Gostam de Ciência. Mas estão distantes dela

Jovens brasileiros querem mais investimento em pesquisa e apostam em seus efeitos benéficos — mas têm pouquíssima informação científica. Leia também: mais 42 agrotóxicos liberados; governo ressuscita PEC da maioridade penal; e muito mais

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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GOSTAM, MAS DESCONHECEM

Uma pesquisa inédita divulgada ontem mostra o que a juventude brasileira pensa e o que sabe (ou não) sobre ciência e tecnologia. Feito pelo Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), o estudo envolveu entrevistas domiciliares com 2,2 mil jovens entre 15 e 22 anos, em 21 estados e do distrito federal. E há resultados um tanto desesperadores.

Mas comecemos pelas boas notícias: a maioria (67%) manifesta grande interesse no tema; 60% acham que o governo federal deveria aumentar o investimentos nisso, 68% concordam que os governantes devem seguir as orientações dos cientistas; e cerca de 70% consideram que a ciência traz muitos benefícios para a humanidade. 

Porém… Mais da metade (54%) considera que os cientistas estão exagerando sobre os efeitos das mudanças climáticas e 40% concordam que, se a ciência não existisse, seu dia a dia não mudaria muito. Outros 60% não sabem que antibióticos não combatem vírus e 26% acreditam que vacinar as pessoas pode ser perigoso. A maioria esmagadora (87%) não conseguiu se lembrar do nome de nenhuma instituição de pesquisa brasileira, e só 5% soube dizer o nome de algum cientista nacional. 

O estudo mostra que a juventude se informa sobre o tema nas mídias e plataformas digitais, como se esperava, principalmente pelo Google e o Youtube. E ainda que hoje já não busca tanto ativamente os temas, mas sim ‘tropeça’ neles na internet. Quase metade dos jovens acha difícil saber se uma notícia é falsa ou verdadeira e, para 21% deles, isso é muito difícil ou impossível. 

“Esperávamos que os jovens se saíssem melhor que os adultos nesse quesito, por estarem mais próximos das universidades; mas não. Temos um trabalho urgente a fazer na melhoria da comunicação da ciência no Brasil”, afirma Yurij Castelfranchi, um dos pesquisadores, no Jornal da USP.

MAIS DIFÍCIL

E fazer pesquisa é mais difícil para as mães, segundo mostram os dados preliminares de uma pesquisa da Parent in Science. As agências que financiam trabalhos exigem produtividade dos cientistas, mas a dedicação aos filhos faz com que ela evidentemente diminua e, com isso, as possibilidades de trabalho também. A pequisa foi feita com questionários online respondidos por, até o momento, três mil mulheres e homens. Quase 80% das mulheres que responderam são mães e, destas, metade são as únicas responsáveis pela criança. Entre elas, 45% têm dificuldade de trabalhar em casa – e 21% só conseguem fazer isso de madrugada, quando os filhos dormem. 

MAIS UM TANTO

Ontem o governo federal liberou mais 42 agrotóxicos, sendo que 23 são classificados como altamente ou muito perigosos ao meio ambiente e 18 são extremamente ou altamente tóxicos para a saúde humana. 

E no projetoPor trás do alimento, a Agência Pública e a Repórter Brasildesfazem uma dúvida frequente: sobre se o Brasil é de fato o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. O país foi o campeão em gastos com esses venenos em 2013 (último ano em que há dados comparando o consumo em diferentes nações) mas caímos para a sétima posição quando se leva em conta a área plantada, ou seja, quando se divide o gasto por hectares plantados. Nesse caso, ficam acima do Brasil países como Japão, Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Por fim, considerando como referência o tamanho da produção agrícola (dividindo o consumo de agrotóxicos pelas toneladas de alimentos produzidos), o Brasil fica em 13º da lista. 

COMPORTAMENTO DE RISCO

Um a cada cinco brasileiros admite que usa o celular enquanto dirige. O dado inédito foi divulgado ontem pelo Ministério da Saúde. Segundo o órgão, o patamar chega a 25% entre pessoas de 25 a 34 anos. As capitais onde mais se usa o aparelho durante a direção são Belém, Rio Branco e Cuiabá; todas com aproximadamente 24%. O problema é menor em Salvador (14%), Rio e São Paulo (ambas com 17%). 

A pesquisa Vigitel também mediu a associação entre o consumo de álcool e direção e conclui que 9,3% dos homens e 2% das mulheres afirmaram ter bebido e dirigido. 

SUSPENSÃO, VETO E DERRUBADA

Ontem, o ministro do STF Luís Roberto Barroso concedeu liminar em ações de inconstitucionalidade movidas pela Rede, PT e PDT e suspendeu a medida provisória 886, na qual Jair Bolsonaro revertia a decisão do Congresso e remetia a competência pela demarcação de terras indígenas e quilombolas ao Ministério da Agricultura. Em seu despacho, Barroso entendeu que o presidente não pode reeditar MP já analisada por Câmara e Senado. A decisão é provisória e precisa ser analisada pelo plenário da Corte. Mas o assunto pode ser definido antes: o presidente do senado Davi Alcolumbre disse ontem que planeja devolver a MP para o Planalto

Após queixa de que o Congresso quer “superpoderes”, Bolsonaro anunciou que vai vetar o trecho da Lei Geral das Agências Reguladoras que prevê novo trâmite para indicação de conselheiros, diretores e presidentes. Aprovada em maio pelos parlamentares, a lei previa que uma comissão elaborasse uma lista tríplice a partir da qual o presidente escolheria os nomes.

Já Rodrigo Maia declarou que a Câmara deve seguir o exemplo do Senado e derrubar o decreto que flexibiliza o porte de armas. Mas isso depende de uma articulação com senadores: um PL deve ser apresentado por Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e manter pontos do decreto, como extensão da posse de armas para toda a propriedade rural. Na opinião de especialistas em segurança pública ouvidos por O Globo, apesar de preocupar, o novo projeto é um “mal menor” diante do potencial destrutivo do decreto.   

RESSUSCITADA PELO BOLSONARISMO

A PEC que diminuiu a maioridade penal voltou a tramitar no Congresso. A proposta, de autoria de um pastor evangélico 26 anos atrás, havia sido desengavetada na época de Eduardo Cunha, quando foi aprovada pela Câmara e remetida ao Senado, onde foi deixada de lado. Agora, o bolsonarismo lhe dá embalo e uma audiência pública sobre o assunto está marcada para esta quinta-feira na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa. O relator da PEC é o ex-ministro da Saúde Marcelo Castro (MDB-PI). 

PRESCRIÇÃO

Menos remédios psicotrópicos, mais medidas dos governos para combater desigualdade, pobreza e discriminação: Dainius Pūras, relator de saúde da ONU, disse ao Guardian que esse é o melhor caminho para evitar as doenças mentais: “Muitos fatores de risco para a saúde mental precária estão intimamente associados às desigualdades nas condições da vida cotidiana. Muitos fatores de risco também estão ligados ao impacto corrosivo de ver a vida como algo injusto”.

DE VOLTA AO PASSADO

A taxa de suicídio nos EUA atingiu o maior patamar desde 1942, quando o país estava engajado na Segunda Guerra Mundial. O número chegou a 14 registros para cada grupo de cem mil habitantes. O problema cresceu mais entre a população indígena (chegando a um aumento de 139% nas jovens entre 13 e 24 anos na comparação entre 1999 e 2017), os povos originários do Alasca (71% nos homens do grupo) e entre as mulheres em geral e os residentes de áreas rurais pobres (53% em ambos os casos).

BRECHA

Os problemas da medida provisória 871, que institui “travas” à concessão de benefícios do INSS, são abordados em artigo do El País Brasil. E eles não estão só no texto, mas no que ficou fora dele. Entre as poucas medidas que serviriam para proteger os beneficiários estava prevista a proibição da transmissão de suas informações pessoais, trabalhistas e financeiras para a prática de marketing, oferta comercial, proposta e publicidade direcionada.  Acontece que esse artigo foi vetado por Bolsonaro, sob a justificativa de que a Lei Geral de Proteção de Dados já disciplina o assunto, e também de que o governo não poderia proibir o oferecimento de tais serviços a pessoas vulneráveis. Só que na opinião de Renato Leite Moreno, professor de direito digital da FGV/SP e da Mackenzie, o veto não se justifica tecnicamente. Trata-se do “aproveitamento do estado de vulnerabilidade de idosos e pessoas que por razões graves de saúde precisam do auxílio do governo para insidiosamente conduzi-las a contratação de serviços e produtos que não precisam”, resume ele, para quem a Lei Geral não prevê a proteção dos beneficiários do INSS e deveria, sim, ser complementada. 

PROPOSTA

A pesquisadora Ligia Bahia foi entrevistada pelo IHU-Online para avaliar o Mais Médicos e falar sobre soluções para suprir a carência desses profissionais em regiões vulneráveis. “As universidades poderiam estabelecer postos avançados em áreas remotas para desenvolver atividades de assistência e pesquisa, mantendo ações permanentes com estudantes e professores que se revezassem. As ações seriam permanentes e os profissionais envolvidos ficariam nos locais por períodos mais curtos. O que garantiria a continuidade das ações seria a presença das universidades e seus programas de ensino, pesquisa e extensão”, disse..

VIVER COM MICROCEFALIA

As crianças que nasceram com microcefalia durante a epidemia de zika estão com cerca de quatro anos, e a Deutsche Welle fala das dificuldades dessas famílias hoje. Algumas crianças já andam ou estão começando a falar, mas a maioria tem um comprometimento neurológico muito intenso e não se movimenta, sequer rasteja. Não há perspectivas de que nenhuma venha a ter independência no futuro, e as mães vivem 24 horas por dia em função delas. O abandono por parte dos maridos é comum. 

PRA OUVIR

O PL da cesárea de autoria de Janaína Paschoal deve ser votado amanhã na Assembleia Legislativa de São Paulo. O podcast Café da Manhã, produzido pela Folhadebate o assunto.

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