Ibope: Bolsonaro faz mal (também) à saúde

Atuação do governo na saúde tem 56% de desaprovação dos brasileiros. Leia também: Mortalidade materna bate recorde em estados ricos, grávida leva cinco tiros e é declarada culpada de homicídio nos EUA, e muito mais

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

MAIS:
Esta é a edição de 28 de junho da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui.

INSATISFAÇÃO GALOPANTE

A atuação do governo na saúde tem 56% de desaprovação dos brasileiros, segundo a pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem. É a terceira pior área de avaliação, perdendo apenas para taxa de juros (59%) e impostos (61%). E a percepção negativa da política de saúde cresceu em relação à última pesquisa, feita em abril, que captou uma desaprovação de 51%. De lá para cá, o número de pessoas que não soube opinar caiu de 7% para 4%; e a aprovação de 42% para 40%.

A educação foi onde o governo levou o maior tombo: em abril, era a segunda área mais bem avaliada, com 51% de aprovação e 44% de desaprovação. Em julho, caiu para a quinta posição, com 42% de avaliações positivas e 54% de reprovação. A área que se sai melhor, segundo a pesquisa, é a segurança pública. Mas até aí a aprovação diminuiu de 57% para 54%. 

De modo geral, os números são ruins para o governo. A insatisfação popular com Jair Bolsonaro cresceu: mais da metade da população – 51% – diz não confiar no presidente. Em abril, o percentual estava na casa dos 45%. Também houve aumento na desaprovação da maneira como Bolsonaro governa, considerada inadequada por 48% dos entrevistados, contra 40% em abril. O presidente é ruim ou péssimo para 32% dos brasileiros. Em abril, o índice era de 27%.

STONEWALL E O BRASIL

Há exatos 50 anos, em 28 de junho de 1959, Nova Iorque viu pipocarem grandes manifestações contra a repressão homofóbica após uma batida policial no bar Stonewall Inn, e o episódio acabou se tornando um marco na luta da população LGBT+. Leandro Colling – um dos autores do livro História do Movimento LGBT no Brasil – explica, no site Gênero e Numero, as relações entre aquele movimento e o contexto atual, inclusive por aqui.

“Não sei se temos forças, nesse contexto, para uma revolta popular, mas penso que devemos repensar muito as nossas formas de fazer política identitária em nosso país. Fazer abaixo assinado, pressionar o governo via audiências, por exemplo, é algo que é absolutamente inócuo hoje. Em tenho defendido que os diversos movimentos identitários (negros, mulheres, feministas, LGBT+, quilombolas, indígenas, candomblecistas e outros) encontrem formas de pensar as suas lutas de modo interseccional. Não é mais possível que cada um continue no seu quadradinho lutando apenas pelas suas especificidades. É preciso encontrar pontos em comum, coisas que nos atravessam, para continuar existindo e lutando. Do contrário, o extermínio vai continuar.”, alerta.

FORA DA ORDEM

Duas mulheres se envolveram em uma briga no Alabama e uma atirou na outra. A autora dos disparos foi liberada, enquanto a mulher atingida foi acusada de homicídio e detida. Difícil de entender? O problema é que Marshae Jones, a vítima, estava grávida, foi alvejada na barriga e o feto morreu. No Alabama – que aprovou em maio uma lei proibindo aborto até em casos de estupro  e equipara a interrupção da gravidez ao homicídio – o júri decidiu que Jones foi responsável por matar seu próprio bebê. “A única vítima verdadeira foi o bebê por não nascer. Foi a mãe do bebê quem iniciou e continuou a briga que resultou na morte”, disse o chefe da polícia local, Danny Reid, a um portal de notícias.

MORTALIDADE MATERNA BATE RECORDE

Números divulgados pela Folha mostram que, em 2017, a mortalidade materna atingiu picos preocupantes mesmo em alguns dos estados mais ricos do país.

São Paulo bateu um triste recorde, com 60,6 mortes registradas por cem mil, o maior índice já verificado desde o início da série histórica do Ministério da Saúde, em 1996. Para se ter uma ideia, em 2003 o estado atingiu sua melhor marca, quando a taxa chegou a 34,2. De 2000 para cá, houve aumento de 50% nas mortes maternas no estado. 

