Os militares que desonram o Exército ao ocupar a Saúde

Em cargos muito bem remunerados, e cheios de privilégios, oficiais sem nenhuma experiẽncia sanitária desmontam estrutura da qual depende a população. E mais: o sucesso da favela de Paraisópolis na luta contra a pandemia

Por Maíra Mathias e Raquel Torres| Imagem: Cellus

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OS MILITARES E O SUS

Antes da pandemia do novo coronavírus, o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército – que tem suas raízes na chegada da Corte portuguesa ao Brasil – produzia cloroquina para os militares com malária e lúpus e artrite reumatoide. Para atender essa demanda, foram necessários cerca de 265 mil comprimidos nos últimos três anos. Tudo mudou radicalmente no governo Jair Bolsonaro. Desde 23 de março, a produção aumentou cem vezes, alcançando 2,25 milhões de comprimidos. Para dar conta dessa ampliação, mais de RS 1,5 milhão foram sugados do Tesouro Nacional. A cloroquina em pó, matéria-prima necessária para o boom, veio da Índia, a um preço quase seis vezes maior do que o normal. Sempre que questionado pela imprensa, o Comando do Exército respondia que a mudança se devia a demandas de dois ministérios: Defesa e Saúde.

Mas a decisão não passou pelo Ministério da Saúde, revela agora Luiz Henrique Mandetta. Segundo o ex-ministro, a determinação partiu de Bolsonaro. “Não [participei da decisão]. Isso foi anunciado na época diretamente pelo presidente. Ele colocou nas redes sociais que teria telefonado para o primeiro-ministro da Índia solicitando o envio da matéria-prima, e que mandaria o Laboratório do Exército iniciar a produção”, disse em entrevista à Repórter Brasil. “Até onde eu sei, essa decisão foi tomada diretamente pelo presidente com o Itamaraty”, afirmou, emendando: “Eu não me lembro de isso ter ocorrido alguma vez na história, de um presidente determinar a fabricação de um remédio. Se voltarmos no tempo, acho que isso nunca aconteceu.”

“Foi uma determinação direta do Bolsonaro ao Exército, por meio de uma política esdrúxula, sem nenhuma consulta prévia nem embasamento médico, técnico ou científico. E o interessante é que o Exército cumpriu imediatamente”, corrobora o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que obteve informações depois de enviar um ofício ao Comando do Exército.

Agora, o Laboratório do Exército tem cerca de 1,85 milhão de comprimidos de cloroquina em estoque – o equivalente a quase 18 vezes sua produção anual nos anos anteriores. Outro milhão de comprimidos já foram entregues ao Ministério da Saúde. Se no início do mês, o ministro interino Eduardo Pazuello anunciava que a produção do Laboratório continuaria a todo o vapor – mesmo depois do anúncio da doação de dois milhões de pílulas pelos Estados Unidos –, depois que o Ministério Público do TCU pediu investigação sobre o caso, isso não parece tão certo. Ontem, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, disse à imprensa que não projeta ampliar a produção. Segundo ele, o laboratório só irá produzir novos comprimidos “se houver pedido do Ministério da Saúde” – o que, indiretamente, reforça a denúncia de Mandetta e Valente de que antes não houve tal requisição

Azevedo também reclamou. Para o ministro, há uma “especulação sem necessidade” sobre suposta irregularidade no aumento da produção da droga. Mas segundo o repórter Diego Junqueira, que vem seguindo o caso, o Laboratório assinou pelo menos 18 acordos para a compra de cloroquina em pó e insumos de fabricação na mesmíssima semana em que o Ministério da Saúde emitiu seu protocolo de orientação da administração da substância apenas em pacientes com quadros graves de covid que estivessem hospitalizados. Como dissemos aqui na newsletter segunda-feira, tudo sem licitação, e tudo servindo para nada em relação ao controle do coronavírus no Brasil, já que não há nenhuma evidência da eficácia do remédio. 

O ministro da Defesa também informou que cerca de 34 mil militares já atuaram em “operações contra a covid-19” – um número superior aos 25,8 mil homens enviados pela Força Expedicionária Brasileira para a Segunda Guerra Mundial. Realizaram ações como de entrega de insumos, cestas básicas e descontaminação de espaços públicos.

Quem dera se a atuação militar se limitasse a isso. Vivemos tempos em que servidores do Ministério da Saúde denunciam que são obrigados a assinar termos de confidencialidade, com ameaça expressa de prisão sob alegado descumprimento da Lei de Segurança Nacional, e recebem em suas caixas de e-mail aviso de que suas redes sociais particulares serão monitoradas pelo Conselho de Ética da pasta. É a consequência da militarização do Ministério. Ontem, Bolsonaro e o general que comanda a pasta interinamente há um mês e meio foram acionados pela Justiça. O juiz Evandro Reimão dos Reis deu cinco dias para que respondam às denúncias, em resposta a uma ação protocolada pelo deputado federal Jorge Solla (PT-BA). 

“O volume de ocupação de cargos técnicos por militares e por indicações políticas sem qualificação necessária na estrutura do Ministério da Saúde tem ocorrido como nunca antes desde que o SUS foi criado. Nem o pior ministro da Saúde fez o que está acontecendo agora”, criticou Adriano Massuda, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde da gestão do ex-ministro Arthur Chioro*, em entrevista ao El País Brasil. Ele, que retornou à vida de professor, continua: “Pode haver um processo de desmonte da engrenagem que fez o sistema de saúde funcionar nos últimos 30 anos que é muito perigoso. O Exército pode estar puxando para o seu colo a responsabilidade de desmontar o sistema de saúde brasileiro. Esse sistema que é essencial para garantir a segurança sanitária do nosso país”. Afirmou ainda: “O Exército está ocupando cargos técnicos quando o Brasil tem profissionais extremamente competentes na área da saúde coletiva brasileira. Poucos países têm a inteligência que nós temos neste setor. Essa inteligência não está no Exército.” Como exemplo concreto, ele cita a baixa execução orçamentária da pasta, que gastou apenas 27% dos recursos liberados na pandemia.

Mas para Jair Bolsonaro, a gestão da pasta “está excepcional”. “Nunca vi isso na história do Brasil na questão de gestão. Sabemos que não é médico, mas ele está com uma equipe fantástica dentro do Ministério da Saúde. Sabemos que muitos querem que a gente coloque lá um médico, agora um médico dificilmente é gestor. Se aparecer um médico gestor, a gente conversa com o Pazuello e vê como fica”, declarou ontem.

A propósito: o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos anunciou ontem que pedirá transferência para a reserva. A presença de um general na ativa em cargo eminentemente político incomodava as Forças Armadas, segundo o Estadão.

DE NORTE A SUL

De quarta para quinta-feira, foram confirmados 1.180 óbitos e 40.673 casos de covid-19 no Brasil. No total, o país tem 55.054 vítimas fatais da doença e 1.233.147 infecções conhecidas. Jair Bolsonaro decidiu prestar uma homenagem: em sua transmissão ao vivo nas redes sociais, ontem à noite, pediu que o presidente da Embratur tocasse Ave Maria na sanfona. Voltou a dizer, porém, que houve “excesso de preocupação” com a pandemia.

A região Sul pode estar se tornando o novo foco da pandemia no país, segundo um monitoramento mantido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). A plataforma se baseia na taxa de reprodução ou transmissibilidade do vírus, o famoso R. Hoje, ela é de 1,37 na região, ou seja, cada 100 infectados transmitem para outras 137. Em estados que já tiveram cenários muito graves, como Amazonas, São Paulo e Rio de Janeiro, o indicador é hoje, respectivamente, 1,01, 1,03 e 1,22. O coordenador dos estudos, Wagner Bonat, explica que o Centro-Oeste também deve ser um foco expressivo em breve. Mas mesmo onde os contágios se estabilizaram, há pouco o que comemorar. Uma análise de pesquisadores da Fiocruz mostra que nenhum estado do país mostra sinais da redução da transmissão. De acordo com eles, o “platô” alcançado por alguns estados ainda tem um número alto de contágios, mas constante. E pode se prolongar indefinidamente.

