Persistente primavera mexicana

Nova mobilização nacional dos estudantes amplia desgaste dos candidatos conservadores à presidência e influi nas pesquisas. Amplia-se geografia das rebeliões globais

Por Daniela Pastrana da Agência IPS | Tradução Daniela Frabasile

“Deixaram-nos um país ferido, decomposto”, lamenta-se o estudante Juan Eduardo Flores, em Veracruz, um dos estados mexicanos mais atingidos pela delinquência organizada e governado há 84 anos pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI). “Não quero viver em um mundo assim, não quero viver agachado”, disse à IPS esse jovem de vinte anos, promotor do movimento Yo soy 132 e participante das manifestações contra o candidato do PRI, Enrique Peña Nieto, que ocupa, segundo as pesquisas, o primeiro lugar nas intenções de voto para as eleições presidenciais de 1º de julho.

Veracruz, no leste do México, é um dos vinte estados em que os universitários saíram às ruas para protestar contra a cobertura midiática favorável ao candidato do partido que governou o México entre 1929 e 2000. A última manifestação-gigante ocorreu no domingo, 10/6, e repetiu-se em cinquenta cidades, com participação de aproximadamente 100 mil pessoas, segundo os organizadores Exigiu transparência eleitoral em um aniversário emblemático: a matança — no mesmo dia, em 1971 — de aproximadamente 120 estudantes, durante um protesto na capital. As mobilizações coincidiram com o último debate na televisão dos quatro candidatos à presidência antes das eleições, que também elegerão 625 parlamentares e 2 mil outros ocupantes de cargos públicos.

Desde seu surgimento, em 11 de maio, o movimento Yo soy 132 produziu um giro radical na disputa pelo governo. Nesse dia, estudantes da Universidad Javeriana, uma universidade ligada à igreja católica e à Companhia de Jesus, vaiaram Peña Nieto durante sua visita à instituição, e denunciaram a repressão brutal da polícia contra camponeses, ocorrida em 2006 em San Salvador de Atenco, quando o atual candidato presidencial era governador do estado do México, onde a cidade se localiza.

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Num primeiro momento, assessores do candidato atribuíram o protesto a “grupos manipuladores e agitadores”. Como reação, 131 estudantes do centro educativo da Cidade do México fizeram um vídeo em que, com documentos de identidade em mãos e um por um, assumiram sua responsabilidade pela crítica. O vídeo teve impacto imediato, graças às redes sociais. Desde então, milhares de universitários de instituições públicas e privadas somam-se aos primeiros 131 e mobilizam-se, quase diariamente, para exigir dos meios de comunicação, especialmente as grandes cadeias televisivas, maior igualdade na cobertura da campanha eleitoral.

“Tem sido uma experiência intensa. Há jovens muito inteligentes. É preciso discutir com eles de igual para igual, para produzir posições de consenso. Cada vez que você fala numa assembleia, sabe que representa a sua escola: isso é uma grande responsabilidade”, disse à IPS o estudante de jornalismo Ari Santillán, na Cidade do México. A “Primavera Mexicana”, como muitos chamam o movimento estudantil, tem como demanda principal a democratização dos meios de comunicação e uma eleição sem fraudes. No entanto, tem convergido com um crescente sentimento “anti-PRI”, partido identificado com um sistema corrupto e o autoritarismo.

“Quem somos? Somos os que nasceram no erro de dezembro e viramos o acerto do mês de maio”, leu Flores no manifesto de estudantes da cidade de Veracruz. O “erro” é uma alusão à crise financeira aberta no México em dezembro de 1994 e que impactou a economia mundial. No México, segundo o censo de 2010, existem pouco mais de 14 milhões de jovens que têm entre 18 e 24 anos de idade. Equivalem a 12% dos habitantes do país. Entre eles, 5,9 milhões vivem com recursos abaixo da “linha de bem-estar” estabelecida pelo Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social. Ou seja, têm renda mensal abaixo de 170 dólares. Além disso, 1,3 milhões de jovens vivem em extrema pobreza, com renda menor de 70 dólares mensais. Apenas duas de cada dez pessoas entre 18 e 24 anos, têm acesso à educação universitária na segunda economia e no país mais populoso da América Latina, depois do Brasil.

Os jovens são, também, o setor mais atingido pela violência. Ela multiplicou-se com a estratégia de militarização, adotada pelo conservador Felipe Calderón contra o crime organizado e o tráfico de drogas, desde janeiro de 2007 — um mês depois de iniciar seus seis anos na presidência. Dados oficiais revelam que, entre 2001 e 2010, mais de 92 mil pessoas entre 18 e 24 anos morreram no México de forma violenta. Isso equivale a 25 jovens mortos diariamente.

A virada na campanha ocorreu graças aos jovens que estreiam como eleitores. Nas últimas semanas, mais de 15 universidades de diferentes estados fizeram simulações de eleições. Em todas elas, o candidatos vencedor foi Andrés Manuel López Obrador, indicado pelo Partido da Revolução Democrática e outros grupos de esquerda. O candidato tem sido aclamado até em centros universitários elitistas.

A mudança foi detectada também pelas pesquisas nacionais. Segundo elas, López Obrador diminui rapidamente a distância que o separa de Peña Nieto, estando agora a 14 pontos percentuais do favorito. Em terceiro lugar, mas bem atrás, aparece Josefina Vázquez, candidata do Partido de Ação Nacional, que governa o México desde 2000.

“O 132 rompeu o paradigma da divisão entre escolas públicas e privadas”, disse o estudante de antropologia Alexis Jiménez, que ao fim de 2011 participou da acampada em frente à bolsa de valores da Cidade do México. Além de reavivar a campanha eleitoral, os jovens estão dando novos ares aos movimentos sociais. “Os estudantes tornaram-se portadores de todas as críticas acumuladas e estão fazendo isso em condições novas para todos”, disse à IPS Jesús Martín del Campo, um ativista social de grande trajetória, que teve seu irmão foi assassinado em 1971. Ele prosseguiu: “são apartidários, mas não apolíticos, e vão criar sua própria história. Porque além de tudo, a resposta do PRI a suas reivindicações foi muito patética. Faltou apenas acusar os estudantes de serem manipulados pela União Soviética, que já não existe”.

Os jovens, que se declaram “apartidários, pacíficos e sem líderes”, asseguram que não há volta. “No movimento, encontrei amigos que nunca pensei que iam se envolver com algo assim. Eu mesmo nunca tinha me imaginado nisso”, disse o estudante Juan Vázquez. “Agora, o desafio é seguirmos mobilizados depois do processo eleitoral. O que queremos é que os que têm o poder prestem contas e que haja um legítimo poder do cidadão”.

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Daniela Pastrana

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