O futuro do Ministério da Saúde

Centrão defende general Pazuello no comando até o fim da pandemia, mas há um punhado de outros nomes em jogo. Veja quais

O general Pazuello, agora à frente da Pasta, atrás de Nelson Teich. Foto: Sérgio Lima

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 18 de maio. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Ao contrário de Luiz Henrique Mandetta, que saiu denunciando as pressões que sofreu do presidente, em seu brevíssimo pronunciamento de despedida Nelson Teich sequer falou sobre por que ‘escolheu’ sair. O motivo, obviamente, é conhecido: a cloroquina. Mas o fato é que a colher de chá dada pelo ex-ministro a Bolsonaro rendeu ao presidente mais tempo para escolher o próximo ocupante da pasta. No fim de semana, ele teria confidenciado a aliados que não queria ser ‘açodado’. 

No momento, existem duas correntes de pressão atuando sobre o presidente. Seus mais novos aliados do centrão defendem, ao menos publicamente, a tese de que o melhor é deixar as coisas como estão durante a pandemia. Assim, o general Eduardo Pazuello assumiria um “mandato tampão’. Ele já se dispôs a assinar embaixo do protocolo “exigido” por Jair Bolsonaro que recomendará o uso do cloroquina aos primeiros sintomas da covid-19 – o que, como mostraram estudos internacionais, pode causar danos cardiológicos e mortes. Sendo militar, Pazuello obedeceria a outras ordens, abraçando a retórica da reabertura econômica e talvez a adoção da invenção presidencial: o isolamento vertical. Quem vocaliza isso? Pelo menos duas pessoas: o líder do governo no Congresso, o senador Eduardo Gomes (MDB-TO), e o vice-líder, deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) – que é, como sabemos, ex-ministro da Saúde. Em suma, para o Centrão Pazuello é uma excelente bucha de canhão. 

Naturalmente, o núcleo militar tem posição bem diferente. Segundo o colunista Lauro Jardim, os ministros fardados do Planalto avaliam que 100% contra que botar um militar no comando do Ministério da Saúde é “levar para o colo das Forças Armadas o problema da covid“.

A hipótese corrente na mídia é a de que Pazuello fica à frente da pasta ao longo dessa semana, pelo menos. Sua missão, já confirmada pelo Ministério da Saúde, será atualizar o protocolo da cloroquina no tratamento da covid-19. Entre os cotados para assumir a pasta no lugar dele, há outro militar – o contra-almirante Luiz Froes, diretor de Saúde da Marinha – e dois militantes, o ex-ministro e deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e a oncologista Nise Yamaguchi, que se reuniu com Bolsonaro na sexta e já disse em entrevistas que está preparada para assumir a pasta. Mas já surgem outros dois nomes que teriam apoio dos filhos de Bolsonaro: Anthony Wong, pediatra do Hospital das Clínicas da USP, e Paolo Zanotto, virologista e professor da USP. Ambos já deram declarações favoráveis ao uso da cloroquina em casos leves de coronavírus. Zanotto já apareceu aqui na newsletter antes: no dia 6 de abril, ele participou de uma transmissão ao vivo no Instagram com Eduardo Bolsonaro defendendo a cloroquina. (O posicionamento foi desautorizado pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP, onde ele trabalha, dias depois). No dia 21 daquele mês, ele incentivou, em seu perfil no Facebook, a leitura da portaria assinada por três procuradores bolsonaristas do MPF contra os pesquisadores da Fiocruz que conduziram o estudo clínico sobre a cloroquina. O interessante é que o mesmo Zanotto defendia o isolamento social no início de março. Wong, por sua vez, é entusiasta do “isolamento vertical”. 

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos