Como a volta da fome fustiga as mulheres

Atingidas por cortes em benefícios sociais, elas se desdobram para alimentar a família. Desde 2015, pobreza cresceu 40%. Leia também: nem governadores querem desvinculação; o talco possivelmente cancerígeno da J&J; e muito mais

Foto: Agência Pública

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SEM AMPARO DO ESTADO, MULHERES DRIBLAM A FOME

Nos bolsões de pobreza do estado do Rio, mulheres apanham dos maridos, não sabem se os filhos voltam vivos pra casa e agora enfrentam cortes nos programas sociais que as empurram de volta para uma situação cada vez mais miserável. Uma série de reportagens na Agência Pública se volta especificamente para a situação das mulheres no cenário da volta da fome ao Brasil (este foi o tema do programa de microbolsas do site este ano, e, no início da semana, comentamos aqui a excelente matéria sobre como a Justiça trata quem furta alimentos para sobreviver), com recorte no estado.

Hoje, no Rio, um em cada seis domicílios vive situação de insegurança alimentar grave. A pobreza avança. “A meta do milênio era reduzir à metade a extrema pobreza entre 1990 e 2015. Em 25 anos, ela caiu 73% no Brasil. De 2015 para cá, no entanto, cresceu 40%, mesmo com a redução dos preços dos alimentos”, afirma Marcelo Neri, diretor do FGV Social. No período, foram registrados seis milhões de novos pobres. E a a socióloga Walquíria Leão Rêgo, que tem pesquisado mulheres no sertão de Alagoas e Ceará, alerta que o corte nos programas sociais tem sido arbitrário – e compromete seriamente a vida das famílias. “Um verdadeiro genocídio“, resume. 

A 80 quilômetros da capital, Japeri tem o pior índice de desenvolvimento humano da região metropolitana. Com três facções de tráfico disputando o controle dos territórios e tiroteios acontecendo a qualquer momento, o município não tem nenhum bairro considerado seguro. O prefeito e o presidente da Câmara Municipal estão presos, acusados de ligação com o tráfico. A reportagem localizou mulheres em situação de extrema pobreza que foram eliminadas do Bolsa Família por falta de documentos, ou que tiveram o pagamento bloqueado. Lá, dormir é um dos artifícios para enganar a fome – há gerações. E as mulheres se desdobram para conseguir alimentar as famílias, com sobras da comida do presídio ou angu com capim e haste de pena de galinha. 

Longe dali, em um bairro da zona oeste da capital, ficam o Parque Estadual da Pedra Branca e o Quilombo Cafundá Astrogilda, que não é acessível por carro e onde famílias pobres vivem graças a uma rede de solidariedade. Mas é da tradição que vem um quê de esperança: no passado, a agricultura familiar salvava da fome. E os descendentes de Astrogilda, escrava liberta que dá nome ao quilombo, sonham em voltar a plantar

AO CONTRÁRIO

Nada melhor para a saúde e o planeta do que consumir alimentos frescos e produzidos localmente, certo? Pesquisadores e organizações sociais têm demonstrado que sim, mas a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, acha que a solução é o livre comércio. “As restrições ao comércio estimulam a produção onde às vezes não é eficiente produzir e isso sobrecarrega o meio ambiente. Não há como solucionar os desafios globais de segurança alimentar e sustentabilidade mantendo pesadas restrições ao comércio”, declarou ela esta semana, palestrando em uma importante feira mundial de alimentos. N’O Joio e o trigo. 

TUDO JUNTO

O que obesidade, desnutrição e mudanças climáticas têm em comum? Um projeto liderado por 26 especialistas de 14 países durante três anos gerou um relatório (A Sindemia Global de Obesidade, Desnutrição e Mudanças Climáticas), publicado em janeiro, que associa o modelo convencional de agricultura com as mudanças climáticas – afinal, é responsável por quase um terço da emissão de gases do efeito estufa e gera desmatamento, degradação do solo e perda de biodiversidade – e coloca a má alimentação e seus efeitos entre os principais problemas de saúde no mundo. O documento propõe três grandes ações para melhorar o problema. A primeira envolve a diminuição do consumo de carnes e laticínios (não por uma escolha pessoal, e sim por meio de alterações nos impostos e subsídios), ter mudanças na rotulagem e fornecer mais terras para a agricultura sustentável. A segunda, criar políticas públicas para melhorar o acesso a alimentos saudáveis e reduzir a pobreza e a desigualdade. Por último, estabelecer diretrizes alimentares sustentáveis, apoiando amamentação e educação alimentar. Os pesquisadores propõe para isso a criação de um tratado global que fortaleça os países contra as grandes corporações de alimentos. Seria uma Convenção-Quadro sobre Sistemas Alimentares, baseada na do controle do tabaco.

