A escalada do câncer no Brasil e no mundo

Até 2022, Brasil terá 625 mil casos por ano — taxa no mundo crescerá 60% até 2040. Um terço dos casos poderiam ser evitados com redução de obesidade e tabagismo. Leia também: cientistas pedem pressão global contra política de Bolsonaro

Por Raquel Torres

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ESCALADA DO CÂNCER

O Brasil deve ter 625 mil casos de câncer por ano de 2020 a 2022 e, só entre a população infantojuvenil, são esperados 8,4 mil novos casos anuais. A estimativa foi divulgada ontem pelo Inca. O câncer de pele não-melanoma deve seguir como o mais incidente (177 mil por ano). Em seguida, vêm os de mama e próstata (66 mil cada), cólon e reto (41 mil), traqueia, brônquio e pulmão (30 mil) e estômago (21 mil). Foi um aumento em relação à projeção passada, quando 600 mil novos casos por ano eram esperados de 2018 a 2019. A instituição afirma que um terço desses casos poderia ser evitado com a redução ou eliminação de fatores de risco, como obesidade e tabagismo.

E a situação no resto do mundo também tende a piorar: a OMS estima que até 2040 os casos vão aumentar 60%, chegando a mais de 30 milhões. O problema vai ser mais grave nos países em desenvolvimento, onde se estima um aumento de  81%. A principal razão é que, neles, são limitados os recursos destinados à saúde pública, principalmente na prevenção de doenças. Fora isso, os sistemas nesses países estão menos preparados para diagnosticar e tratar os cânceres em estágio inicial.

OS CUSTOS DO VÍRUS

A diretoria de planejamento estratégico da OMS divulgou ontem que o custo das ações de saúde pública para combater o coronavírus no mundo nos próximos três meses é de US$ 675 milhões, o equivalente a R$ 2,8 bilhões – sem contar as consequências econômicas e sociais da doença. A Organização vai enviar máscaras, luvas, respiradores e quase 20 mil trajes de isolamento para os países que precisam de suporte. As medidas de restrição de viagens e comércio, reportadas em 22 deles, são preocupantes. O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, destacou que essas ações precisam ser curtas e proporcionais aos riscos à saúde pública, porque podem aumentar o medo, sem grandes benefícios.

O número de mortos na China subiu para 490 e o total de infectados ultrapassou os 24 mil, segundo boletim divulgado ontem à noite.

Também ontem, o governo chinês reconheceu “insuficiências” na resposta ao surto. Em comunicado divulgado pela agência oficial, o Comitê Permanente de Bureau Político do Partido Comunista pediu melhorias no sistema de reação a emergências diante de “deficiências e dificuldades na resposta à epidemia”. Entre outras coisas, o documento pede esforços para reprimir mercados ilegais de animais silvestres.

A história do oftalmologista Li Wenliang, publicada por ele numa rede social, acabou virando um dos símbolos dessas falhas. Ele conta que desde o fim de dezembro tentou alertar colegas sobre o surto, sugerindo que usassem equipamentos de proteção, mas a polícia foi até a sua casa e ordenou que parasse. O médico  afirma que foi obrigado a assinar uma carta; no documento – publicado junto ao seu relato –, ele era acusado de “divulgar informações falsas” que “causaram distúrbios graves à ordem social”. No fim das contas, Wenliang foi infectado pelo coronavírus durante o trabalho.  Seus posts foram feitos a partir do hospital onde está internado.

E gerou comoção o caso de um jovem de 17 anos, com deficiência física, que morreu após o pai ser isolado em quarentena. Yan Cheng tinha lesão cerebral e não falava, andava nem comia sozinho. Ninguém o alimentou depois que o pai foi retirado de casa. O chefe do Partido Comunista da cidade onde ele vivia foi demitido. 

OS DETALHES DA QUARENTENA

Ontem o governo brasileiro enviou ao Congresso um projeto que prevê regras para a quarentena e medidas contra o coronavírus. O texto já foi aprovado na Câmara e deve ser analisado pelo Senado ainda hoje. Ele define quarentena como “restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação das pessoas que não estejam doentes ou de bagagens, contêineres, animais, meios de transporte ou mercadorias suspeitos de contaminação, de maneira a evitar a possível contaminação ou a propagação do coronavírus”. Além disso, obriga a realização de exames médicos, testes laboratoriais e coletas de amostras clínicas; e autoriza o fechamento temporário de fronteiras conforme recomendação técnica. Também fica autorizada a importação temporária de tratamentos não autorizados pela Anvisa, desde que registrados por autoridade sanitária de outro país.

Pelo texto, cabe ao Ministério da Saúde definir os detalhes da quarentena e do isolamento para os brasileiros que voltarem de Wuhan. Até ontem à tarde havia 29 pessoas confirmadas para a repatriação, com chegada prevista para dia 8. Elas de fato vão cumprir a quarentena na base aérea de Anápolis, em Goiás, como havia sido adiantado. No território brasileiro, o número de casos suspeitos caiu para 13.

