Liberação de testes: boa ou má ideia?

Anvisa autoriza que farmácias apliquem testes rápidos que não identificam estágio inicial de infecção por coronavírus

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Ontem, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou que a aplicação de testes rápidos para covid-19 seja feita por farmácias e drogarias. Os resultados saem em 10 a 30 minutos. Esses exames são feitos a partir de uma amostra de sangue, que revela se a pessoa tem ou não anticorpos para o novo coronavírus. Mas a própria Anvisa alerta que há limitações no procedimento. Por exemplo: se a pessoa estiver no estágio inicial da infecção, o exame pode dar falso negativo. De modo que nunca é possível definir se há uma infecção ativa pelo teste rápido.

Questão de Ciência explica que os testes rápidos utilizados na Coreia do Sul, país que virou exemplo para o mundo, são muito diferentes dos que estão disponíveis por aqui. Isso porque os sul-coreanos lançaram mão do teste rápido molecular, que é uma variação do exame padrão-ouro, o PCR, e detecta a presença do material genético do vírus no organismo. No Brasil, os únicos testes PCR disponíveis são lentos. E os testes autorizados agora em farmácias são sorológicos, capazes de detectar anticorpos que começam a ser produzidos, em média, 12 dias depois da infecção. 

“Por ser mais barato, fácil de usar – parece um teste de gravidez, não exige treinamento especializado nem EPI – à primeira vista, parece muito atraente. Mas é preciso esclarecer qual sua real utilidade. O teste rápido pode ser útil para mapear quem já teve a doença. Mas não serve para fazer diagnóstico preciso, nem para liberar pessoas da quarentena”, destaca a repórter Natalia Pasternak.

Os especialistas ouvidos pelo Estadão acreditam que a liberação dos testes levará a comportamentos de risco. “Pessoas que fizeram teste na rua [em Brasília] saíram dizendo ‘graças a Deus deu negativo’. Mas isso não quer dizer nada. Pode ser um falso negativo, pode ser que nunca esteve doente, que está doente e ainda não desenvolveu o anticorpo. Ela pode achar que está segura e vai visitar os pais idosos”, criticou a bióloga Natália Pasternak, da USP. O virologista Amilcam Tanuri, da UFRJ, aponta outro problema: “Os farmacêuticos vão orientar as pessoas, falar sobre todas essas questões? Vão encaminhar as pessoas a hospitais, se for o caso? Vão notificar o Ministério?”.

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