Diário: maratona do MPL (e da polícia…) em SP

Em novo protesto contra aumento dos ônibus, longo périplo pelo centro da cidade, desafiando tática da PM e nova lei repressiva. Assunto onipresente: a primeira crise do governo Bolsonaro

Por Gavin Adams| Fotografias: Rogério de Santis

22 de Janeiro: Eram 17h quando saí do metrô na estação Sé para ir ao Terceiro Ato Contra o Aumento da Tarifa de ônibus em SP, em frente à catedral. Tinha chovido bastante até então, e o grande espaço em frente às catracas estava cheio de gente da rua, se abrigando da água. Vi três PMs também de escudo e capacete lá dentro.

Lá fora, logo vi mais policiais, incluindo os municipais, vestidos de uniforme de selva. De fato eles são, percebi agora, da “Defesa Ambiental”. Cheguei na escadaria e vi pouquinha gente ainda, umas 50 pessoas se abrigando à porta da catedral. Logo vi A e L.

Ia demorar a encher, então dei um giro pelas cercanias para avaliar a presença policial. Está valendo desde segunda-feira a nova lei de procedimentos para a realização de um ato público na rua. Além do endurecimento geral em termos de novos poderes para a polícia (deter mascarados, por exemplo), a nova regulamentação acabou com a diferença entre a autorização e a comunicação do trajeto. A Constituição fala apenas em comunicação, mas o decreto fala em autorização e decisão sobre o trajeto “em conjunto com o comandante” – além do aviso prévio de 5 dias.

Assim, estávamos em novo cenário, desfavorável ao MPL (e manifestações de protesto em geral).

Chequei as ruas ao lado e atrás da catedral, indo até a Praça Clóvis e a sede dos bombeiros. Na garagem destes, vi um caveirão, negro e pesado como uma armadura medieval.

Achei que tinha uns 300 soldados ao redor: uns 200 “verdinhos” de jaleco e mais uns 100 do CAEP, que é também conhecida como a Tropa do Braço.

Notei também uns 15 funcionários da prefeitura, com puídos jalecos laranjas. Estavam, em formação, ao lado de duas kombis, onde se lia “Apoio à remoção”. Tentei figurar qual seria a tarefa deles naquele evento: recolher corpos?

Voltei à escadaria e tinha mais gente, vi que ia crescer. Vi R e M. Vi também que a rotina do fluxo da Sé voltava ao normal depois do aguaceiro: gente da rua, passantes, trabalhadores… O chão estava encharcado, mas voltou a fazer calor no ar relativamente seco. Só os pregadores evangélicos, que nunca estão ausentes, não vi por lá. Tomei como mau augúrio, achando que se furtaram a testemunhar violência policial. Mas tinha gente da rua trançando entre nós, com aquela sua energia anárquica que nem sempre cabe nas pautas dos movimentos, e é louca, lançando uma energia alucinada sobre todos ao redor.

Também a polícia ia aos poucos tomando suas posições, isto é, ia cercando a manifestação por todos os lados.

Vi poucas bandeiras: umas 5 vermelho e negras, uma amarela do PSOL, depois uma verde do Emancipa. As faixas de abertura e fechamento estavam lá, respectivamente, “R$4,30 não dá” e “Por uma vida sem catracas”. Tinham também trazido vários pirulitos de papelão com dizeres como “Contra o aumento”.

Conversei com M. Ele trabalha com medição de fluxo de rede e confirmou uma impressão minha ao acompanhar os comentários de leitores em sites de esquerda e também de direita: desde o caso Queiroz, os bolsominions têm se ausentado da famigerada região abaixo da notícia, a área dos comentários. Mas hoje, notei que eles voltaram com fúria e certo desespero, defendendo ferozmente o clã Bolsonaro. Parece que há um racha importante no consórcio do golpe que elegeu o Coiso. E isso está aparecendo na coxinhosfera: “perseguição, imprensa comunista” bradam os bolsonaristas, mas Kim Kataguiri, Reinaldo Azevedo e O Antagonista repercutem as graves ligações suspeitas noticiadas e exigem explicações de Flávio Bolsonaro. M avalia que esse “delay” entre a baixa de atividade desde Queiroz e agora pode decorrer do impulsionamento artificial de posts.