Os pesquisadores alertam sobre a interiorização da pandemia, como temos falado muito por aqui. Em relação a isso, vem do estado de São Paulo uma notícia importante: o número acumulado de mortes pela covid-19 no interior superou ontem o da capital. Enquanto a cidade de São Paulo teve ao todo 6.675 óbitos até agora, o interior, que começou a sentir os efeitos do vírus  mais tarde, chegou a 6.677. A diferença é maior em relação ao número de casos: 125.561 no interior contra 113.261 na capital. 

E a população do Norte do país  – onde as distâncias das cidades menores até as capitais podem ser gigantescas – continua enfrentando graves problemas para lidar com o coronavírus. No Pará, médicos cubanos e brasileiros estão sem receber salários desde que foram contratados para o combate à doença, em abril. No Amapá, Oiapoque precisou recorrer à ajuda da vizinha Guiana Francesa para processamento de testes, atendimento de emergências e obtenção de medicamentos. É mais perto do que a capital, que fica a 600 quilômetros. “Eu, como relações internacionais, me obrigo, coloco a vergonha de lado e vou para lá me humilhar mesmo, no sentido literal da palavra, e pedir mesmo para a Guiana para que eles nos doem alguma coisa para poder salvar as vidas aqui”, diz, na matéria da BBC, o chefe de relações internacionais da prefeitura de Oiapoque, Isaac Silva. Dos seis médicos da atenção básica de Oiapoque, três estão afastados por covid-19. No hospital faltam oxigênio, medicamentos, profissionais de limpeza e médicos.

Conseguir atendimento para os casos graves é um verdadeiro suplício, e algumas imagens descritas na reportagem são inacreditáveis. Como esta: “Sob a chuva fraca, sedado e intubado em uma maca no chão da pista do aeroporto de Oiapoque, está o aposentado e ambulante Evandro Araújo, 65, pai de Rebeca, que tentava, havia cinco dias, ser internado em uma UTI”. Um conhecido tentava cobri-lo com um guarda-chuva. A família tentava transportar Evandro para a capital do estado, mas antes já tinha tentado de tudo. Desesperados, os médicos chegaram a tentar levá-lo para Macapá de ambulância, mas o homem quase morreu no caminho com os solavancos na estrada esburacada. Precisaram fazer um escândalo no aeroporto para conseguir o transporte.

Outra reportagem, na Reuters, destaca o avanço do coronavírus na Ilha de Marajó, entre Belém e Macapá. Alguns moradores vivem a 36 horas dessas capitais, transformando viagens emergenciais. em um imenso desafio logístico. “Depois de dias com falta de ar, Andrelina Bizerra da Silva, 49 anos, desmaiou repentinamente. Sua família, produtores brasileiros de açaí em um afluente do rio Amazonas, colocou-a em um pequeno barco com um motor de popa e correu pelo sinuoso rio Acuti Pereira até a clínica de saúde mais próxima na cidade de Portel. Sem testes para confirmar se ela tinha o covid-19 ou instalações suficientes para tratá-la, os funcionários os encaminharam rio abaixo para o maior hospital próximo, na cidade de Breves. Seis horas haviam se passado quando chegaram. Silva já estava morta”.

O monitoramento da covid-19 no Brasil feito com testes sorológicos pela pesquisa Epicovid-19, feito pela Universidade Federal de Pelotas, mostra um aumento da prevalência de 2,4% para 2,9% das infecções na população. Os resultados foram adiantados ontem por um dos coordenadores do estudo, o epidemiologista César Victora, mas o relatório ainda não foi publicado.

POR CONTA PRÓPRIA

Um levantamento do Instituto Pólis aponta que territórios precários da capital paulista conseguiram fazer um controle mais efetivo da covid-19 do que a média do município, quando havia uma organização comunitária estruturada. Na favela de Paraisópolis, a taxa de mortalidade está muito abaixo da média do município: 21.7 pessoas em 100 mil habitantes, contra 56.2. Isso porque a associação de moradores se organizou para fazer o que o poder público deixou no vácuo. Foi criado um sistema de presidentes de rua, em que voluntários ficam responsáveis por monitorar famílias para possíveis sintomas do covid-19. Foram ao todo 420 presidentes, cada um cuidando de cerca de 50 casas. Eles faziam o monitoramento dos moradores, foram capacitados para encaminhar corretamente os que apresentavam sintomas, desenvolveram atividades de conscientização da população sobre o vírus e contra as notícias falsas, e ainda arrecadaram e distribuíram cestas básicas.

AGORA E NO FUTURO

O novo coronavírus vitimou, por enquanto, 489 mil pessoas no mundo inteiro, um número que levou seis meses para ser atingido. Na América Latina, são pouco mais de 100 mil óbitos até agora e mais de dois milhões de infectados. Com a explosão dos casos por aqui e o descontrole em vários países, esse número ainda vai subir rapidamente: nos próximos três meses, pode haver mais 288 mil óbitos apenas na região, levando o total a 388 mil até o começo de outubro. A estimativa é do Instituto de Métrica e Avaliação da Saúde (IHME) e, segundo ela, o Brasil e o México devem ser responsáveis por dois terços das mortes.

Nesses dois países, os presidentes trataram a pandemia com desleixo desde o começo – embora o México venha tentando, mais recentemente, corrigir os erros. Mas mesmo em alguns dos que reconheceram o perigo do coronavírus e tentaram seguir as orientações dos especialistas e da OMS, o vírus está ganhando força. O Chile, que decretou quarentenas cedo, fez testes em massa e fortaleceu hospitais, lidera hoje a taxa de infecções na América Latina na medida em que os bairros mais pobres e povoados começaram a ser afetados.

O que afinal levou essa região a se tornar epicentro da pandemia no mundo? Para entender as fragilidades e um longo histórico de decisões políticas que nos deixaram à mercê do coronavírus, o Outra Saúde conversou com a ex-ministra do Equador, Carina Vance. A entrevista foi ao ar ontem no podcast Tibungo e pode ser ouvida aqui. Nela, Carina explica como grandes contingentes de pessoas pobres, informalidade no mercado de trabalho, crises políticas e reformas que reduziram o papel do Estado atrapalham, e muito, o combate eficaz ao novo coronavírus.

Enquanto as Américas continuam sendo o principal foco de preocupação no momento, a expansão dos casos na África também gera apreensão. Esse é o continente menos afetado pela pandemia até agora, com cerca de 330 mil infecções e 8,7 mil mortes registradas, com 10 países concentrando 75% dos casos. Mas os contágios estão crescendo em ritmo acelerado – eles triplicaram em menos de um mês – e, pior, estão crescendo nas zonas rurais, segundo a BBC.

O FIM DE UM SURTO

Ontem, a Organização Mundial da Saúde declarou o fim do surto de ebola na porção oriental da República Democrática do Congo (RDC). Foram quase dois anos de sofrimento no maior e mais letal surto da história do país que, no meio tempo, também passou a enfrentar uma epidemia de sarampo que já é considerada o maior do mundo (com 310 mil casos, seis mil mortes) e, obviamente, a pandemia de covid-19. O anúncio se deu 42 dias depois da alta do último paciente infectado – o dobro do tempo necessário para que os sintomas aparecessem em outra pessoa. 

Mas o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou em artigo no Guardian: “É um momento de celebração, mas não de complacência.  Vírus não fazem pausas. O décimo surto de ebola da RDC pode ter chegado ao fim, mas um 11º foi detectado em 1º de junho na parte noroeste do país. Os casos estão a 240 quilômetros de Mbandaka, o centro do último surto”. Até agora, 24 pessoas foram infectadas e 13 morreram no noroeste do país, na província de Équator, porção mais pacífica de um território conflagrado por conflitos entre governo e rebeldes.

“A história da República Democrática do Congo é marcada por conflitos. O país vive uma guerra civil desde o genocídio étnico em Ruanda de 1994, quando grupos armados invadiram o Leste do país. Desde então, pelo menos cinco milhões de pessoas morreram. Essa longa disputa de vida e morte pelo controle das terras levou à formação de milícias separatistas, fator de violência e constante instabilidade política. Surgiram também as milícias Mai-Mai. Algumas delas se colocam como forças de autodefesa contra guerrilhas oportunistas, outras controlam recursos naturais e exercem a força como senhores de guerra. Entre as centenas de forças rebeldes, a maior ameaça ao governo congolês é a FDA, Forças Democráticas Armadas, grupo que se denomina islâmico e nutre pouco diálogo com a comunidade internacional”, contextualizam Estevan Muniz e Iuri Barcelos em uma longa reportagem na Piauí. Os repórteres acompanharam o surto de ebola desde agosto do ano passado e fazem um relato detalhado das dificuldades e inovações que viram na resposta ao problema.

