Diário: MPL, repressão em dois atos

Passe Livre tem denunciado com energia, e quase sozinho, lei autoritária de Doria. PM segue encurralando e coibindo manifestações

Fotografias: Rogério de Santis

29 de janeiro – MPL na Secretaria da Segurança

Hoje teve várias mobilizações de rua: um ato do MPL contra o decreto de Dória que endurece (inconstitucionalmente) as condições de realização de manifestação pública; um protesto do MBL contra o apoio da UNE à Venezuela, na rua Vergueiro; a marcha do MTST “Menos ódio, mais moradia”, na Sé; uma reunião de protesto contra o crime de Brumadinho; e um ato de solidariedade a Jean Wyllys na faculdade de Direito.

Acabou que fui ao MPL, que era em frente a Secretaria de Segurança Pública, na rua Líbero Badaró, no centro da cidade. Decidi que as outras movimentações eram interessantes mas que o MPL seria o mais distante possível de um comício, o que eu não suportaria nesse instante.

Saí da estação Sé do metrô e busquei a Líbero Badaró a pé. Eram quase 14h tinha chovido muito e o chão estava molhado. Mas o ar estava abafado e a cidade cheia de atividade: os pregadores na praça, os sem-teto, os trabalhadores em almoço, homens-placa e camelôs.

Cheguei em frente à Secretaria e vi muitos policiais, motocicletas e viaturas. Estavam espalhados nas mediações também, e fui à Praça do Patriarca para checar. Bingo: dois caveirões e mais soldados.

Vi uma bicicleta que trazia uma prateleira de livros para distribuição gratuita. Chequei o conteúdo. A maioria eram velhos, mas um deles me chamou a atenção: “Inflação para o povo”, de Paul Singer. Não levei nada.

Mas não vi ninguém do MPL. Esperei.

Acabei por encontrar o fotógrafo L e conversamos. Ele acha que o carnaval deste ano vai ser tenso, já que o decreto que atinge o MPL também vale para qualquer aglomeração: aviso prévio e autorização, proibição de máscaras etc. Este ano a prefeitura está em dificuldades para achar patrocínio para a folia, o que pode indicar certa perda de controle na rua. Mas concordamos que os blocos devem ferver em 2019, pois há um grito atravessado nas gargantas. E a Mangueira traz em seu samba-enredo Marielle Franco. Dado o envolvimento de Flávio Bolsonaro com o Escritório do Crime, temos potenciais faíscas no Sambódromo (quem vai esquecer o Vampirão?). Contou também como, em outras manifestações, já inalou tanto gás de efeito moral que acabou no hospital, vomitando e defecando a noite toda.

Enquanto conversávamos, dois homens da rua discutiam na praça em frente ao Largo São Francisco. Uma viatura passou e, sem descer do carro, um policial acionou o spray de pimenta na cara de um deles. Foi muito covarde e canalha. O homem caiu na calçada.

Passou uma moça do MPL e ela disse que ia ter ato sim. Já tinham chegado três fotógrafos. Vi o P2 de sempre, com seu jaleco laranja. Eram 14h:30.

Foi chegando mais gente do MPL. A presença policial era acintosa e intimidadora. O CAEP com seus gorros e escudos, os PMs genéricos com seus jalecos verdes, os motociclistas da ROCAM. Ao final, contei mais de 100 PM pela redondeza. O MPL eram em 10 ou 15.

Chegou o N, do movimento de moradia e conversamos. Ele está bem pessimista e desgostoso com a reação tímida do movimento contra Dória. O mesmo decreto do governador permite que a PM desaloje ocupações sem autorização de juiz. Ele lamentou também a corrente de eventos que levou ao crime de Brumadinho.

O MPL abriu a faixa e dispuseram a pequena catraca dourada que trouxeram. A faixa dizia “Terrorista é o Estado! Contra o Decreto”. Pelo megafone, a moça do MPL passava as mensagens, inclusive apontando que os soldados do CAEP cobriam seu rosto, em franca desobediência ao novo decreto. Também disse que o decreto é anticonstitucional, já que a Carta garante a manifestação sem autorização. Em resposta, as moças e moços do MPL vestiram máscaras de papel do rosto de Dória. Alguns apitos completavam o agito.

Os “mediadores” da PM chegaram ao local mas não falaram com ninguém.

Quando começaram o jogral, a chuva passou a cair realmente forte. Eu tentei me abrigar em baixo das árvores próximas, mas o povo não arredou o pé e ficou lá. O CAEP ficou na chuva, mas os outros PMs acharam abrigos de alguma forma.

Algumas palavras de ordem:

“Chega de polícia, e de político babaca, estou na luta por uma vida sem catraca!”

“Fora ditadória!”

“São 30 anos sem ditadura, e a repressão ainda continua!”

“Ô Dória, fica esperto, o povo vai pras ruas revogar o decreto!”

“Violência é a tarifa!”

O MPL persistiu na chuva e foi tentar negociar a entrega protocolada de documento contra o decreto para a Secretaria. Não foram recebidos. Depois R me contou que o MPL já acionou diversas instâncias para que se manifestem contra a inconstitucionalidade do decreto. O MO conseguiu, parece, sensibilizar a ONU.

Encerraram o ato e levaram a faixa para bloquear a via por breves momentos, e depois subiram para o Largo São Francisco, onde dispersaram.

Fui à Sé para achar o pessoal do MTST mas não vi ninguém. Depois me contaram que eles estiveram sim na Sé, apesar da chuva e subiram para a Paulista, onde parece que a manifestação cresceu e atingiu 10 mil manifestantes.

30 de janeiro de 2019 – Espremido na Batata

Saí da estação Faria Lima do metrô às 17h:45 para o Quarto Ato contra o Aumento da Tarifa. Tinha chovido muito de tarde, e agora a chuva voltava a cair. Vi de cara umas 30 pessoas do MPL ao lado da faixa no chão. A presença policial forte, mas não agressiva naquele momento, como já apareceu logo de começo em outras oportunidades.

A chuva levou todos a buscar abrigo em diferentes lugares, e muitos ficaram para se molhar: estava quente e a partir de certo momento chovia com muito sol, ao mesmo tempo.

Quando a chuva passou e o tempo secou, saímos todos e voltamos à praça. Contei uns 200 jovens, ao redor dos 20-25, com poucos “velhos”. Vi o pessoal do AFRONTE chegando, uma bandeira do POR4. Vi também o pessoal do CMI fazendo seu streaming ao vivo.

Contaram-me que o MPL queria ir até a sede do Sindicato Patronal (SP Urbanuss) e depois à CCR (empresa acionária da Via Quatro, Linha 4 Amarela, e da ViaMobilidade, Linha 5 Lilás). Na CCR, faríamos a entrega do Trófeu Catraca Militarizada para os donos dessa empresa.

O comando da PM, através de seus “mediadores”, tergiversava e dizia que estava consultando o comando para autorizar a saída.

Encontrei o fotógrafo R, R, E, depois A e J, este com seu radiante bronzeado.

Vi também uns 10 funcionários da prefeitura, com jalecos onde se lia Fiscalização”.

Vi uma bandeira do Juntos, uma da UJR, uma camiseta do PSTU, outras da Vanguarda Socialista e também pirulitos de papelão com mensagens como “Dória vai pegar busão”. Na hora de sairmos vi uma solitária bandeira do PT, empunhada por uma senhorinha, e também uma outra “Lula Livre”, desta vez nas mãos de um senhor. Vi uma bandeira vermelha e negra e uma tatuagem da Frente Antifascista.

Nos posicionamos na Faria Lima para um sair, e fizemos um jogral. Contei uns 300 manifestantes. A Fanfarra Clandestina estava conosco e animou o cortejo por todo o trajeto.

Já o contingente policial era grande, como vem sendo o caso com o MPL: tinha os PMs mais genéricos de jaleco verde (60), o CAEP (30) e suas armaduras, e as motos do ROCAM (40).

Chegou o Caveirão e estacionou perto. Dez viaturas se posicionaram atrás da passeata.

Notei que duas equipes de filmagem da PM trabalharam nesse dia, além de um figura à paisana, um jovem de uns 30 anos, de camisa e boné pretos – um P2. Além disso, muitos soldados carregavam aparatos fotográficos e tomavam imagens de pessoas, seja a partir de celulares, de máquinas fotográficas ou de pequenas câmeras afixadas ao capacete ou ao peito. Havia, ainda, “mediadores” de jaleco azul e uns 30 PMs cinzas, com aquele boné que faz duas pontas como o saquinho de pão marrom na padaria. Dentre estes estava o comando da operação.

Saímos do Largo até a rua do Sumidouro e nos enfiamos Pinheiros adentro.

“Se você paga, não deveria, pois o transporte não é mercadoria”.

Conversei com um companheiro autonomista que organiza um evento no Grajaú: um Ato/Show contra o Aumento e Contra os Cortes nas Linhas. Perguntei como ia a luta nas periferias e ele disse que na zona Sul há movimentação, passado o rescaldo eleitoral. Disse que falta trabalhar esses locais, que foram abandonados pelos movimentos, mas que a militância continua lá.

Caminhávamos pelas estreitas ruas residenciais, sempre envelopados pela PM. No caso do MPL, este cercamento é ruim, pois no geral eles não levam faixas acima da cabeça, nem bandeiras ou carro de som. Assim, para quem não vê a faixa de abertura, fica meio difícil de entender o motivo da manifestação. As palavras de ordem notoriamente são difíceis de discernir se você não as conhece de antemão. No passado, parece que o MPL não admitia bandeiras de qualquer tipo, para evitar as tristes disputas por lugares de visibilidade e sequestro de manifestação.

Lembro sempre o enorme comício das Diretas Já na praça da Sé, em 1984. Era uma frente de várias organizações, dentre eles o então pequeno PCdoB. Mas eles chegaram cedo e abriram enorme faixa bem perto do palco. Como um assistente no meio da multidão, odiei a faixa que impedia a visão do palco para mim e um enorme número de pessoas. Mas, depois reparei, em TODAS as fotos deste dia, aparece lá o faixão, dando a impressão de um protagonismo e presença que não necessariamente corresponde aos fatos da época.

A faixa de abertura trazia “R$4,30 não dá!” e a de fechamento “Por uma vida sem catracas”. Nem havia muita gente nas ruas ou nas janelas, mas muitos festejaram a passeata. Outros fechavam a cara, mal-humoradas esfinges. Esse foi o caso da Vila Coqueiro 1, um boteco onde os muitos consumidores seguravam seus copos de cerveja na tarde quente.

“Vem, vem, vem pra rua, vem, contra o aumento!”

Viramos à esquerda na rua Gilberto Sabino e seguimos em direção à Estação Pinheiros do metrô, um importante terminal de transporte.

A fricção com a polícia começava a aparecer. Eles estavam determinados a fisicamente espremer a manifestação. O CAEP, atrás da faixa, pressionava muito.

A meninada:

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”

Paramos em frente ao terminal e fizemos um jogral: “Este é o 4o Ato contra o Aumento da Tarifa”, “Não vamos esperar que políticos e empresários resolvam o nosso problema, só a luta vai mudar nossas vidas e nossa cidade”.

Seguimos pela rua Pais Leme e passamos em frente ao SESC Pinheiros.

“Vem com a gente, com vocês estamos mais seguros!”, pediam os manifestantes.

Mas as pessoas que esperavam em frente ao prédio não se moveram. Algumas sorriam em apoio, mas outras pareciam intimidadas.

Chegamos às esquina da avenida Faria Lima e encontramos o acesso à avenida bloqueado pela polícia. Impasse. Parece ser ainda tática da PM atrasar e cansar a manifestação. A mensagem principal parece ser que a “autorização” para o percurso, aliás divulgado com muita antecedência (os 5 dias), é provisória e depende de decisões pontuais dadas na hora. Fica evidente a falácia de que o aviso prévio se justifica pela necessidade de organizar a cidade. O poder da autorização é usado politicamente.

Ficamos uns dez minutos assim, e a garotada gritando muito:

“Deixa passar, a revolta popular!”

“Ai, aiaiai, aiaiaiaiaiaiai, 4 e 30 é o carai”

“Ai, aiaiai, aiaiaiaiaiaiai, Bolsonaro é o carai!”

O bloqueio afinal foi desfeito e ganhamos a avenida Faria Lima. Mas logo vi um empurra-empurra com a polícia: um oficial da PM segurava e empurrava uma das moças do MPL, que fazia também as negociações do dia. Muita gente em volta, a galera gritando “Sem violência!”. Cheguei perto e vi o momento tenso, muita gente em volta protegendo. Acabaram por soltá-la, mas isso aumentou a temperatura do evento. Entendo que ela protestava contra o uso de força física para espremer a manifestação.

De fato, a partir deste ponto a PM acintosamente encurralou a passeata na avenida vazia, forçando progressivamente a massa a ocupar apenas duas vias. Para isso, usaram as motocicletas que vieram de trás, empurrando pessoas e ameaçando. A coluna de verdinhos, que ladeava parte da passeata, visivelmente tinha ordens de empurrar os corpos manifestantes.

Fiquei do lado de fora e vi isso acontecer por toda a extensão da Faria Lima. Uma policial, de jaleco verde, me chamou muito a atenção. Ela muito empurrava uma moça, menor do que ela, com o cotovelo. Troquei olhares com ela e disse: “Eu estou vendo tudo”. Ela deu ombros e fez um olhar muito cínico e maroto, e fiquei com muita raiva: esse tipo de provocação por parte da PM por vezes justifica a repressão. Nesse dia, não havia mascarados, não havia vandalismo, o trajeto era previamente combinado e estava paz. MESMO ASSIM a PM foi desonesta e escrota. Todos os amigos que ficam em casa e leem o noticiário depois na grande imprensa precisam saber que a violência contra manifestantes é uma ferramenta usual da polícia! Amanhã será você!

O povo não deixou barato. Vi um moço da Fanfarra, com um tambor, barrar o motociclista que vinha intimidando e empurrando as pessoas com seu veículo. O moço ficou irado e fez de seu tambor um escudo, fazendo a percussão ao mesmo tempo que olhava no olho do ROCAM (que aliás, não tinha identificação no uniforme!). Ficaram um tempo assim, a moto arremetendo contra o moço, que se defendia com o batuque. O pessoal da Fanfarra chegou junto e fez uma barreira musical.

Mas no final a polícia conseguiu confinar o povo, e por toda a manifestação continuaram a pressionar e agredir. O povo se deu as mãos e fez um cordão de contenção.

A avenida Faria Lima estava cheia na via que vai a Pinheiros, e tinha muitos ciclistas na ciclovia.

Paramos na esquina da avenida Rebouças e fizemos um jogral.

Eram 20h e passamos em frente ao Shopping Iguatemi (“Ei, burguês, a culpa é de vocês!”). Muitos tinham trazido uma máscara de papel com as efígies de Dória e Covas. Elas parecem estar no limite do que exige a nova lei: as máscaras de papel fino não impedem a identificação nem cobrem a rosto inteiramente – mas é uma máscara… Vi pelo menos um PM exigir que um manifestante tirasse a máscara. Muitos seguravam-na na mão, à frente do rosto.

“Dória, pornô, não anda de metrô!”

“Ô, ô ô, abaixa o preço, demorou formar,o bonde das catraqueiras”.

Pressionados pela PM seguimos pela avenida, passando por vários bares ricos e concessionárias, que foram protegidos pela polícia.

Eu já estava exausto e com o ciático apitando. A meninada em plena forma, muita energia e valentia nessa movida da rua.

Cruzamos a avenida Cidade Jardim e mais adiante viramos à direita na rua Horácio Lafer.

“Ei, Dória, presta atenção, a sua casa vai virar ocupação!”

As ruas agora eram muito estreitas e escuras, ficamos todos – manifestantes e PMs – apertados e trombando uns com os outros. A zona era residencial e pelo um morador veio à janela gritar “Bolsonaro!”.

Apesar disso, o eco era notável:

“Tarifa Zero quando? Tarifa Zero já! Só vai mudar quando o povo controlar!”

Pegamos a direita na rua Cel. Joaquim Ferreira Lobo, e depois viramos à direita na rua Ramos Batista, onde uma filial da Cross Fit foi saudada com o “Ei, burguês, a culpa é de vocês!”.

Entramos à esquerda na rua Helena e chegamos ao primeiro destino do ato: o sindicato patronal. Fizemos um jogral: “Eles ficam cada vez mais ricos. Vamos seguir lutando, pulando as catracas”.

Nessa hora trouxeram uma catraca cênica e atearam fogo a ela. O povo sempre vibra muito e grita “Fogo na catraca!”. A chama de dois metros baixou um pouco antes que um moço pulasse a catraca em chamas. Os fotógrafos em frenesi, tentado obter uma boa imagem do momento.

Eram quase 21h:30 quando seguimos para a avenida Funchal, onde está a sede do CCR. Novo jogral: “Viemos dar um recado”. “O transporte deveria ser público”. “Não aceitaremos pagar cada vez mais para circular cada vez menos!”.

O ato foi encerrado com “Amanhã vai ser maior!”

Busquei o caminho para a Estação Vila Olímpia. Caminhando, achei o moço de chapéu que tinha ficado na ponta da faixa da frente. Ele aturou as motocicletas e depois soldados mal-encarados da PM que ficaram em cima dele, empurrando. Congratulei-o pelo sangue frio e cheguei na estação. Cheguei junto com um grupo de uns 100 manifestantes, e atrás das catracas, encontramos 9 soldados da Polícia Ferroviária, mais três funcionários do metrô. Por vezes, depois da manifestação, rola um “catracaço”, que é o ato de pular a catraca.

Imediatamente o impasse estava formado. Havia quase suficiente massa crítica para a passagem franquada, mas dois dos PFs estavam armados com umas espingardas muito loucas.

Um moço do MPL foi negociar com os policiais, mas nada. Acabou acusando: “Os verdeamarelos vocês deixam passar sem pagar, né?”.

Depois, foram chegando mais policiais, e as moças e moços estavam cercados. Eles eram uns 40 dispostos a tentar o salto. Acho que teria dado no começo, mas alguém ia se machucar muito.

Enquanto o impasse perdurava, os muitos fotógrafos se posicionavam nos lugares mais propícios para registrar a violência. Um deles, um figura forte que já vi peitar PMs em outras ocasiões, exigindo respeito em seu trabalho. Ele discutiu com o gerente da estação que o empurrara para livrar um portãozinho de acesso.

Então no final nada de violento aconteceu. Os moços e moças sentaram-se no chão em frente às catracas e discutiriam o que fazer. A questão no momento me pareceu ser como sair em segurança, já que nada garantia que a PM não fosse detê-los ou assediá-los.

Rolou que uns passaram com seus cartões, e outros saíram da estação.

Segui meu caminho à plataforma da CPTM para alcançar o Terminal Pinheiros, e de lá seguir pelo metrô.

Na plataforma, veio conversar um fotógrafo que esteve conosco hoje e que já vira em outras manifestações. Era um quase senhorzinho afável e brincalhão. Peguei o trem com ele e ainda o metrô. Depois de um tanto numa conversa genérica, perguntei se ele era freelancer ou se trabalhava para alguma empresa. Ele falou que era freelancer e que tinha um blog. Disse que era um canal de youtube, que tinha seu nome CC. Contou que “o pessoal da esquerda não gosta, pois eu fico batendo direto neles”. Tentei fazê-lo falar mais, e lá vai generalidades do “PT quer implantar o comunismo”. “Tem o vídeo onde o Jacques Wagner diz que o PT falhou pois não implantou o comunismo”. Exausto como estava, deixei barato, mas ele foi adiante e a certa altura que “Dilma matou um soldado no Ibirapuera”. Pressionei para saber de onde era essa história, e ele falou que tinha ouvido da mãe do soldado. Argumentei que no inquérito militar que a condenou não consta assassinato de soldado. Perguntei se essa mãe tinha visto a Dilma dar o tiro que matou o filho. Ele disse que não, mas nada disso demoveu o figura de sua certeza.

Compreendi que de nada adiantava tentar esclarecer sobre o passado de Dilma ou do PT. Na primeira oportunidade falei do Queiroz, apontando que ele é mais importante do que o Lula, que está preso.

Ele hesitou e caí pesado de Flávio Bolsonaro e sua ligação com as milícias. Ele negou a princípio, mas insisti que era o COAF que dizia, era a Justiça que apontara irregularidades e indícios de crime. Senti que pegava um ponto fraco e fiquei uns bons 20 minutos descascando a ligação de Flávio com o crime, a condecoração que ele deu ao Adriano do Escritório do Crime etc. Montei no personagem do “patriota contra o crime”, e consegui arengar sobre “ninguém está acima da da lei e que bandido bom é bandido morto, e que esse mimimi de defender bandido acabou e ninguém está acima da da lei”. Consegui apontar o dedo na cara dele e dizer “seja patriota, não seja bandido, não defenda o crime”.

Foi tudo muito pueril (e escroto), isso de achar que ganhei a discussão de um extremista de direita. Mas os flancos abertos pelos escândalos permitem enormes ganhos em termos de tirar a esquerda do lugar do crime onde fomos colocados. Nada disso contribui para a avaliação dos erros e acertos da era Lula, mas é um racha bastante explorável no embate de rua (ou de boteco). Poder sustar um ataque virando a praga contra o rogador me fez enormemente feliz. Até assustei um casal de jovens negros ao nosso lado, pois levantei a voz emulando a ira santa dos coxinhas.

Lavei a alma, ele sentiu o golpe, mas parece que não se ofendeu. Acabou me contando que o Facebook derrubou a página dele (ele não falou exatamente o porque, mas entendi que era por espalhar fake news). Disse que ele perdeu por isso mais de 50 mil fotos e vídeos, 18 anos de trabalho.

Desci no Paraíso e fui para casa.

Peguei o metrô, de pés molhados, e fui para casa.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *