Na pandemia, o Chile rebelado outra vez

Agora, são as periferias que se insurgem — contra a miséria da “ajuda emergencial”, a fome, os bancos e o governo Piñera. Como Bolsonaro, ele trama autoritarismo e resgate dos mais ricos. População enfrenta polícia. Cuidado, capitão!

Por Meritxell Freixas, no Público | Tradução: Rôney Rodrigues

“Fome”. Foi a palavra que, no começo da semana passada, foi projetada na empena de um dos principais edifícios da Plaza Italia, em Santigo do Chile. A mesma em que há meses, durante a rebelião de outubro, se projetava a a palavra “Dignidade”. Enquanto as seis letras (“hambre”) eram projetadas na parede, panelas e frigideiras ressoavam com força. Em alguns bairros, a quarentena e os toques de recolher foram quebrados — e surgiam imagens de barricadas e enfrentamentos de manifestantes com a polícia.  

A décima segunda semana de pandemia tem sido especialmente intensa no Chile. Os efeitos econômicos da crise começaram a aflorar com força e, após dois meses de confinamento — para alguns, obrigatório — muitas pessoas chegaram ao limite de seus recursos. “Estamos passando fome, a gente não tem o que comer. O que vamos comer? Vamos tomar água na quarentena”, exclamava uma mulher diante das câmeras de televisão na segunda-feira (18/5), quando um grupo de vizinhos e vizinhas de um bairro do sul de Santiago, El Bosque, protagonizaram os primeiros protestos. Na terça, a mobilização se replicou, desta vez em La Pintana, outro bairro do sul da capital. “Ninguém nos ajuda, nem o governo, nem o município nem os narcotraficantes”, reclamava outra manifestantes diante das câmeras. Nas duas ocasiões, as manifestações foram reprimidas pelos carabineros (polícia militar chilena).

El Bosque cumpre quatro semanas de confinamento e registra mais de 600 contágios por covid-19. A superlotação, o trabalho precário e a pobreza fazem com que o cumprimento da quarentena, que desde a última semana é obrigatória em quase toda a área metropolitana, seja inviável para muitos dos moradores. Segundo as cifras do governo local, 11% da população, o equivalente a cinco mil famílias, vivem em extrema pobreza e 6% não contam com serviços básicos. 

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“A situação é complexa para a grande maioria da população. Temos muitos moradores que trabalham na construção, em feiras e mercados, em restaurantes ou centros comerciais e tiveram que sair desses lugares”, explica José Miguel Laiño, liderança comunitária em El Bosque. Conta que muitos não têm recebido salários, que as ajudas prometidas pelo governo não chegam e que até agora as pessoas puderam aguentar porque pediram dinheiro emprestado. “Mas já estamos na metade de maio e não há como pagar os serviço básicos de água e luz”, queixa-se

“Operação cestas básicas”

Para frear o descontentamento e a fome, o governo de Sabastián Piñera anunciou a distribuição de 2,5 milhões de cestas básicas a partir de sexta (22/5). “Vamos chegar a cerca de 70% das famílias com estas cestas básicas e, por isso, peço tranquilidade e compreensão”, sugeriu o mandatário. As caixas, projetadas para que durem, entre quatro pessoas, por 15 dias, incluem alimentos altamente calóricos, como legumes, macarrão, arroz, sardinha, farinha ou azeite, além de produtos de limpeza como sabão e detergente. Cada cesta custa 30 mil pesos (R$ 200). Essa ajuda terá um custo total ao Estado de 100 milhões de dólares. 

Piñera, que após o terremoto de 2010 havia liderado outra operação de entrega massiva de alimentos, destacou que se trata de um processo de preparação e distribuição “com uma magnitude nunca antes vista no Chile” e sublinhou que “exige um grande esforço de organização e logística”.  No entanto, algumas questões sobre a operação cesta básica ficaram sem respostas. Não se sabe ainda que papel cumprirão os municípios, que se inteiraram da notícia pela televisão; também se desconhece o tempo efetivo que a iniciativa tardará a chegar a todos aqueles que serão beneficiados; e o impacto que uma compra de tal magnitude pode provocar na alta dos preços dos alimentos e dos produtos que o país importa como legumes, açúcar e arroz. 

Endividamento recorde dos lares

Às cestas básicas de alimentos, somam-se outras medidas estabelecidas pelo governo chileno como paliativo aos efeitos econômicos da pandemia. Entre elas, um subsídio de 50 mil pesos (R$ 340), destinado a 60% das famílias mais vulneráveis e a pessoas com mais de 70 anos que recebem aposentadorias de um salário mínimo; ou a polêmico Renda Familiar de Emergência, cuja aprovação foi motivos de árduo debate com a oposição e os movimentos sociais, que consideravam insuficiente a quantia entregue ao governo: 65 mil pesos (R$ 440) para cada membro do grupo familiar, em maio; 55 mil pesos (R$ 370) em junho e 45 mil pesos (R$ 305) em julho.

“Ao declarar uma quarentena devido a uma pandemia que sabemos que será muito grande e afetará os setores mais pobres, é preciso se antecipar e tomar medidas socioeconômicas para que as famílias que geram renda no dia a dia possam se sustentar e possam comer”, aponta o psicólogo e presidente da ONG América Solidaria, Benito Baranda. 

“No Chile, um terço das pessoas vive de trabalhos informais e nos bairros mais vulneráveis isso supera os 50%. É uma cifra baixa quando comparada a outros países da América Latina, mas é muito alta para um país com uma renda per capita como a nossa [aproximadamente, 15 mil dólares]”, sustenta Baranda. Segundo informações divulgadas recentemente pelo Banco Central, o endividamento dos lares chilenos alcançou uma cifra recorde de 75% da renda anual de uma família. 

Baranda recorda que diante da grave crise econômica que o país enfrentou em 1982, o Estado de endividou para “salvar a banca” e alerta que essa fórmula não pode se repetir agora. “Hoje o Chile tem recursos poupados no estrangeiro que, com um bom pacto econômico e social entre as forças políticas, permitiriam não sobrecarregar o mais pobres com a crise, como fez a ditadura há 38 anos”. E insiste: “os mais pobres que pagaram e as cicatrizes que essas pessoas levam são gigantes”.

Autogestão e ollas comunes

Enquanto o governo não aposta em medidas socioeconômicas mais contundentes, muitos bairros optaram por recorrer a autogestão. “São zonas onde o Estado é muito débil e diante disso as comunidades se organizam”, afirma Baranda. Como na época da ditadura, associações de moradores, clubes desportivos, grupos culturais e organizações da juventude recuperaram as chamadas “ollas comunes”, uma espécie de cozinhas sociais geridas pelos próprios moradores do bairro. “Se analisa quem necessita algo e se entrega uma sacola na casa, com mantimentos”, conta José Miguel Laiño. 

Em seu centro social também promovem a campanha O povo ajuda o povo, focada em recolher comida para as periferias. “Desinfetamos grades, jardins da frente, portas e maçaneta das casos dos moradores e, em troca, pedimos uma colaboração em alimentos não perecíveis para ajudar os moradores mais necessitados”, relata José Miguel. Até agora, entregaram 60 pacotes. 

El Bosque foi o primeiro bairro a disparar os alarmes do que pode vir depois da quarentena. Os protestos dos moradores da periferia que estão passando fome podem ser o prelúdio de um estalido social 2.0, que explodirá como uma nova panela de pressão assim que a pandemia passar.

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2 comentários para "Na pandemia, o Chile rebelado outra vez"

  1. Hshshah disse:

    O mais engraçado é o subtítulo, falar de autoritarismo sem saber a ação judicial e postar mentiras e opiniões própria sobre política ao invés do profissionalismo. O que vocês fazem é o que justamente a Alemanha nazista fez, Xingar os judeus sem motivo determinado só para as pessoas odiarem eles pelo estigma.

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