Desventuras em série

Nelson Teich nada entendia de saúde pública e definhava desde o primeiro dia. Saiu deixando à frente do ministério o general Pazuello – que entende menos ainda

O fim do mundo. John Martin

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Com o Brasil tendo mais de 16 mil mortes nas costas e muito o que cobrar do governo federal, a última coisa que gostaríamos de discutir é a crise política gerada e alimentada pelo presidente Jair Bolsonaro. Mas cá estamos, sem ministro da Saúde por tempo indeterminado no meio da pior pandemia do século.

O agora ex-ministro da Saúde Nelson Teich fez a única coisa que um médico poderia fazer num governo negacionista. Pediu para sair. O interessante é entender por que afinal ele entrou, já que as condições estavam postas desde o início: a obsessão do presidente pela hidroxicloroquina e pela abertura econômica a qualquer preço eram cristalinas no momento em que Teich assumiu o cargo, dizendo-se em “alinhamento completo” com o chefe. A tendência autoritária de Bolsonaro, por sua vez, é conhecida desde… sempre.

Talvez só o grau de humilhação a que foi submetido por Bolsonaro não estivesse no radar de Teich. Segundo a jornalista Tânia Monteiro, do Estadão, na quinta à noite o oncologista disse a amigos que havia chegado ao seu limite e que tinha um nome a zelar – foi logo depois de Bolsonaro garantir, em transmissão ao vivo a empresários, que o protocolo para uso da hidroxicloroquina seria modificado. Dois dias antes, vimos o inacreditável episódio das academias e salões de beleza, serviços liberados por Bolsonaro sem conhecimento do ministro.

Embora a sensação tenha sido a de que Teich sofreu uma fritura em tempo recorde – alguns dias apenas – , o colunista d’O Globo Lauro Jardim revela que o caldo começara a entornar já uma semana após a posse. Na época, Bolsonaro teria confidenciado a duas pessoas o arrependimento pela escolha do ministro, dizendo que teria sido melhor nomear o general Eduardo Pazuello, a quem coube ser o número dois da Pasta. Robson Bonin, da Veja, escreveu ainda na sexta-feira de manhã que Bolsonaro não apenas previa a demissão de Teich como não se importava muito com isso: já havia convidado Pazuello para substitui-lo. O desligamento de Teich aconteceu horas depois.

“Os países que se saíram melhor foram os que mantiveram a coerência em todos os níveis de governo, adotaram mensagens simples e engajaram toda a população em seus esforços”, disse mais tarde o diretor-executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, quando perguntado sobre a demissão. Para bom entendedor, meia palavra basta. O pior é que, no nosso caso, Bolsonaro de fato está empenhadíssimo em construir coerência em todos os níveis de governo; o problema é que sua batalha é por um engajamento anti-ciência e gerador de mortes…

Governadores e prefeitos criticaram a segunda troca no comando do Ministério em menos de um mês. Depois de entrarem em atrito com Teich devido à sua inação, secretários estaduais de saúde também manifestaram “alta preocupação” em nota. Parlamentares do Centrão e da oposição se mostraram irritados e incrédulos, embora nem todos tenham exatamente lamentado a saída de Teich: “A impressão é de que ele nunca assumiu realmente”, disse o deputado Efraim Filho, líder do DEM na Câmara. Trata-se de um sentimento geral.

Entidades de ciência, medicina e saúde coletiva e o Conselho Nacional de Saúde também se manifestaram em notas. E até os empresários que fecham com Bolsonaro estão de pé atrás com suas trapalhadas, criticando a nova demissão. “Cada dia – e tem sido quase que diariamente – que ele [Bolsonaro] cria uma instabilidade, ele aumenta a insegurança e atrapalha ainda mais o retorno ao trabalho. Com uma insegurança como essa e a mensagem ruim, não tem condição de voltar porque está todo mundo inseguro”, diz à Folha José Ricardo Roriz, vice-presidente da Fiesp, que, é claro, quer a reabertura econômica.

Luiz Henrique Mandetta, também recém-saído da Pasta, lamentou no Twitter e depois disse à Folha que foi um mês perdido. “Teria sido uma surpresa se ele tivesse conseguido transitar em uma política tão complexa”, disse, criticando o fato de que Teich nada sabia sobre o SUS quando assumiu o cargo.

É sempre bom lembrar que o general Pazuello, que assume por ora, sabe menos ainda…

Em tempo: diante de tantas críticas, chama a atenção o posicionamento de outro ex-ministro da Saúde, Ricardo Barros, que chefiou a pasta no governo Temer e andava meio sumido dos debates. Para ele, discutir hidroxicloroquina é inútil – não porque os estudos não apoiem o uso indiscriminado da droga, mas porque o Conselho Federal de Medicina já autorizou a prescrição. “São eles [ex-ministros] que têm que se enquadrar“, declarou à CNN. Ainda aproveitou para criticar o isolamento social, dando para isso o motivo mais aberrante de todos: os hospitais privados estão perdendo dinheiro. “O hospitais estão quase quebrando. Eles perderam o seu movimento normal, das cirurgias eletivas, os acidentes de trânsito caíram muito – que era um motivo de faturamento dos hospitais”, argumentou ele.  Está aí alguém que definitivamente ‘fala a língua’ do presidente, como Bolsonaro já disse desejar. Seu nome, porém, não aparece entre as possibilidades de nomeação para a pasta. Por enquanto.

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