Enquanto isso, o ministro Luiz Henrique Mandetta deve se reunir hoje com 54 secretários de saúde dos estados e das capitais brasileiras para discutir o tema.

NA PRESSÃO CONTRA BOLSONARO

A Nature publicou uma carta de cerca de 1,2 mil brasileiros, entre cientistas e membros de comunidades indígenas e tradicionais, pedindo uma ação global de pressão sobre Jair Bolsonaro para restaurar a “governança brasileira de serviços ecossistêmicos de importância global” – comprometida pelo desmantelamento das políticas socioambientais. “Os mercados internacionais podem exercer pressão sobre como os agricultores produzem commodities no Brasil, ajudando a colocar o país na tendência global de agricultura sustentável. Os países podem apoiar as empresas comprometidas com os ODS [Objetivos do Desenvolvimento Sustentável] por meio do uso estratégico de incentivos, enquanto os governos estaduais e municipais no Brasil podem estimular a produção da agricultura sustentável e baseada na biodiversidade, atraindo investimentos externos. (…) Entre os brasileiros, 91% desejam políticas mais fortes para a conservação da natureza, o que implica que a integração de políticas com metas globais (…) é de interesse público”, diz o documento.

TOMADA SOCIALISTA

Ontem, em seu terceiro discurso anual do Estado da União – que, segundo analistas, teve ares de comício ou programa de auditório – Donald Trump aproveitou para atacar a universalização do sistema de saúde. Disse que o plano de candidatos democratas de de expandir o seguro financiado pelo governo eram a imposição de uma “tomada socialista do sistema de saúde”, que levaria o país à falência. É claro que não faltou xenofobia. Segundo o presidente, a mudança geraria cortes nos benefícios para a parcela da população que hoje os possui, enquanto assistência seria prestada a imigrantes ilegais. Atrás dele, a democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados, murmurava “isso não é verdade”.

Legisladores democratas levaram pessoas com diabetes que sofrem com os preços impraticáveis da insulina, além de dezenas de pacientes ameaçados pelas investidas de Trump contra o Obamacare.  Trump falou apenas muito brevemente sobre os preços dos medicamentos – ele tinha uma antiga promessa de encarar os aumentos abusivos fazendo com que o Medicare negociasse diretamente os preços, o que nunca aconteceu. Nesse momento, representantes dos democratas se levantaram e protestaram durante alguns segundos, cantalorando o acrônimo “HR 3”. Era uma referência ao projeto de lei que aprovaram em dezembro, justamente no sentido da negociação direta, e que permitiria ao Medicare economizar até US$ 350 bilhões por ano.

ACESSO AOS EXAMES

Este mês o vazamento de rejeitos tóxicos da mineradora Hydro Alunorte em Barcarena, no Pará, completa dois anos – e só agora a população atingida conseguiu na Justiça o direito a acessar os resultados dos exames feitos para detectar metais pesados no organismo. Mais de 30 amostras de sangue e fios de cabelo foram coletadas em julho de 2018 pelo Laboratório Central de Saúde Pública do Pará (Lacen), vinculado à secretaria estadual de saúde. Segundo a matéria do Brasil de Fato, documentos com os resultados já haviam sido entregues à população, mas estavam ilegíveis e apresentavam rasuras.

INDICIADA POR FRAUDE E LESÕES

O caso começou em 2016, e agora a Sanofi virou ré em no processo sobre um medicamento antiepilético (vendido no Brasil como Depakene ou Valpakine). A empresa foi acusada de “fraude qualificada” e “lesões culposas”. É que, quando ele é tomado por mulheres grávidas, os bebês têm 40% de chances de apresentar autismo e malformações neurológicas congênitas, mas a farmacêutica não informava sobre o alto risco. Um estudo feito por autoridades sanitárias francesas em 2017 estima que, entre 1967 e 2016, de duas a quatro mil  crianças nasceram com malformações congênitas devido à exposição ao remédio.

MAIS UM PROBLEMA

Como já comentamos aqui, desde o início do ano vários municípios do Rio sofrem com a distribuição de água turva, malcheirosa e com gosto ruim devido à presença de uma substância chamada geosmina. Agora, a capital teve mais um problema: foi detectado detergente na estação de tratamento de água do Guandu, que abastece nove milhões de pessoas. As operações foram suspensas na segunda-feira e retomadas ontem, mas há um prazo de 72 horas para que o abastecimento seja restabelecido. A prefeitura decidiu adiar em um dia o início do ano letivo nas escolas municipais – muitas delas estão sem água.

E deputados estaduais querem abrir uma CPI para investigar os motivos que levaram à queda da qualidade da água.

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