NEM ELES QUEREM

Quando conversou com o Estadão sobre sua proposta de desvincular o orçamento totalmente, acabando com os mecanismos que garantem recursos mínimos para saúde e educação, Paulo Guedes disse que era uma pauta que interessava aos governadores, porque lhes daria mais liberdade para gastar o que têm. Então o jornal procurou alguns deles, dos partidos mais diversos – João Doria (PSDB-SP), Wilson Witzel (PSC-RJ), Renato Casagrande (PSB-ES), Flávio Dino (PCdoB-MA), Wellington Dias (PT-PI) e Eduardo Leite (PSDB-RS). O único que elogiou a proposta foi este último. Todos os outros disseram discordar e apontaram a evidente fragilização da educação e da saúde. 

UM ‘CALA A BOCA’

El País entrevistou José Cláudio Souza Alves, que há 26 anos estuda as milícias no Rio. Ele diz que sempre acreditou que o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes era obra de milicianos, tanto pela atuação da vereadora contra esses grupos, como pelo modus operandi da execução. Mas tem dúvidas (quem de nós não tem?) sobre se algum dia os mandantes de fato vão ser identificados. Para ele, a prisão dos dois PMs acusados pelo assassinato é mais um ‘cala a boca’ para a sociedade, que pedia respostas. A impressão é corroborada pela fala algo celebrativa do governador do Rio, como vimos ontem. “É muito estranho que, depois de um ano, cheguemos à prisão de apenas dois indivíduos. Ninguém garante, de momento, que eles não são bodes expiatórios colocados para proteger nomes mais importantes. (…) Como a polícia e o Estado, em si, estão comprometidos, há dúvidas sobre todo o processo. A Justiça está colocada em xeque.  O Estado virou um biombo entre o legal e o ilegal, e os grupos que operam dentro dele são os que mais se beneficiam”.

O que falta responder: a Vice elencou as principais perguntas que restam sobre o caso. Além da questão mais óbvia (quem mandou?), é preciso descobrir as motivações políticas, por que parece haver uma competição para liderar a investigação e por que o seu fim já foi anunciado tantas vezes, mas nunca aconteceu de verdade. 

SUZANO

Houve um terceiro envolvido na coordenação do massacre. A informação foi confirmada em coletiva de imprensa ontem à tarde, e, segundo o delegado, o suspeito é um rapaz de 17 anos, vizinho de um dos atiradores e também ex-aluno do colégio Raul Brasil. A investigação preliminar da polícia aponta ainda  que o ataque foi planejado durante um ano. Depois que o R7 apontou a participação dos dois autores do crime em um chan, o Ministério Público de SP quer apurar se o envolvimento era real. E mais: se há alguma organização criminosa atuando por trás. 

E o prefeito de Suzano, Rodrigo Ashiuchi propôs medidas como a atuação de PMs da reserva nos setores administrativos das escolas estaduais. 

RAPIDINHAS DE BRASÍLIA

Jair Bolsonaro faz lives no Facebook toda quinta. Ontem, falou de bananas e da placa do Mercosul nos carros, mas nem uma palavra sobre a Reforma da Previdência.

Mandetta, ministro da Saúde, participou também. Anunciou o início da campanha de vacinação contra a gripe, que foi antecipada no Amazonas e começa no dia 18. 

E o deputado federal Heitor Freire (PSL-CE) quer a criação de uma Secretaria Especial de Desesquerdização da Administração Pública Federal. Ele diz que ainda há servidores “infiltrados” para “boicotar o governo por dentro”, e que devem ser expurgados. A mesa diretora da Câmara encaminhou a ideia para o plenário…

J&J MULTADA

Já vimos que a Johnson&Johnson enfrenta milhares de processos nos EUA, por conta de pessoas que desenvolveram cânceres e os associam ao famoso talco. A argumentação é de que há amianto no produto, que a empresa sabia e não alertava aos consumidores. Pois esta semana saiu a primeira condenação: a J&J precisa pagar 29 milhões de dólares a Terry Leavitt. Vai recorrer. 

BOA NOTÍCIA

A doença de Chagas é uma dessas que ficam de fora dos holofotes mesmo que atinjam muita gente. Estima-se que seis milhões de pessoas no mundo estejam infectadas com o protozoário causador da doença, que é grave: em cerca de 30% dos pacientes ela se torna crônica, provocando danos no sistema cardíaco e digestivo e podendo levar à morte. Existe desde os anos 1980 um tratamento com benzonidazol. O problema é que ele dura oito semanas e os efeitos colaterais são fortes e péssimos, como intolerância gástrica e problemas neuromusculares, e 20% pessoas acabam desistindo. Agora, um estudo conduzido na Bolívia pela Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) mostrou que o tratamento pode ser reduzidode oito para duas semanas, com a mesma eficácia. Segundo a matéria da Folha, os resultados ainda precisam ser confirmados por outros trabalhos, mas são animadores. 

NEGATIVO

O Ministério da Saúde negou a incorporação de dois medicamentos para hemofilia no SUS, questionando seu custo-benefício.  A Associação Brasileira de Pessoas com Hemofilia (Abraphem), entrou com recurso. Segundo estudos da entidade, um dos medicamentos, o Elocate, geraria uma economia de R$13,5 milhões ao SUS, enquanto o outro, o Elprolix, custaria em torno de 0,7% a 2,5% do orçamento da Coordenação Geral de Sangue e Hemoderivados.

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