Letônia, a bola da vez

090226-letoniaFuga de capitais, desemprego em massa, empobrecimento e revolta. Abatido pela crise, o antigo “tigre do Báltico” segue o caminho da Islândia — e pode abrir uma espiral de instabilidade na Europa

A estranha assimetria que marca o sistema financeiro internacional floresceu com todas as cores, nos últimos meses, na Letônia. Atingido simultaneamente por paralisia nos mercados de crédito e redução brutal das receitas de exportações, o país mergulhou rapidamente em crise econômica e social. No quarto trimestre de 2008, o PIB despencou 10% — e a queda, estima-se, pode chegar a 15%, até o final do ano. A taxa de desemprego, de apenas 5,6% até outubro, disparou para 8,3% em janeiro e as demissões não cessam. Os produtores rurais (especialmente de leite) não têm a quem vender: os mercados nos países ricos da Europa secaram; as compras internas, também: o preço do litro caiu 45%, em poucas semanas.

Nos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental — mas também em países como a China e o Brasil — tendências assim têm sido parcialmente compensadas pelo Estado, por meio de medidas de estímulo à economia e, em certos casos, proteção social. Na Letônia, não. Um acordo com o Fundo Monetário Internacional, no final de 2008, evitou que o país se tornasse inadimplente, mas impôs cortes severos dos gastos públicos. O salário dos servidores foi rabaixado em 25%. Os subsídios à agricultra, reduzidos em 40% a 50% — o que agravou o sofrimento dos produtores.

Em janeiro, a população se revoltou. Uma marcha de 10 mil pessoas terminou em confronto com a polícia. Pouco depois, os agricultores cercaram Riga, a capital, com tratores e gado. Em 20 de fevereiro, o primeiro-ministro, de centro-direita, caiu, logo depois de perder apoio de dois partidos da coalizão governante. Na manhã desta quarta-feira, 26/2, o presidente nomeou um substituto. Valdis Dombrovskis, o escolhido, parece ainda mais conservador: assumiu anunciando mais cortes orçamentários e culpando seu antecessor por “não haver cumprido todos os compromissos com o Fundo Monetário”. Nada indica que a situação vá se acalmar. Mas os fatos ajudam a compreender três fenômenos ligados à crise atual.

Nenhum fim previsível para a crise — Primeiro: a crise esmaga as certezas dos países que não se protegem contra ela. Até o final de 2006, com o PIB chegando a subir mais de 10% ao ano, a Letônia era o país de crescimento econômico mais rápido na Europa. Chamavam-na “tigre do Báltico”. Mas seu avanço apoiava-se em déficits e endividamento irresponsáveis. Desde que se separou da antiga União Soviética, em 1990, o país eliminou progressivamente as barreiras à entrada (e saída…) de capitais. A oferta de crédito externo parecia não ter fim. O sistema bancário foi radicalmente internacionalizado. Instituições estrangeiras — em especial austríacas e suecas — assumiram o controle de cerca de 90% dos financiamentos. Além disso, a produção de mercadorias voltou-se crescentemente para a União Europeia.

Estas formas de dependência tornaram a crise, agora, muito mais virulenta. Obrigados a cobrir prejuízos em seus países de origem, os bancos estrangeiros reduziram praticamente a zero a concessão e renovação de créditos na Letônia. Para piorar, boa parte das dívidas (especialmente as hipotecárias) está denominada em divisas estrangeiras, como o euro e a coroa sueca. Por enquanto, o  lat, moeda nacional, está atrelado à moeda europeia. Se sofrer desvalorização, como parece cada vez mais provável, tornará ainda mais difícil a situação dos devedores, comprometidos em moedas fortes. Já a abertura comercial sem controle, e a aposta na exportação de commodities agrícolas, tornaram a Letônia muito vulnerável às reduções no poder consumo de seus vizinhos ricos.

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Segundo: não há nenhum fim previsível para a crise, porque as formas de contágio estão se multiplicando. A Letônia é apenas o caso mais agudo, na longa relação de países do Leste Europeu que foram irrigados com créditos fartos, sem que houvesse nenhum sinal de que estivessem se capacitando para saldá-los. A lista inclui Estônia, Lituânia, Hungria, Romênia e Bulgária. Em situação ligeiramente menos desconfortável estão Turquia, Bielorrúsia e Ucrânia. Numa conjuntura internacional já marcada por falências e calotes, uma crise cambial num destes países poderia ter conseqüências explosivas.

Como a Europa pode ser contagiada — Haveria dois mecanismos de propagação. O primeiro, entre os próprios países do Leste. Como todos estão comprometidos com um pequeno conjunto de bancos estrangeiros, uma eventual falência bancária, provocada pela quebra de qualquer dos elos da corrente, repercutiria de imediato nos demais. O segundo, potencialmente muito mais perigoso, envolve os próprios países centrais da União Europeia. A febre de empréstimos ao Leste foi vasta e lucrativa. Os bancos da Áustria, por exemplo, emprestaram para a região o equivalente a 70% do PIB austríaco. Uma crise generalizada no Leste quebraria o país. E então: qual seria a peça seguinte do dominó?

Terceiro: apesar dos riscos, não há nem resposta comum, nem articulação política suficiente, entre os governos. Num artigo publicado em 26/2 pelo jornal londrino The Guardian, o analista Timothy Ash frisa que, por tudo o que se viu até aqui, uma eventual derrocada na antiga Europa Oriental colocaria em risco a própria União Europeia, hoje constituída por 27 membros. Além das consequências financeiras e econômicas, há as políticas. Nos países do Leste, cresce o ressentimento contra a chamada “armadilha” representada pela adesão à UE.  Entre os governos do Oeste, contudo, não há sinais de solidariedade. Ela poderia vir, lembra Ash, na forma de “qualquer construção prática capaz de oferecer abrigo durante a tempestade”. Por exemplo, uma sinalização do Banco Central Europeu, sinalizando que não permitirá o colapso dos sistemas de crédito orientais.

O motor da Europa — Alemanha e França, principalmente — permanece paralisado. No Leste, persiste a crise econômica e social, e não parece haver, no espectro político, saída à vista (vide a mudança para pior no governo da Letônia). Assim como na Islândia (veja nosso post a respeito), onde a crise começou a detonar a mudança, a mobilização social parece ser o único caminho…

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