No Rio, a situação é ainda mais grave. O estado registrou em 2017 84,7 mortes por cem mil. Uma taxa pior do que a de quase todos os estados do Nordeste.

O país não conseguiu atingir a objetivo da agenda do milênio da ONU, que era reduzir essa taxa para 35 em 2015. A média do país está em 64,5 mortes por cem mil. O Pará fica no topo da mortalidade, com 107,4 mortes. E o Paraná detém o menor índice: 31,7.

Na reportagem da Folha, não há consenso sobre as razões da deterioração desse indicador, muito sensível à qualidade da atenção à saúde. Há quem diga que a melhora na notificação das mortes explica a piora dos números. E quem aponte o problema da diminuição nos leitos obstétricos: o SUS perdeu 6.715 deles entre 2010 e 2018. Uma especialista, porém, usa o caso do estado de São Paulo para traçar uma relação entre o aumento das cesarianas – de 49% para 59% entre 2000 e 2015 – e o índice de mortes maternas por hemorragia, que nesse período subiu de 11% para 16%. Isso porque a cesárea, explica, leva a maior risco de complicações que podem causar sangramentos e mortes. É algo para se levar em conta num estado que pode aprovar, em breve, uma lei que abre brechas para ainda mais cesarianas.

PRESSÃO E CONSPIRAÇÃO

Os líderes do G20 estão reunidos hoje em Osaka, no Japão. Mas mesmo antes de começar, a cúpula gerou constrangimento para Bolsonaro. Ontem foi a vez de Emmanuel Macron se somar à Angela Merkel para pressionar o brasileiro na área ambiental. O presidente francês declarou que estaria disposto a não assinar o trato de livre comércio entre União Europeia e Mercosul caso o Brasil se retire do Acordo de Paris. E parece que Bolsonaro não reagiu muito bem: um encontro bilateral com Macron sumiu da agenda oficial do presidente brasileiro. O governo francês negou que o compromisso tivesse sido confirmado. Poucas horas depois do episódio, ambos se encontraram informalmente. Bolsonaro convidou Macron para visitar a Amazônia.

Na quarta-feira, a chanceler alemã havia dito que pretendia ter uma “conversa clara” com Bolsonaro em relação ao desmatamento. Em reação à declaração, o presidente brasileiro exigiu “respeito”. Já o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, ficou com a versão conspiratória: em sua opinião, o questionamento de Merkel faria parte de uma estratégia dos países estrangeiros para que o Brasil preserve a Amazônia só para, depois, eles próprios possam explorá-la.

FOME

Em pouco mais de seis meses de governo, Jair Bolsonaro já deu demonstrações de sobra de que não dá prioridade alguma para políticas de combate à fome e à pobreza. N’O Joio e o Trigo, Guilherme Zocchio elenca várias delas. A mais recente é a decisão de vetar a reabertura do Consea, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, extinto por ele. O veto aconteceu, simbolicamente, quatro dias depois de a Rede Globo mostrar que há semanas pessoas reviram um caminhão de lixo em busca de restos descartados por um supermercado em Olinda. 

TODAS JUNTAS

“Se não for aprovada a reforma da Previdência nos moldes que foi apresentada, certamente no futuro o setor onde mais será cortado [empregos] é o da saúde. Já temos dificuldades de financiamento, e isso só se agravará [sem a aprovação]. Esse é o momento não de pedir, mas de dar nosso apoio total ao governo e ao Congresso para que consigamos avançar essa fase”. A triste declaração é de Breno Monteiro, presidente da Confederação Nacional da Saúde, que congrega oito federações e 90 sindicatos do setor. Ontem, Monteiro participou da entrega de uma carta aberta a Bolsonaro sobre isso. O documento é assinado por mais oito confederações – entre elas, as da agropecuária, dos planos de saúde, dos bancos e da indústria. 

