O desenrolar das queimadas na Amazônia

G7 quer interferir. Bolsonaro reclama, mas aceita ajuda de Israel. Confirma-se o “dia do fogo”. População se revolta nas ruas e com panelas. Tribo indígena sofre com efeitos da fumaça em RO. Leia também: Doria sanciona lei da cesárea em SP

Reunião de líderes do G7. Foto: Shealah Craighead / Casa Branca

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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AINDA A SAGA AMAZÔNICA 

Líderes do G7 reunidos em Biarritz, na França, disseram que estão se preparando para ajudar o Brasil a combater incêndios e reparar os danos na região amazônica. No entanto, não houve apoio à proposta feita pelo presidente francês Emmanuel Macron de suspender o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Em entrevista coletiva, Macron explicou que o apoio vai acontecer em dois níveis diferentes: o imediato, com ações para apagar os incêndios, e o de longo prazo, visando o reflorestamento das áreas devastadas. Isso ocorreria através de um “mecanismo de mobilização internacional”, aparentemente um fundo. No aspecto emergencial, já foram iniciados os contatos com todos os países da Amazônia para falar das ajudas possíveis, de “meios técnicos e financeiros”, revelou.

Também ontem, o presidente da Colômbia, Iván Duque, afirmou que levará à Assembleia das Nações Unidas em setembro uma proposta de acordo envolvendo todos os países que são cobertos pela Floresta Amazônica, compartilhada pelo país com Brasil, Bolívia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa, que é um departamento ultramarino da França. 

E o presidente da Bolívia, Evo Morales, que já aceitou ofertas de assistência da Espanha e do Paraguai, disse que gostaria de receber ajuda para combater os incêndios florestais no país, que queimaram mais de 745 mil hectares de terra na região de Chiquitania, na divisa com o Paraguai, e 100 mil hectares em Beni. 

Enquanto isso, Jair Bolsonaro aceitou ajuda do primeiro-ministro israelenseBenjamin Netanyahu, que deve enviar um avião com equipamento de combate a incêndios.

As dimensões extraordinárias das queimadas deste ano na Amazônia podem se explicar em parte pelos focos espalhados propositalmente no último dia 10 à beira de uma rodovia no Pará. Ontem de manhã o Globo Rural publicou uma reportagem afirmando que mais de 70 pessoas, entre sindicalistas, produtores rurais, comerciantes e grileiros, combinaram o “Dia do Fogo” num grupo de WhatsApp. “A intenção deles era mostrar ao presidente Jair Bolsonaro que apoiam suas ideias de ‘afrouxar’ a fiscalização do Ibama e quem sabe conseguir o perdão das multas pelas infrações cometidas ao Meio Ambiente”, diz a matéria, que, no entanto, não dá muitos detalhes. Segundo o texto, a Polícia Civil já ouviu “algumas pessoas ligadas” ao incêndio, mas ninguém foi preso. 

Apesar de a manchete ser a trama dos incendiadores, o texto também caiu no gosto de bolsonaristas. Isso porque aparece a fala de uma mulher – a pecuarista Nair Brizola – que segue o exemplo do presidente e acusa servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de incendiar a floresta. Sem comentar esse trecho, Ricardo Salles compartilhou a matéria no Twitter, dizendo que Bolsonaro vai abrir “investigação rigorosa”. Na mesma rede social, Sergio Moro escreveu que a PF vai investigar o grupo. O site O Eco fez o trabalho que o Globo Rural deixou de lado: descobriu que Nair recebeu uma multa há dez dias por queimar 70,93 hectares de floresta amazônica na Reserva Biológica da Serra do Cachimbo. 

Na sexta-feira, houve atos contra a política ambiental do governo em várias cidades do Brasil e de fora. No domingo, um ato em Ipanema reuniu vários artistas e ganhou espaço na imprensa. Em pronunciamento oficial transmitido por TV e rádio, Bolsonaro prometeu ações de combate às queimadas, mas disse que “incêndios florestais existem em todo o mundo” e “isso não pode servir de pretexto para sanções internacionais” contra o Brasil. Ele ainda falou, é claro, algumas mentiras. Foi possível ouvir panelas batidas em protesto ao presidente em várias capitais do país

O Conselho Nacional de Saúde aprovou uma recomendação ao Ministério do Meio Ambiente pela retomada da política de preservação, pedindo ação emergencial.

Os efeitos das queimadas para a saúde humana são o assunto de reportagem da BBC Brasil. A lista de problemas provocados pela inalação da fumaça inclui dor e ardência na garganta, tosse seca, cansaço, falta de ar, dificuldade para respirar, dor de cabeça, rouquidão, lacrimejamento e vermelhidão nos olhos. Também agrava quadros de doenças prévias, como rinite, asma e bronquite. Além disso, as queimadas podem desencadear essas enfermidades, assim como as cardiovasculares, insuficiência respiratória e pneumonia. Provocam quadros de alergia e há o risco de desenvolvimento de câncer quando a exposição é permanente. Quem mais sofre são crianças e idosos. A ONG Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé denuncia que as queimadas feitas por grileiros nos últimos dias estão agravando a situação de saúde de indígenas Uru-eu-wau-wau, no Parque Nacional de Pacaás, em Rondônia.

E os efeitos do fogo nas cidades, que tanto espantaram paulistanos na semana passada, chamando atenção de todo o país, são comuns em partes ‘esquecidas’ do Brasil. Capitais como Cuiabá, Manaus, Rio Branco e Porto Velho convivem com a pluma de fumaça há anos. “O céu acinzentado por queimadas está presente, principalmente, em estados do Norte e do Centro-Oeste do Brasil, além do interior de São Paulo. Excepcionalmente [neste ano], até áreas do Sul têm obscurecimento do céu por queimadas”, explica à BBC Brasil a meteorologista Estael Sias.

LEI DA CESÁREA

O governador de São Paulo João Doria (PSDB) sancionou na última sexta o projeto de lei que permite que grávidas optem por fazer cesárea no SUS a partir da 39ª semana de gestação, mesmo sem qualquer indicação clínica. A proposta inclui a determinação de oferecer analgesia a mulheres que decidirem fazer parto normal.

E o Instituto de Direito Sanitário Aplicado divulgou um parecer jurídico sobre o PL de Janaína Paschoal (PSL), agora lei. O texto aponta que o projeto fere a Constituição nos artigos em que ela prevê a garantia de “políticas públicas que evitem o risco do agravo à saúde”, o princípio do SUS de priorizar a prevenção e ainda a competência da União de expedir sobre normas gerais das políticas de saúde. E ainda fere a Lei Orgânica da Saúde, que dispõe sobre a necessidade de protocolos e diretrizes terapêuticas sobre os agravos à saúde, e a portaria do Ministério da Saúde 306, de 2016, que define essas diretrizes em relação à cesariana. A análise diz, por exemplo, que nenhuma lei estadual pode impor ao SUS supostos direitos do exercício da autonomia da vontade, quando esses direitos contrariam as diretrizes terapêuticas que visam proteger a saúde das pessoas. O parecer foi escrito a pedido do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de SP. 

SOBRE UM FIM

Por solicitação da ONU, um grupo do centro de pesquisas finlandês BIOS fez um estudo para contextualizar o relatório mundial da Organização sobre desenvolvimento sustentável. E os autores sustentam que “o capitalismo como o conhecemos” está chegando ao fim, porque depende de energia barata e ela está acabando. Vai ser preciso recorrer a fontes de energia menos eficientes que requerem “mais esforço e não menos” para serem produzidas, e o mercado não é suficiente para proporcionar soluções: os Estados precisam protagonizar a mudança. Mas isso esbarra em alguns governos – a matéria da BBC cita Trump (e podemos citar o nosso). O economista Paavo Järvensivu, um dos autores do estudo, considera que a ascensão desses governantes se deve em parte ao fato de os “partidos progressistas não terem proporcionado respostas suficientemente boas”: “Houve mais espaço para movimentos populistas que oferecem soluções fáceis – e que, na realidade, não são soluções”, sustenta.

RECORDE DE DESIGUALDADE

Neste segundo semestre, a desigualdade no Brasil registrou aumento persistente e superou o pico histórico observado em 1989. A conclusão é de um estudo da Fundação Getúlio Vargas: enquanto a renda da metade mais pobre da população caiu cerca de 18%, somente o 1% mais rico teve quase 10% de aumento no poder de compra. A principal causa é o desemprego. E os mais afetados são os jovens de 20 a 24 anos, os analfabetos, os moradores das regiões Norte e Nordeste e as pessoas de cor preta, que tiveram redução de renda duas vezes maior que a média geral. 

SEM INTERESSE

O programa Future-se apresenta o investimento privado como grande solução para as universidades públicas. Mas, como lembra o texto de Gergório Grisa no Intercept, o interesse das empresas em pesquisa é baixo: o dinheiro público representa mais da metade do investimento em P&D no Brasil. No resto do mundo, a tendência é a mesma. 

E o Nexo deu palco para Tiago Mitraud, deputado federal do Novo-MG, escrever que nossas universidades federais faliram. Ele diz que vê “com bons olhos” o Future-se: “A turma do contra, muitos dos quais estão diretamente envolvidos com o processo de falência do modelo atual, já está com o cabelo em pé. Preferem ignorar a existência do problema. Se recusam a fazer parte da solução e já se posicionaram contra o programa antes mesmo de sua versão final ser apresentada.” 

PROGRAMA DE DESASSISTÊNCIA

As principais preocupações em relação ao Médicos Pelo Brasil estão reunidas e contextualizadas nesta matéria do site na Escola Politécnica da Fiocruz. Uma delas diz respeito ao risco da desassistência, e fica bem explícito quando se olham certos números do IBGE apontados pelo professor da UFRGS Alcides Miranda: os municípios de até dez mil habitantes correspondem a 44% das cidades do país, mas abrigam somente 6% da população; por outro lado, 22% dos habitantes estão nas cidades com mais de 1 milhão de habitantes, embora elas correspondam a apenas 0,00001% dos municípios do país. Quando o programa restringe as vagas às cidades pequenas, excluiu a maior parte da população. Também são comentados pontos como o risco de privatização por conta da Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária e o fim do compromisso com a residência em Medicina de Família e Comunidade. 

Uma reportagem da GaúchaZH ilustra o problema. Em Porto Alegre, quem vive a 30 quilômetros do Centro da cidade enfrenta uma realidade de poucas unidades de saúde, falta de profissionais nos postos e longos percursos para realizar exames. Além disso, a fixação de pessoal é problemática, o que rompe o vínculo que deveria ser construído entre a equipe e a população que ela atende. “A rotatividade aqui é um grande problema, os profissionais não ficam por conta da distância. Aí, a Secretaria tira um de um posto e coloca em outro”, aponta Idemar da Rocha Nunes, coordenador de saúde do Extremo Sul da capital gaúcha.

DIA HISTÓRICO

Hoje à tarde, o juiz que preside o julgamento de opiáceos em Oklahoma, nos EUA, deve entregar sua decisão sobre acusações envolvendo a Johnson & Johnson e sua subsidiária, a Janssen Pharmaceuticals, na epidemia que já matou centenas de milhares de pessoas naquele país nos últimos 20 anos. É o primeiro julgamento estadual nesse sentido, e Oklahoma pediu uma indenização de US$ 17,2 bilhões. As implicações podem ser radicais, porque outros estados estão movendo processos semelhantes. Se o juiz for ficar do lado da J&J, a indústria farmacêutica vai ter um precedente para se defender em outros casos.

NEGÓCIO FECHADO

A SulAmérica vendeu as operações de seguros de automóveis e de ramos elementares à Allianz por R$ 3 bilhões. Caso o negócio seja aprovado pelos órgãos reguladores, a empresa vai se tornar uma seguradora especializada nos ramos de saúde e odontologia

ASMA

A morte precoce da escritora e atriz Fernanda Young chamou atenção para os riscos da asma. De acordo com o clínico geral Roberto Debski, entrevistado pela Folha, a doença pode passar desapercebida por muitos anos. “Um idoso pode ter asma, mas ficar a vida inteira sem sintomas e, de repente, apresentar uma crise grave”, diz. De acordo com o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia, Luiz Carlos Corrêa da Silva, todos os anos ataques agudos da doença matam de 1,5 mil a duas mil pessoas no país. É importante não negligenciar os sinais que o corpo dá, procurar diagnóstico correto, mudar hábitos e fazer o tratamento, recomendam vários médicos ouvidos pela imprensa.

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