúde e educação) ao Senado, para não atrapalhar a tramitação da Reforma da Previdência. Mas falou sem deixar de defender o Pacto… E sem deixar de alfinetar servidores públicos. “Se o servidor público virar cidadão como qualquer outro, (uma eventual) crise acaba em um ano”, disse, segundo o Estadão. 

Ele ainda afirmou que a desvinculação não vai significar necessariamente perdas para nenhuma área. “Quem quiser ficar com o dinheiro carimbado fica. Quem não quiser terá uma nova opção. Não vai reduzir os recursos para uma área, poderá se gastar até mesmo o triplo se essa for a decisão”, argumentou, mesmo que, como se sabe, os gastos mínimos acabem tradicionalmente se tornando tetos. 

MUI AMIGOS

O diretor da Anvisa, William Dib, foi convidado para falar em um dos principais eventos organizados pela indústria alimentícia no mundo. E sabe o que disse? Que é uma oportunidade para a Anvisa “estreitar diálogos e problemáticas e encontrar interfaces” com empresas e consumidores. Foi elogiadíssimo pelo presidente da Abia, que representa as empresas. O pessoal d’O Joio e o Trigoaproveito a deixa pra explicar melhor essa “proximidade nada republicana” entre Dib e a indústria. 

MORATÓRIA

Ainda na esteira do nascimento das gêmeas geneticamente modificadas, pesquisadores estão pedindo uma moratória global nas edições genéticas de DNA herdado, espermatozoides, óvulos e embriões. 

ELEIÇÕES E SAÚDE

Um estudo publicado no Lancet analisou dados de 170 países e viu que os que fizeram a transição para “regimes com eleições livres e justas” entre 1970 e 2015 experimentaram melhoras na saúde da população: em comparação com os que permaneceram em regimes autocráticos ou ditatoriais, houve maior aumento na expectativa de vida e queda mais acentuada nas mortes causadas por problemas como tuberculose, acidentes de trânsito, doenças do coração, diabetes e cânceres.

COMO SERÁ?

O Senado aprovou um convite para o ministro da Saúde, Mandetta, falar sobre o fim do Mais Médicos. No requerimento, o senador petista Rogério Carvalho alega que o programa é bem avaliado pela população. 

A SENTENÇA DO CARDEAL

O cardeal australiano George Pell, condenado no mês passado por crimes de pedofilia contra duas crianças nos anos 1990, foi sentenciado ontem a seis anos de prisão. Ele chegou a ser o terceiro na hierarquia do Vaticano e tem hoje 77 anos.

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