DESCONTROLE NA PRIMEIRA ONDA

Ontem, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA fez o que, por aqui, só grupos de pesquisa ousam fazer: afirmou que a epidemia de covid-19 pode ter infectado dez vezes mais pessoas do que os registros oficiais demonstram. Algo na casa dos 20 milhões – o equivalente a apenas 6% da população. Hoje, os EUA contabilizam exatos 2,3 milhões de casos. De acordo com autoridades, a subnotificação por lá se deve ao grande número de pessoas assintomáticas – de acordo com o consenso científico estabelecido até agora, elas representam 80% das vítimas do vírus. Eles fizeram a estimativa com base em inquéritos sorológicos, que detectam a presença de anticorpos. 

Nessa última quarta-feira, o país registrou 36,8 mil novos casos – o maior pico já visto por lá, sendo o recorde anterior detectado num longínquo 24 de abril. Agora, as regiões mais afetadas são o Sul e o Oeste do enorme território, atingindo especialmente Califórnia, Oklahoma, Flórida, Carolina do Sul, Carolina do Norte e Texas – esses dois últimos, aliás, voltaram atrás nos planos de reabertura econômica. Isso faz com que especialistas concluam que há um descontrole na resposta à epidemia nos EUA. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência… 

No fim de semana, Donald Trump – que está atrás 14 pontos na corrida presidencial contra o candidato democrata Joe Biden – confessou aos apoiadores que uma certa intenção de diminuir os testes. “O teste é uma faca de dois gumes”, disse em Oklahoma. “Aqui está a parte ruim. Quando você faz testes…. você encontrará mais casos. Então eu disse ao meu pessoal: ‘Devagar, por favor'”. Aliados políticos vieram em seu socorro, alegando que a declaração era uma piada. “Eu não brinco”, esclareceu Trump no Twitter. “Os casos só estão aumentando porque há muitos testes”. O Departamento de Saúde de lá, equivalente a um ministério, já anunciou que até o fim de junho vai retirar recursos para testagem em pelo menos cinco estados, incluindo o Texas. 

Aliás, US$ 1 bilhão do total do pacote federal destinado à ajuda financeira à população dos EUA foi parar na conta de pessoas já falecidas

RISCO DE SEGUNDA ONDA

Ontem, a Organização Mundial da Saúde afirmou que na semana passada, a Europa registrou um aumento no número de casos semanais pela primeira vez em meses, indício de que o continente pode estar começando a enfrentar uma segunda onda de contágios. Isso acontece depois que boa parte dos países adotou flexibilização das regras de isolamento. 

Em Portugal, o governo decidiu ontem decretar novamente quarentena na região metropolitana de Lisboa. Vai durar uma semana até que a taxa de transmissão volte a baixar. Na Espanha, focos de infecção estão pipocando por todo o país. As autoridades alertam que isso já era esperado, mas temem que a população abandone as medidas de precaução. 

OUTRO TIPO DE ONDA

O SUS italiano – Serviço Sanitário Nacional – está tendo que correr atrás do tempo perdido. Durante a pandemia, todas as baterias foram direcionadas para o atendimento a vítimas da covid-19. Quase 14 milhões de consultas com médicos especialistas foram adiadas, 12,5 milhões de exames de imagem e mais de 20 milhões de exames de sangue postergados. De 600 mil a 410 mil cirurgias deixaram de ser feitas. Segundo especialistas, esse atraso prejudica diagnósticos, principalmente de câncer, e prolonga filas: antes uma criança que precisasse de uma consulta oftalmológica esperaria 39 dias. Agora, o prazo passou para 284 dias. E é apenas um exemplo. 

Nos EUA, essa discussão também está sendo feita e se espera um declínio nas condições de saúde que não receberam a devida atenção por causa da pandemia. “Há uma onda enorme e massiva vindo atrás de nós, porque as pessoas atrasaram os cuidados vitais em termos de câncer, diabetes e doenças cardíacas”, disse o executivo Garth Graham, da CVS Health, em uma conferência.