M também disse que o Facebook derrubou muitas páginas do Bolsonaro durante a campanha, e parece que elas não foram repostas pela equipe do presidente. Mas ainda não está claro para seu grupo, o Monitor, qual o impacto disso na comunicação com seguidores.

Com A, avaliamos o cenário nacional, ainda fervendo com o imbróglio Flávio. Parece claro que os militares são aqueles que mais ganham com o desgaste do clã Bolsonaro. Mourão tem sido, inclusive, muito bem tratado pela imprensona, que o coloca como a “voz da razão” no governo. Acho que isso é verdade, mas eu ponderei que não vai ser fácil tirar o Coiso e manter tudo como estava: Bolsonaro incorporou um grito de protesto da sociedade, e também significa uma rebelião dos baixos clero militar, policial e judicial. Os generais estão distantes da base e podem se ver com uma rebelião policial nacional nas mãos. A esteve recentemente no Espírito Santo e disse que a greve sindical da PM lá tinha os mesmos contornos daquela dos caminhoneiros: muito whatsapp, terror através das fake news etc.

Falamos do pífio discurso do presidente em Davos, 6 minutos de generalidades. Eu ainda não vi, mas todo mundo estava comentando. Há um consenso geral que a viagem dele a Davos foi um fracasso.

A companheira E avaliou que o cenário nacional não ia influenciar o nosso cenário local, pois Dória está numas de aprendiz de ditador e quer se esmerar na repressão.

Mas fiquei pensando no trajeto inteiro sobre o novo cenário. M tinha apontado como essa nova situação do Bolsonaro miliciano e corrupto é muito frustrante para o coxinha médio ou o liberal anti-PT. Desde 2013 tentam emplacar um paladino de direita. Essa frustração pode muito bem virar fúria, e se o MPL estiver na rua, visível e audível… quem sabe?

Dei mais um giro e anotei uma camisa do Juventus, outra do Palmeiras, uma camiseta do Território Livre, outra do MTST (e uma bandeira), uma bandeira do Partido Operário Revolucionário, do PSTU e do CCSP CONLUTAS, um cartaz “Eles lucram com o nosso sufoco”.

A Fanfarra Clandestina estava lá, o que sempre dá um alívio ao coração. O clima no geral estava tenso, mas não apreensivo. As pessoas sorriam e se abraçavam.

Tocaram os sinos das 18h e reparei numa equipe do SBT entrevistando pessoas. A TVT estava lá também. Vi V, R e A, este de longe.

Vi que duas moças tinham capturado um escorpião, que agora transportavam num cartaz de papelão. Levavam-no para longe das pessoas, na direção de uma linha policial. Duas outras moças vieram me perguntar o que eu escrevia e conversamos um pouco sobre a etnografia das manifestações. Encontrei um pai de secundarista, que frequentemente vejo em manifestações. Conversamos.

Perguntei para o pessoal qual era o estado das negociações com a PM e fui informado que o comandante tinha autorizado o plano B do MPL, que era subir a avenida Brigadeiro Luís Antônio até a Paulista. Era o que faríamos.

A atuação da polícia hoje foi menos agressiva, ainda que hostil. Por um lado, ela acintosamente trouxe enorme aparato, se postou ameaçadoramente em redor e colocou duas colunas laterais de soldados com o usual intuito de isolar e intimidar. Além disso, ela conseguiu esvaziar as regiões por onde passamos, no geral, o que tira muito do impacto da manifestação. Mas, depois da chegada na Paulista, que era o ponto final imposto pela PM, a polícia parece ter pedido controle da situação e ficou correndo atrás da galera que se espalhou pelas ruas da cidade, como relato abaixo.

Mas parece que a polícia no geral tenta esvaziar a cidade para que o MPL fique percorrendo um perímetro vazio, uma caixa onde é possível cercar, encurralar e atirar de fora para dentro.

Os três mediadores, de jaleco azul, estavam lá, com sua equipe de filmagem. Uma outra equipe registrava seus vídeos independentemente, como na semana passada.

