Não parece tão simples

Por que é importante entender melhor a polêmica dos coágulos, que ainda cerca o uso da vacina de Oxford/AstraZeneca

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A Alemanha acaba de mudar, mais uma vez, as orientações para o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca: agora, a vacina fica restrita a maiores de 60 anos. Na segunda-feira, o Canadá tomou decisão semelhante, suspendendo o uso para menores de 55 anos. Mais uma vez, o problema são os coágulos sanguíneos. 

Desde o começo dessa polêmica, especialistas têm reforçado que não há evidências sobre uma eventual relação entre essa vacina e os coágulos. Falamos bastante disso aqui e aqui. Mas dados recentes mostram que essa história pode não ser tão simples quanto parece. 

É que as condições identificadas pelas autoridades em vários países europeus não são coágulos comuns. Uma matéria publicada no site da Science no fim de semana explica:  o que se vê são pessoas com coágulos por todo o corpo e, ao mesmo tempo, baixa contagem de plaquetas no sangue – o que é paradoxal, porque as plaquetas são células sanguíneas que justamente ajudam a formar os coágulos. O problema é mesmo bastante raro, mas, sendo tão específico, não daria para apenas compará-lo com a incidência de outros problemas relacionados a coágulos em geral na população, como se vem fazendo.

O pesquisador alemão Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, diz que os sintomas se parecem aos de um raro efeito colateral da heparina, medicamento usado para tratar e prevenir coágulos. Esse efeito se chama trombocitopenia induzida por heparina (HIT), e a pesquisa de Greinacher, ainda não revisada por pares, sugere que possa estar acontecendo uma “síndrome de trombocitopenia imune protrombótica induzida por vacina”. O caso não está fechado – continuamos sem saber se é a vacina que induz ao problema. Mas várias entidades médicas estão levando essas considerações a sério.

É sempre bom lembrar que aprovações emergenciais de vacinas envolvem uma avaliação dos riscos e benefícios. E, nos locais onde o vírus está mais alastrado e para as populações com mais possibilidades de ter complicações, o impacto do uso desse imunizante é claramente positivo. A dúvida é sobre o quanto vale a pena usá-lo em quem não está nos grupos de risco.

Em artigo publicado ontem no site The Atlantic, Hilda Bastian, especialista em análise de dados de ensaios clínicos, trata da tênue linha que separa uma comunicação eficiente sobre riscos e a disseminação de pânico total. Mas o medo do segundo efeito, defende ela, não pode excluir a necessidade de tratar as informações com transparência.

E há um ponto crucial nisso tudo: apesar de todas as incertezas, os raros coágulos são uma condição tratável. Portanto, se as autoridades de saúde mundo afora alertarem suas populações e serviços de saúde para os sintomas, a recuperação dos pacientes é possível. Tais sintomas, segundo a EMA (agência reguladora europeia), são os seguintes: falta de ar, dor no peito, inchaço nas pernas, dor abdominal persistente, dores de cabeça fortes ou persistentes, visão turva e hematomas ou pequenas manchas na pele.

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