TERRITÓRIO ADENTRO

Um relatório do Greenpeace concluiu que, entre janeiro e abril desse ano, 72% de todo o desmatamento provocado por garimpo na Amazônia ocorreu de forma ilegal em áreas protegidas. Nas unidades de conservação, o aumento foi de 80,6%, comparado ao primeiro quadrimestre de 2019. Em terras indígenas, de 13,4%. Os dados foram puxados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para Carolina Santos, do Greenpeace, iniciativas do governo Bolsonaro como o projeto de lei que visa liberar a exploração de minérios nesses territórios são interpretados como um sinal verde pelos garimpeiros.  

Uma reportagem especial da Reuters usou dados de satélite e apurou que a extração de ouro na Terra Indígena Ianomâmi cresceu 20% nos últimos cinco anos. As áreas de garimpo já ocupam o equivalente a mil campos de futebol. Autoridades e indígenas estimam que transitem 20 mil garimpeiros na área.

Enquanto isso, o coronavírus avança. No Pará, aldeias próximas a cidades como Marabá e próximas de rodovias e empreendimentos de mineração estão experimentando um aumento rápido nos contágios. Em três semanas, foram 638 infecções e 22 mortes, atingindo 12 diferentes povos indígenas. A falta de assistência à saúde – que deveria ser prestada pelo Ministério através da Secretaria Especial de Saúde Indígena –  fez com que os indígenas apelassem para universidades e para o Conselho Indigenista Missionário, que junto com outras entidades, formaram uma rede de apoio voluntária. 

Em tempo: as três semanas de junho foram palco do maior número de focos de incêndio registrados na Amazônia desde 2007. 

E porque desgraça pouca é bobagem, a Marinha já confirma que manchas de óleo voltaram a aparecer no litoral nordestino em quatro estados: Alagoas, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte. E com a aproximação da nuvem de gafanhotos, o Ministério da Agricultura decretou ontem estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina por um ano. 

TAXAS DE APROVAÇÃO

Saiu ontem mais uma pesquisa do Datafolha e o resultado para os governadores não é bom: sua aprovação chegou ao menor nível desde março. Em abril, chegaram a ser avaliados como ‘ótimo’ e ‘bom’ por 58% dos entrevistados, contra 44% agora. As avaliações ‘ruim’ e ‘péssimo’ subiram de 16% para 29%. Na região Sudeste, só 35% das pessoas aprovam o desempenho dos chefes estaduais. A avaliação do Ministério da Saúde também segue em queda. De 76% de aprovação em abril (com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta) para 55% com (o também ex) Nelson Teich, ela está em ínfimos 33% agora. Pudera: sequer temos ministro.

O único personagem que continua com estabilidade é o presidente Jair Bolsonaro, o que não deixa de ser impressionante, mesmo que seus percentuais sejam ruins. A prisão de Fabrício Queiroz não mexeu muito com seus apoiadores: 44% dos entrevistados o consideram ruim ou péssimo, 32% acham que é ótimo ou bom, 23% o consideram regular e 1% não sabe.

NOVO TITULAR

Jair Bolsonaro escolheu o terceiro ministro da Educação do seu governo. É mais um militar: Carlos Decotelli, oficial de reserva da Marinha. Será o primeiro negro num cargo de tamanho destaque na atual gestão. Entre fevereiro e agosto de 2019, Decotelli chegou a comandar o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) – que hoje está com o Centrão. Na época, a Controladoria-Geral da União encontrou inconsistências em um edital de R$ 3 bilhões para a compra de equipamentos de tecnologia educacional. O pregão previa a compra de computadores, notebooks, projetores e lousas digitais para alunos das redes públicas de ensino. No entanto, a CGU apontou que a licitação superestimou alguns números: para a Escola Municipal Laura Queiroz, do município de Itabirito (MG), seriam adquiridos 30.030 laptops. O colégio só tinha 255 alunos… O prejuízo seria de R$ 54,7 milhões.

Depois desse edital, ele foi retirado do FNDE e alocado no próprio MEC, na Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação. Dependendo de a qual campo da educação você pertence, a indicação foi recebida bem ou mal. Para o Todos pela Educação, ligado a empresas, Decotelli tem “o perfil certo”. Já para a Campanha pelo Direito à Educação, o novo ministro “não é uma referência” no setor. Bolsonaro disse que o escolheu “pela idade” e pelo “currículo mais extenso”.

PLASMA À VENDA

Vários países estão pesquisando o tratamento para covid-19 com o plasma de pacientes recuperados, com a aposta promissora de que os anticorpos presentes no plasma ajudem o organismo do doente a se curar. Ainda não há estudos demonstrando a eficiência disso, mas, mesmo que venha a dar certo, um problema de cara é que não haveria tratamento para todo mundo: esse tipo de terapia depende de que haja um grande volume de sangue de ex-pacientes, e não há. Já vimos por aqui como equipes de pesquisa já estão trabalhando na produção de anticorpos a partir de animais, por conta dessa limitação.

Mas há quem não esteja disposto a esperar por evidências científicas, muito menos pela produção de um novo fármaco. Na Bolívia, o Ministério da Saúde entrou de cabeça na terapia com plasma. Os incentivos para as doações são múltiplos: empresas oferecem descontos ou presentes aos clientes que tiverem feito doações, e pelo menos duas universidades anunciaram que aceitarão alunos sem vestibular se comprovarem que foram doadores, relata o El País. Mas, por problemas no sistema de saúde, o acesso a bancos de sangue e hospitais está restrito à parcela mais rica da população. Com famílias de pacientes desesperadas por atendimento e convalescentes precisando atravessar a crise econômica, floresce por lá um mercado ilegal de venda de plasma. Uma bolsa de 400 mililitros pode ser vendida por algo entre R$ 2,5 mil e 15 mil, ou trocada por promessas de emprego e pagamentos de dívidas. “As pessoas começam a pedir plasma nas redes sociais diante do primeiro diagnóstico, do primeiro resultado positivo, sem saber se seu familiar vai chegar à terapia ou se vai precisar ou não do plasma. Por via das dúvidas…”, conta o jornalista José Pomacusi, que cobre a pandemia na cidade de Santa Cruz de la Sierra.

Não é só na Bolívia. No Paquistão, onde o sistema de saúde está à beira do colapso, bolsas são vendidas pelo equivalente a R$ 15 mil a R$ 50 mil. “Os hospitais não estão envolvidos, mas vi acordos acontecerem na minha frente. Normalmente, os atendentes ou familiares de um paciente abordam alguém que se recuperou, pedindo para doar sangue. Quando uma certa quantia é acordada como pagamento, geralmente entre 200 mil e 800 mil rúpias, eles vão para um laboratório privado e extraem o plasma, que é ‘doado’ aos pacientes. Conheço uma família de cinco pessoas que se contaminou e gastou ao todo 3,5 milhões de rúpias [R$ 250 mil] em plasma sanguíneo no mercado ilegal. Eles acreditam que é uma cura milagrosa”, diz, no Guardian, um médico de um hospital em Islamabad.

NAS MÃOS DO MERCADO

Mesmo com planos de saúde, pacientes de covid-19 estão se afundando em dívidas por seus tratamentos de saúde nos Estados Unidos. O governo Trump prometeu cobrir os custos da doença, mas ocorre que os efeitos do novo coronavírus não necessariamente passam depois que os sintomas respiratórios vão embora. Médicos estão descobrindo efeitos de longo prazo que vão desde insuficiência renal até danos no coração e nos pulmões, mas as seguradores estão carimbando esses novos problemas como se não fossem relacionados ao coronavírus. O governo, por sua vez, diz que só vai pagar por serviços e procedimentos quando a covid-19 for explicitamente o diagnóstico primário. Assim, as contas pelos novos tratamentos – e ainda por complicações que as pessoas possam ter no hospital, por exemplo, em decorrência da internação – caem no colo dos pacientes, ainda que a origem de tudo seja a covid-19. 

* Esse trecho foi alterado às 10:40. Na versão anterior havia um erro: publicamos que Adriano Massuda foi secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, mas a informação estava incorreta. Ele foi secretário na gestão do ex-ministro Arthur Chioro, no governo Dilma Rousseff.

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