Fizemos o jogral antes de sair, todos sentados no chão. “Depois da resistência da semana passada”, saíamos de novo nas ruas, e delas “não sairemos até que o aumento seja revogado!”.

Começava a escurecer, e eu sentado na escadaria da catedral, imerso na tarde abafada e suarenta, cercado de jovens militantes, de gente da rua, do batuque com metais da Fanfarra, de muita polícia com suas viaturas de luzes piscantes, do helicóptero fazendo muito barulho – e por cima de tudo isso, a ameaça de violência… Olhei tudo em volta e pensei “que coisas incríveis essa cidade me oferece!”

Saímos pela rua Senador Feijó: “Tarifa zero quando, tarifa zero já! Só vai mudar quando o povo controlar!”. O eco era bonito e aumentava a potência da voz.

Tinha muitos (50) fotógrafos na frente da faixa, registrando a saída. Achei animado e estimei que tinha mais de mil pessoas.

Seguimos pela rua São Francisco para atravessar o viaduto e pegar a rua Brigadeiro Luís Antonio pelo seu pé.

Vi o estandarte do AFRONTE e uma bandeira do FAÌSCA. Vi um grupo de umas 40 pessoas ao redor da bandeira do UJC. VI D, o Sem-Teto N e um outro moço com uma camiseta dos Smiths. Reparei que um grupo de jovens tinha por emblema, na camiseta e na bandeira, uma bonita foice e martelo, num estilo construtivista, tipo Maiakóvski. Continha a palavra “Subversiva”.

“Vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!”

“Dória, seu fascistinha, o povo vai botar você na linha”

“Mãos para o alto, 4 e 30 é um assalto!”

Notei que nos acompanhava um manjadíssimo P2, de óculos e jaleco. Alguns manifestantes tinham máscaras de papel de Dória e Covas, o que dava um certo ar surreal à passeata. Relataram que policiais arrancaram algumas dessas máscaras à força.

Vi um moço com uma bandeira LGBT aos ombros, vi uma faixa “Povo na rua contra o fascismo. #elenão. UJC. PCB”, outra “Estudante Organizado Perigo pro Estado. Resistência Popular Estudantil SP”, uma bandeira do RCC.

Começamos a subir a avenida Brigadeiro Luís Antônio, sempre cercados pelos 50 PMs de cada lado e ainda os CAEPs zanzando à nossa roda.

A faixa de fechamento estava bem apartada da massa de corpos, lá atrás, como é bom fazer. A faixa de trás protege os manifestantes das pressões das viaturas que vêm atrás do povo. Hoje eram umas 7, mais motocicletas. A pressão policial deste tipo quer apressar o passo da passeata e marcar presença bélica. Então os “faixeiros” da retaguarda têm que ser firmes e pacientes, mesmo que toda a ação e batuque estejam metros à frente e eles tenham que se fazer de tartaruga.

A avenida estava meio vazia de veículos, mas muitos passantes nas calçadas. Alguns festejavam, outros fechavam a cara.

Passamos em frente a uma academia, a JustFit. A enorme vitrine deixava ver lá dentro uma bateria de esteiras de corrida, onde umas 10 pessoas corriam ou caminhavam em frente a telas de TV. Nos monitores, o conteúdo do G1: “Sua criança tem brincadeira favorita?”

“Trabalhadora, trabalhador, me diz aí se seu salário aumentou!” – outra palavra de ordem rimada possível somente no falar brasileiro!

Além dessa, a energética “Quem não pula quer tarifa!”, e a atrevida “Ô Dória, mas que vergonha, a tarifa está mais cara que a maconha!”.

Vi uma faixa negra “Resistência Popular – SP”. Vi uma camiseta com o rosto de Allende. A porra do helicóptero ainda sobre nós.

Chegamos ao viaduto da rua 13 de Maio e paramos um pouco. Uma faixa estava pendurada na estrutura viária: “Contra os cortes”. Uns 10 metros adiante da faixa de abertura, uma catraca foi queimada, um fagulhão de uns 2 metros de altura. Os fotógrafos amam este momento, e o evento ígneo foi cercado de umas 70 pessoas ávidas de imagens dramáticas. Uma delas tinha uma camiseta com o rosto do Dr. House.

Um moço pulou as chamas, numa mistura de festa junina e desobediência civil.

Fizemos um jogral: “Vamos queimar todas as catracas, e parar a cidade”.

Seguimos, e encontrei os fotógrafos S e A. S me disse que a polícia está detendo gente da imprensa.

“Lutar, criar, poder popular!”

“Ai, aiaiai, aiaiaiaiaiaiai, Bolsonaro é o carai!”

“Ai, aiaiai, aiaiaiaiaiaiai, 4 e 30 é o carai!”

“Chega de tarifa, e de político babaca, estamos lutando por uma vida sem catraca!”

“Dória, cuzão, não anda de busão!”

Em frente ao Extra, notei que uma moça muito grávida estava entre nós de vestido longo e um cartaz impresso na mão: “R$4,30 não”.

Ao lado, numa igreja cujas grades estavam fechadas, uma faixa trazia: “Bazar da Imaculada”.

Chegamos finalmente à avenida Paulista. O cruzamento estava fechado por motocicletas que faziam um cercadinho direcionando o fluxo para a direita, na direção Consolação. Eu estava na frente do ato e segui com a faixa de abertura, que avançou alguns metros e parou.

Eram 19:45

“Aha, uhu, a Paulista é nossa!”

Admirei o vigor da meninada, ainda tinham gás depois de toda aquela subida, sem dúvida equivalente a uma mini-maratona.

“Quem não pula quer tarifa!”

Aí virou um impasse. Para a PM, o ato acabava ali. De fato, depois de uns 15 minutos imóveis, cercado por barreiras policiais, fizemos um jogral:

“Demonstramos a nossa força. Pararemos as ruas e espalharemos a luta até a vitória final da população”. Eles repetiram o desafio aos “governantes, que peguem um busão lotado, da periferia ao centro, todos os dias por um mês”.

O ato estava oficialmente encerrado, mas o pessoal não foi embora (“Quem dispersa quer tarifa!”). Ficamos parados lá um tempão, com palavras de ordem e cantorias, inclusive a corajosa “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!” – cercados dela!

Ainda: “Sou estudante, não sou ladrão, não vim pra rua pra sair no camburão!”

“Deixa passar, a revolta popular!”

A Paulista estava ainda cheia, muita bicicleta na ciclovia central, e muitos pedestres nas calçadas. Fechávamos a via em direção à Consolação, mas a via direção Paraíso tinha muitos carros e fluía devagar. O impasse mantinha o cruzamento da Brigadeiro fechado, e o fluxo rodoviário pressionava o ato. O bololô geral parecia conter umas duas mil pessoas. A tensão ia aumentando.

Eram 20h e encontrei E, e vimos N que passou e nos apertou a mão.

Depois de 10 minutos, as pessoas foram escorrendo pelos lados das colunas policiais e de repente tinha umas 500 pessoas que continuavam o ato, caminhando livres pela avenida.

“Imagina que delícia, uma vida sem polícia!”

Toda a polícia ficou para trás, empunhando seus escudos e olhando a juventude retomar o asfalto. Achei estranho esse tipo de paralisia, teria sido o pretexto ideal para a PM bater geral. Pode ser falha no comando, pode ser que eles tinham instrução de não barbarizar, não sei. O fato é que saímos cantando pela Paulista, passamos pela FIESP e seu sapo estacionado atrás das grades. Chegamos até o MASP, onde tinha uma atividade com o Boulos, Ferrez, Gin Trajano, Mana Bella e Valdênia Paulino. Estava escuro, mas vi a mesa de som e o Guilherme, cercados de umas 500 pessoas. Vi uma bandeira do PSOL, uma camiseta Lula Livre. Eles nos viram e nos saudaram, e houve aplausos gerais. Mas… não ficamos! O povo seguiu e dobrou à direita na rua Augusta, e descemos em direção ao centro por entre os carros que vinham subindo a rua estreita.

“Ei, Dória, vai tomar no cu!”

“Fora Dória, morra Dória!”

Em muitas janelas tinha gente assistindo, e muitas festejaram. Um homem gritou “bando de vagabundo!” e foi vaiado!