ESCALADA

As mortes provocadas pelas doenças transmitidas pelo Aedes aegypti mataram três vezes mais este ano. Foram contabilizadas 410 mortes até a primeira quinzena de junho, contra 151 no mesmo período do ano passado. A zica provocou duas mortes em 2019, a chicungunha 20 e a dengue 388. Os registros das três doenças igualmente avançam: até o dia 15, foi contabilizado 1,192 milhão de casos prováveis de dengue, 6,7 vezes mais do que no mesmo período do ano passado. No caso da chicungunha, o aumento foi de 11,9% no período. Até agora, foram 71.079 casos. A zika seguiu a mesma tendência. Foram 7.530 casos, um aumento de 28% em relação a 2018.

MUITOS RISCOS

Trabalhar menos não costuma ser uma opção, mas deveria. Este artigo no The Conversation resume e linka alguns estudos recentes mostrando os efeitos dessa sobrecarga na saúde. Em um deles, os pesquisadores analisaram mais de 140 mil pessoas e, entre as trabalhavam mais de 10 horas por dia por pelo menos 50 dias no ano, houve 29% mais chances de ter um AVC. Há outros que mostram pior qualidade do sono e de saúde mental, maiores chances de ganhar peso, fumar ou beber em excesso. Em todo o mundo, diz o artigo, 22% das pessoas trabalham mais do que 48 horas semanais.

EXPLICAÇÕES

O MPF deu um prazo de 15 dias para o Ministério da Saúde explicar como anda a política de combate ao HIV/Aids. Como você deve lembrar, no mês passado o Departamento que cuidava dessa área foi reformulado e passou a abrigar o enfrentamento a tuberculose e hanseníase. A pasta precisa esclarecer três pontos: quais foram as mudanças substanciais, como está sendo feita a manutenção e o incremento das campanhas e quais as estratégias para solucionar as diferentes abordagens dentro do mesmo departamento. 

DESCE E SOBE

O número de clientes de planos de saúde em São Paulo caiu nos últimos oito anos, mas ainda assim os processos na Justiça triplicaram no mesmo período, segundo uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP. Entre as principais reclamações estão (sempre) a exclusão de cobertura ou a recusa de atendimentos e o reajuste abusivo nas mensalidades. “Esse resultado espelha não só uma piora na prestação dos serviços pelos planos como uma omissão da ANS”, diz o professor Mario Scheffer, um dos autores. 

GENÉRICOS GANHAM MERCADO

Em abril de 2019, os genéricos representaram 34% das vendas de medicamentos no Brasil – em 2015, o número era de 27%. No período, a participação dos medicamentos de referência recuou de 21% para 17%, e a participação dos similares nas vendas teve ligeira queda de 50% para 48%. Os números são da IQVIA, que audita as vendas da indústria globalmente, e foram divulgados pela entidade que representa as 17 maiores empresas de genéricos do país.

SOBRE O AMIANTO

A Brasilit, que usou amianto como matéria prima até 2002, criou um site para os funcionários que trabalharam na empresa até aquele ano se cadastrem e façam exames periódicos. O oferecimento dos exames é parte do acordo com o MPF para encerrar as cerca de mil ações judiciais que tramitavam contra a empresa.

SOLUÇÕES

O estado de Santa Catarina instituiu uma “tributação verde”. Desde abril, produtos como inseticidas, fungicidas, formicidas, herbicidas e raticidas que antes eram isentos de ICMS passaram a ser tributados em 17%. Já na Dinamarca foram criados subsídios para os produtores rurais transformarem suas fazendas em orgânicas; hoje 10% já fizeram a transição e os orgânicos já representam 13% das vendas de alimentos no país. Os dois exemplos foram citados na audiência pública que o MPF fez ontem para discutir isenção fiscal de agrotóxicos.

AEROMULA

Enquanto o governo federal centra esforços em combater uma ‘epidemia de drogas’ que não é medida cientificamente, 39 kg de cocaína são encontrados em um avião presidencial. O paradoxo, piada instantânea por aqui, também foi apontado pela imprensa estrangeira. A Deutshe Welle resumiu notícias do New York Times, Le Monde, Der Spiegel e outros.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: