Brumadinho: esquecimento um mês depois da tragédia

Cobertura fraca da imprensa, abandono dos governos estadual e federal e limbo jurídico compõem um quadro atroz. Leia também: revogada liberação da telemedicina; por que a AIDS avança entre mulheres idosas; a mãe da pílula anticoncepcional e muito mais

BRUMADINHO: UM MÊS DEPOIS

Hoje, faz um mês do crime da mineração em Brumadinho. Foram confirmadas 179 mortes. Mas ainda restam 131 desaparecidos na lama espalhada pelo rompimento da barragem de rejeitos da Vale. A Folhaconta como alguns familiares tem lidado com a situação. “Todas as famílias merecem fechar esse ciclo. Fico pensando no que uma tragédia dessas faz com a gente. Antes, eu queria ela viva de qualquer jeito. Agora, a gente só quer enterrar o pedaço que for”, desabafa Natália de Oliveira, que perdeu a irmã Lecilda que trabalhava na mineradora há 30 anos. Uma especialista, a psicóloga Maria Helena Franco, afirma que as pessoas estão sofrendo um “luto ambíguo”, em que a ambiguidade da situação dificulta que se retome a vida. “Os rituais são importantes porque eles marcam a realidade. Eles organizam a pessoa e dão concretude. Não havendo um corpo, o ritual conhecido, habitual, fica tudo em suspenso”, diz.

Já a BBC Brasil, que também abordou o sofrimento das famílias dos desaparecidos, caracteriza sua situação como “limbo jurídico”, na medida em que sem certidão de óbito, não é possível dar entrada em processos de pensão, seguro de vida, etc.  

Em entrevista ao Deutsche Welle, o prefeito de Brumadinho Avimar de Melo Barcelos (PV) afirmou que a cidade está “um pouco” abandonada pelos governos estadual e federal. A quantidade de bombeiros nas buscas diminuiu. “Isso está prejudicando muito os familiares das vítimas. Tem muitas vítimas embaixo da lama, os bombeiros estão indo embora e as pessoas podem não ser encontradas”, disse. 

Ontem, um protesto reuniu centenas de pessoas na cidade. Moradores, ambientalistas e artistas se mobilizaram para que o crime não caia no esquecimento. Tarefa difícil, se levarmos em conta a fraquíssima cobertura da imprensa sobre um mês do rompimento.

CONFLITOS PRESSIONAM SUS

Desde ontem, Roraima está sob decreto de calamidade na saúde pública. A decisão partiu do governador do estado, Antonio Denarium (PSL). Com os conflitos na Venezuela, dezenas de feridos estão sendo encaminhados aos serviços de saúde que, segundo o político, já estavam em situação crítica. A cidade em que se concentram os enfrentamentos entre militares e população é Santa Elena de Uairén, mas por lá não há estrutura para os atendimentos, os feridos estão atravessando a fronteira em ambulâncias venezuelanas para ser estabilizados em Paracaima. O Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, recebeu 18 venezuelanos baleados nas últimas 36 horas. A maioria, segundo o governo, ferido por tiros de fuzil. “É um ferimento muito mais grave e denota um uso do sistema de saúde muito mais intenso”, disse o vice-governador Frutuoso Lins, que é médico de formação. O decreto permite a realização de compras de materiais e medicamentos sem a necessidade de licitação. Mas o governo estuda contratar leitos na rede privada, caso aumente a demanda por internação. Segundo o governador, o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta se “mostrou sensível à situação” e deve enviar algum apoio em breve.

E, como se temia, as perspectivas não são boas: uma guerra pode ser iminente. Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela, anunciou ontem que não descarta pedir intervenção militar estrangeira naquele país.

À ESPERA

Em Melgaço, de sete vagas abertas pelo último edital do Mais Médicos, apenas um médico brasileiro formado por aqui chegou ao município para assumir o cargo. “Os outros candidatos me ligaram, especularam sobre a cidade, mas desistiram”, contou o secretário municipal de saúde Daniel Taveira ao UOL. Encravada na floresta amazônica no Pará, Melgaço tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil. Até o ano passado, o município tinha conseguido fixar sete médicos graças à parceria do governo federal com Cuba no programa. Agora, a cidade com 26 mil habitantes e índice de mortalidade infantil nas alturas (19 mortes a cada mil nascidos vivos) está temerosa. Na última chamada, as seis vagas conseguiram ser preenchidas por médicos brasileiros formados no exterior. Mas, de novo, as deficiências da cidade podem afugentar os profissionais. “Eles querem saber como é a moradia, se temos escolas. Dos que conversaram comigo, senti que uma médica virá”, retoma Taveira.

À VISTA

E temos mais militares à vista. O Estadão conta que a gestão dos contratos da Secretaria Especial de Saúde Indígena para compras de serviços de transporte aéreo será transferida para a Força Aérea Brasileira, a FAB. E, como já tinha sido anunciado em janeiro, militares ficaram responsáveis por cargos de chefia nos hospitais da Rede Federal no Rio. No Hospital Geral de Bonsucesso, Mandetta já escolheu seis nomes de militares que ocuparão diretorias subordinadas ao diretor do corpo clínico. Assim que forem aprovados por Bolsonaro, esses oficiais ficarão responsáveis por contratos de compras de medicamentos, limpeza e alimentação. O Ministério da Saúde espera, ainda, que eles tenham condições de resistir a pressão de milícias que, segundo denúncias, teriam o poder de definir a ordem no atendimento dos pacientes.

REVOGOU

O Conselho Federal de Medicina revogou a resolução que regulamenta a telemedicina na sexta-feira. A autarquia já havia anunciado que reveria a norma a partir de uma consulta pública lançada para receber sugestões. Mas como recebeu um grande número de críticas de médicos e entidades que representam a classe, o CFM foi mais fundo e partiu para a revogação. Não há prazo para apresentar um novo texto. Entidades que representam o setor privado, como a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) e a Federação Nacional de Saúde Suplementar (Fenasaúde) lamentaram a decisão. 

NOVO PERFIL

A taxa de detecção de HIV em mulheres acima de 60 anos aumentou, na última década, de 5,3 para 6,4 pessoas para cada 100 mil habitantes. Isso torna essa faixa etária com maior variação de aumento de casos. As informações são de um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde e estão em reportagem d’O Globo. Especialista ouvido pela reportagem avalia que a mistura de estimulantes sexuais e da falta de receio em engravidar faz com que as mulheres tenham uma vida sexualmente mais ativa, mas, ao mesmo tempo, acabem se descuidando do uso da camisinha. O jornal entrevistou algumas mulheres que receberam o diagnóstico nessa idade. Elas relatam uma grande dificuldade de compreensão por parte dos filhos.

POR TRÁS DA PÍLULA

Você sabia que o desenvolvimento da pílula anticoncepcional foi praticamente financiado por uma única mulher? E, mais legal ainda: a produção do contraceptivo foi o ápice de uma luta de décadas pelo direito de as mulheres escolherem ter filhos ou não. A BBC Brasil conta a história de amizade e parceria entre a enfermeira e ativista Margaret Sanger e a bióloga (e milionária) Katharine McCormick.  Enquanto Sanger lavrou o termo “planejamento familiar” e fundou o primeiro serviço do gênero nos Estados Unidos, sendo presa diversas vezes pela sua militância, McCormick contrabandeava contraceptivos mecânicos da Europa para os EUA costurados aos seus vestidos. Quando, em 1947, ela herdou a fortuna do marido, investiu no desenvolvimento da pílula que chegou ao mercado nos anos 1960.

MENSTRUAÇÃO NO OSCAR

O documentário curta-metragem “Period. End of Sentence” ganhou o Oscar dessa categoria ontem. O filme revela como a menstruação é, ainda, encarada como tabu em vários lugares e como isso acaba trazendo consequências para a vida das meninas, incentivadas ou obrigadas a abandonar a escola depois da menarca. Mas também mostra que não precisa de muito para que haja uma mudança: em uma comunidade na Índia, a instalação de uma máquina de absorventes significou uma liberação para as mulheres.

MERGULHANDO NOS NÚMEROS

Pesquisadores estão usando modelos matemáticos para entender melhor como as engrenagens de surtos e epidemias que têm como vetor o mosquito Aedes aegypti. Olhando para o caso da Polinésia Francesa, onde a zika chegou a afetar 82% da população que viviam em algumas regiões do arquipélago em 2013/14, cientistas concluíram que vai levar entre 12 e 20 anos para que o número de indivíduos suscetíveis permita que um novo grande surto aconteça.  Outro estudo olha para o surto de zika de 2016 no Brasil e recomenda outra tática para a soltura de mosquitos Aedes contaminados com a bactéria Wolbachia, que atrapalha a reprodução e a capacidade vetorial dos bichos. Segundo o matemático Sérgio Oliva, da USP, se as autoridades tivessem optado pela soltura de Aedes contaminados como forma de combater a transmissão da doença, o aparecimento de novos casos por semana poderia ter diminuído de 16 mil para 12 mil. Mas se somente os machos estéreis graças a Wolbachia fossem soltos, esse número poderia cair ainda mais, para 10,6 mil.

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