Intensivão

Com patrocínio da Amil e da Anab e apoio do Albert Einstein, da FenaSaúde e da Fundação Getúlio Vargas, a Folha promoveu na segunda-feira passada o 5º Fórum Saúde do Brasil

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INTENSIVÃO 

Com patrocínio da Amil e da Anab (Associação Nacional das Administradoras de Benefícios) e apoio do Albert Einstein, da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar) e da Fundação Getúlio Vargas, a Folha promoveu na segunda-feira passada o 5º Fórum Saúde do Brasil. A cobertura completa do evento gerou uma série de matérias sobre a situação da saúde no país: na edição impressa, elas ocupam nada menos que 16 páginas corridas. Ao longo delas, falas de pesquisadores ligados à saúde pública e membros do controle social dialogam com nomes do setor privado, como representantes do Instituto Coalizão Saúde e do United Health Group.

A reportagem que abre a série tem o subfinanciamento do sistema na manchete, mas não dá muitos detalhes sobre os descaminhos da legislação nesse aspecto. A Emenda Constitucional 95, por exemplo, até é citada, mas só lá nas últimas linhas… O texto também elenca serviços do SUS que funcionam bem, como a vacinação e os transplantes, e afirma que a Estratégia Saúde da Família tem inspirado planos de saúde a mudar a forma de assistência, hoje concentrada em especialistas e hospitais.

Essa inspiração é detalhada em outra matéria, que destaca problemas no uso dos recursos financeiros. Uma questão apontada por Ana Maria Malik (do programa de gestão em saúde da FGV) e Marco Akerman (USP) é que ainda há muitos atendimentos por especialistas e emergências, em vez de médicos generalistas, o que gera custos e aumenta as filas de espera. E o texto informa que, para mudar isso especificamente no setor privado, a ANS lançou ontem um Programa de Atenção Primária à Saúde, que vai estimular a oferta de equipes multidisciplinares e médicos generalistas.

Embora estejam sob o selo do 5º Fórum, nem todas as matérias do especial são sobre os debates do evento. Tem uma, grande, sobre a Estratégia  Saúde da Família, com destaque para a restruturação da rede no município de São Paulo. Outra fala da atenção básica em Florianópolis, primeira capital a ter 100% de cobertura pela ESF, que atende 15% dos usuários de planos privados na cidade. Uma terceira analisa dados da pesquisa Demografia Médica no Brasil 2018: o país nunca teve tantos médicos (450 mil), mas eles estão concentrados na região Sudeste e nos centros urbanos. Tem também reportagens sobre os desafios do envelhecimento da população, sobre tecnologia na rede pública e sobre o serviço do Samu em São Paulo. Essas e outras matérias podem ser lidas aqui.

Só na edição impressa: Um texto de uma página – que não é assinado por ninguém –  conta que os planos privados individuais têm ficado mais raros no Brasil, em detrimento dos empresariais. Justifica: enquanto estes últimos têm regras frouxas para o reajuste, o aumento no valor dos primeiros é regido pela ANS “e tem ficado abaixo da inflação médica”. Um infográfico explica quem são os atores envolvidos no setor privado. Como, por exemplo, os pacientes, que “querem pagar o mínimo com o máximo de cobertura”; as operadoras, que “querem o lucro, mas lidam com a inflação médica, maior que o teto para ajuste dos planos individuais” (assim, em negrito); o governo, que colocou 18 novos procedimentos de cobertura obrigatória; e o SUS, que recebeu meio bilhão de reais dos planos no ano passado. Mostra também os “impasses atuais”, entre os quais etá a atenção básica, “incipiente no país”. Não há entrevistas, apenas uma citação da ANS, no último parágrafo, sobre a importância do ressarcimento dos planos ao SUS.

E não dá pra deixa passar: o incômodo quando se folheia o jornal é grande. As peças publicitárias dos patrocinadores e apoiadores ocupam, juntas, cinco páginas. Então tem, por exemplo, uma matéria sobre a Estratégia Saúde da Família e, do ladinho, a informação de que “O Einstein também é SUS”;  junto com o destaque para a atenção básica em Floripa, uma página inteira destacando que “A Saúde suplementar contribui para a saúde do Brasil”. Duas páginas da Amil contam que ela atua junto ao Unicef contra a obesidade infantil. E por aí vai… Na versão online tem menos propaganda.

SELO DE QUALIDADE

O Projeto de Atenção Primária da ANS, mencionado pela Folha, é explicado no site da Agência: as operadoras que cumprirem determinados pré-requisitos vão levar um selo de qualidade. A ideia é estimular que a atenção básica seja porta de entrada. “O projeto propõe ainda a implementação de modelos adequados de remuneração de prestadores, com foco no cuidado do paciente, e a adoção de indicadores para monitoramento dos resultados em saúde”, diz. A proposta vai passar pelo controle social, mas pode começar a ser implementada ainda este ano.