A PM parece que acordou e as 30 motocicletas vieram tocar sirene no cruzamento com a Paulista, atrás da gente. Esperava que descessem a rua ou que atirassem lá de cima, possivelmente bloqueando o acesso à frente por meio de uma travessa, mas nada disso aconteceu.

A impressão foi que a polícia tinha perdido o controle estratégico do tabuleiro e este grupo de pessoas era rápido. E, ao enfiar-se pelo fluxo de carros que vem em sentido contrário, deixa as motocicletas para trás. Também dificultam o uso de projéteis.

A polícia aparecia em algumas travessas, empunhava suas armas mas não atiraram. Os bares da rua cheios. De repente viramos à esquerda na Francisco de Albuquerque, e buscamos a Consolação. Uns malucos pegaram carona no caminhão de lixo que bufava à nossa frente.

Chegamos à avenida Consolação e havia certa presença policial. Eram 20h40. Uma bomba explodiu logo adiante, e o povo seguiu em direção ao centro. Uma tropa de motocicletas veio pressionar, com sirenes e ronco de motores. Mas o povo passou à via que sobe, e impediram o contato com as motocicletas, que tiveram que apenas acompanhar o povo pela via que desce.

Eu tentava acompanhar o passo da moçada. Passamos ao lado do Mackenzie e chegamos ao cruzamento com a rua Maria Antônia. Muita viatura atrás, e o aparato tinha se recomposto. Mas a vantagem da escolha da via era do movimento.

Todo mundo ia correndinho à frente, menos eu! Fui ficando para trás, já exausto de tanta caminhada. Ia seguindo para a Praça da República quando, em frente à boate Love Story (“A casa de todas as casas”), a linha de motocicletas estava de novo pressionando quem vinha mais atrás. Só que o pessoal encarou as motos e fez barreira humana. Isso fez com que a PM soltasse uma bomba de gás, que dispersou o povo, que seguiu adiante. Atravessei a São Luís e vi que a vantagem tática tinha se esvaído: as ruas vazias não ofereciam proteção e os policiais já estavam bem posicionados. Vi um grupo de moças proteger uma colega que passava mal, sentada na calçada.

Eram 20h55. O povo na rua, quase em frente a entrada do metrô. Nessa hora vi um moço correndo muito, de celular na mão, à pé. Ele era perseguido por 5 motocicletas, que acabaram por encurralar o jovem. Ele estava apavorado e chorava muito, pedia socorro ao mesmo tempo que corria no asfalto. Era uma coisa muito Mad Max ou Rollerball, ou mesmo coisa de gangue de bairro.

Pegaram-no e cercaram-no. O povo acorreu e tentou protegê-lo, mas ele ficou ainda um tempão com os PMs. Muita gente confrontando verbalmente a polícia, uma moça com uma constituição na mão. A equipe da PM filmava tudo.

Depois liberaram o moço, mas ele estava alterado e ainda chorava. Disse que estava passando de bicicleta e que tirou o celular para filmar a movimentação quando viu o que se passava. Aí a polícia achou ruim.

Nessa hora vi um moço de celular na mão, gravando a si mesmo e as cenas da rua. Ele estava confortável com a presença da PM, e chegou a conversar com alguns deles. Ele filmava o enquadro do ciclista ao mesmo tempo que falava algo como “veja o que dá não ter movimento organizado. Precisa fazer direito para ninguém se machucar”. Falou com um PM, “Carlos”, e este disse que “o ato acabara na Paulista, até onde tinham autorização, mas as lideranças do movimento não conseguiram evitar que pessoas continuassem adiante e quebrassem a linha policial”. Ele saiu gravando por aí, acho que ele morava perto. Achei ambíguo e difícil descrever a motivação do rapaz.

O grupo que restava, umas 50 pessoas, agora na calçada, decidiu encerrar tudo e dispersar. Eram 21h15 e toda a PM estava vindo encurralar o povo.

As pessoas então combinavam de sair juntas, nunca sozinhas, por segurança. Decidi sair fora e busquei o portão do metrô, que estava parcialmente aberto. Passei para dentro, passei pela barreira e contei 10 seguranças do metrô guardando as catracas.

Tomei a linha vermelha e fui para casa.

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