Mapeamento no Brasil: equipes agredidas e testes destruídos

Levantamento pretende estimar prevalência do novo coronavírus no Brasil. Cerca de 800 kits já foram perdidos

Foto: Daniela Xu / UFPel

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Uma das pesquisas mais aguardadas até agora é o levantamento coordenado pela Universidade Federal de Pelotas, com dados coletados pelo Ibope e financiada pelo Ministério da Saúde que, a partir de testes sorológicos, pretende estimar a prevalência do novo coronavírus no Brasil. Como já explicamos, vão ser três rodadas de testes em semanas distintas com amostras de 33 mil pessoas sintomáticas e assintomáticas examinadas em cada uma delas. A ideia é calcular o percentual da população contaminado e a taxa de evolução das infecções. 

As testagens começaram na quinta passada, mas um problema inacreditável está atrapalhando o andamento: em diversos municípios de todas as regiões, equipes que fazem as coletas estão sendo detidas pela polícia e até agredidas. Mais de 800 testes já foram apreendidos e/ou destruídos, e pesquisadores estão sendo obrigados a abandonar as cidades — e o levantamento. “As equipes são detidas para prestar esclarecimentos, são barradas por prefeituras porque não haveria autorização para o trabalho; são atacadas nas ruas porque estariam violando quarentenas ou porque houve boatos de que seriam golpistas ou uma ameaça à saúde”, segundo narram à Folha os coordenadores da pesquisa.

Antes de as equipes saírem à campo, o Ministério da Saúde enviou ofícios aos governos locais informando sobre a pesquisa. Por algum motivo, esses comunicados parecem não ter chegado às prefeituras. O coordenador da pesquisa e reitor da UFPel, Pedro Hallal, escreveu um artigo para a Folha, sem mencionar exatamente as agressões mas afirmando que o estudo precisa “do apoio de todos, das autoridades locais também“.

É bem mais explícita a nota oficial da UFPel: “Nas situações mais graves, os entrevistadores do Ibope foram detidos, com uso de força policial, tendo sido tratados como criminosos. Trata-se de cerca de 2.000 brasileiros e brasileiras, que estão trabalhando para sustentar suas famílias, numa pesquisa que pode salvar milhares de vidas, e que mereciam proteção das forças de segurança e uma salva de aplausos por parte de toda a população. Ao contrário, as forças de segurança, que deveriam proteger os entrevistadores, foram responsáveis por cenas lamentáveis e ações truculentas, algumas delas felizmente registradas”.

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