REUNIÃO COM OCCHI

Ontem a Comissão Intergestores Tripartite se reuniu, e secretários municipais e estaduais de saúde apresentaram uma lista de demandas ao ministro Gilberto Occhi. Entre elas, a continuidade da nova agenda da Política Nacional de Atenção Básica. Também foi abordada a questão dos agentes comunitários de saúde [e aqui entra uma pequena e rasa contextualização nossa, porque nem todo mundo está por dentro: já divulgamos nessa newsletter uma reunião bem polêmica que representantes desses trabalhadores tiveram com Temer, recebendo-o com gritos de ‘Fica, Temer’, o que foi muito criticado, inclusive pela categoria. Os agentes têm um piso salarial congelado desde 2014 e, atualmente, essa é uma de suas maiores demandas. No Congresso, especialmente a Câmara, eles já tem há tempos uma boa capacidade de pressão, e se articulam para conseguir esse reajuste].

O presidente do Conasems, Mauro Junqueira, foi bem direto: “Temos no SUS uma série de profissionais de diferentes categorias, infelizmente o Congresso Nacional trata só com uma dessas categorias, aumentando salários, discutindo insalubridade, entre outros benefícios, mas os agentes não são a única categoria importante para o SUS (…) Não adianta o congresso determinar um aumento de salário sem consultar se os municípios, que são quem de fato contratam e pagam, têm ou não condições de pagar. Os dados comprovam que não existe mais margem para novos recursos municipais, nem contrapartida, nem possibilidade de gastos extras”.

SEM ATENDIMENTO

As pessoas atingidas pelo desastre da Samarco em Mariana, dois anos e meio atrás, seguem sem atendimento. A matéria do Saúde Popular conta que muitos moradores não conseguiram nem fazer exames toxicológicos. A contaminação por metais pesados foi confirmada em 11 moradores, mas dezenas têm observado sintomas.

ZIKA PARA O BEM

Alguns estudos mostram que esse vírus causa microcefalia porque destrói células-tronco neurais do feto, impedindo a formação de novos neurônios. Ao mesmo tempo, outros indicam que certas células tumorais (inclusive do sistema nervoso central) têm propriedades de células-tronco, o que ajuda os tumores a crescerem de novo depois o tratamento. Então um grupo de pesquisadores pensou: e se usássemos o zika para atacar as células tumorais desse tipo? Coordenados por Mayana Zats, da USP, eles injetaram pequenas quantidades do vírus em camundongos com câncer em estágio avançado – e um detalhe: é um tipo de câncer que, em seres humanos, afeta principalmente crianças com menos de cinco anos. E deu certo. Alguns tumores diminuíram muito, outros sumiram por completo, e até metástases na medula desapareceram. O próximo passo é testar em humanos.

É MUITO POUCO

São Paulo tem 300 mil unidades de produção agropecuária em 8 milhões de hectares, mas só 75 servidores para monitorar o cumprimento da legislação do setor – e só um para acompanhar o cadastramento de agrotóxicos, diz a Rede Brasil Atual: “Nesse ritmo, e com essa equipe, seriam necessários mais de 100 anos para a Secretaria de Agricultura visitar um terço das unidades de produção e verificar se o comércio de produtos agrícolas está seguindo a legislação”.

Enquanto isso, o MST colheu 27 mil toneladas de arroz sem veneno em 2017. No Rio Grande do Sul, “as unidades de produção familiares geridas de forma sustentável responderam por 49% dos R$ 14 bilhões de receitas geradas pela atividade agropecuária” na última década, diz a reportagem do ExtraClasse, republicada no IHU-Online.

BOA CONVERSA

A socióloga e professora da USP Nadya Araújo Guimarães deu uma entrevista ao Observatório de Análise Política em Saúde. Ela é uma das organizadoras do Dossiê Políticas Sociais e Redistribuição, e, entre outras coisas, falou sobre a forma como o estudo olhou para o SUS – diante da Emenda 95 e da alteração na forma dos repasses dos recursos da União para os estados e municípios. Ela também se mostrou preocupada com a situação atual: “Enquanto alguém que pensava: ‘Opa! Estou vendo um ovo de serpente; tomara que ela não arrebente a casca’, é horrível, hoje, me ver diante do fato de que, sim, arrebentou-se a casca e as serpentes estão florescendo”.

30 HORAS

Um projeto de lei que garante jornada de 30 horas semanais para nutricionistas vai ser analisada por comissão especial na Câmara.

AGENDA – SEM MARIELLE

Uma conferência em Harvard sobre racismo no Brasil vai ser transmitida online, hoje e amanhã, e um painel específico vai falar sobre a relação entre o racismo e a saúde pública. “No meio do caminho uma das palestrantes convidadas foi assassinada.  Marielle Franco falaria no painel Right to biodiversity, cities, and other territorialities“, lembra um dos palestrantes, Luis Eduardo Batista, do Instituto de Saúde de São Paulo.

 

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