As ideias perigosas que eles temem

Combate ao marxismo não é delírio, mas medo real de insurgência popular contra tirania. Capitalismo gerou seus coveiros — e, por isso, comunismo é perigoso. História ensina que mesmo fracassos podem ser combustível para novas revoluções

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O combate à ameaça comunista faz parte não apenas do universo bolsonarista, mas de todo projeto reacionário que precisa de um álibi para colocar suas cartas na mesa. Não é à toa que as encruzilhadas históricas onde a luta de classes se acirra são marcadas pelo fato de qualquer espirro de reformismo ou de social-democracia se tornar um potencial berçário de bolchevismos. É esta a maneira com que hoje se expressa um obscurantismo que bebe de referências medievais e ressuscita expressões como “Deus vult” (“Deus quer”, do latim), originária das primeiras Cruzadas do início do último milênio.

Algumas das afiliações do fenômeno bolsonarista, em regra inspiradas por Olavo de Carvalho, costumam falar em conspirações comunistas globais que envolvem desde a ONU ao Greenpeace, passando pelo bilionário George Soros, ONGs e Foro de São Paulo. Seus conceitos de comunismo são bem elásticos, como se pode perceber.

Mas nem tudo é delírio. Ainda que seja improvável a existência de conspiradores marxistas reunidos secretamente em alcovas para definir os rumos do que a malta olavista chama de globalismo, Bolsonaro está mais do que certo em temer a ameaça comunista por uma simples razão: ela, de fato, existe.

Primeiro: ela se faz presente porque precisa estar presente. Principalmente para quem luta pela superação do capitalismo persistir engajado em seus propósitos. A renúncia a este horizonte significa o abraço à utopia de que é possível humanizar o capital, esta sim delirante. Teríamos chegado ao malfadado Fim da História, concepção na qual nem o seu criador, o sociólogo liberal Francis Fukuyama, acredita mais.

Segundo: enquanto existir capitalismo existirá o fantasma do comunismo. Longe de se apresentar como um processo paralelo ao desenvolvimento histórico da economia de mercado, o socialismo científico, inaugurado por Marx e Engels, corresponde a formas que, nascidas das próprias entranhas do capitalismo, as rasgam no alvorecer de um novo mundo. Tudo é transitório e carrega em si o seu contrário, ensina a dialética do filósofo grego Heráclito, que inspirou as pesquisas de Hegel as quais, por sua vez, serviram de base para o materialismo histórico e dialético de Marx. Liquidar de vez e para sempre com os postulados das soluções definitivas e das verdades eternas é dever de todo materialista, ensinam ele e Engels em A Ideologia Alemã. É este tipo de verdade, vista como lei universal da vida econômica e social, que boceja quando se depara com obscenidades como o fato de pouco mais de dois mil bilionários serem mais ricos que as 4,6 bilhões de pessoas mais pobres do planeta, segundo o mais recente relatório da Oxfam. Como, frente a isso, não reconhecer que o comunismo continua sendo uma ameaça, pouco importa se distante ou próxima?

Mas e a União Soviética? Seu fim não seria o recibo de algo que não deu certo? Por que insistir mesmo depois da derrota do modelo de sociedade que representou durante mais de setenta anos, mas que veio a sucumbir diante do triunfo da ordem capitalista?

Por mais que a experiência do socialismo soviético ou do chamado socialismo real tenha padecido num fim melancólico, é importante que tenhamos a compreensão histórica do que é fracassar. É o que propõe Alan Badiou no livro A hipótese comunista quando sugere que olhemos com cuidado para a conclusão de que todas as experiências socialistas, sob o signo desta hipótese, fracassaram.

Esse fracasso seria radical, exigindo o abandono da própria ideia do comunismo? Ou é apenas relativo à via com que foi estabelecida, não sendo a forma mais apropriada para resolver o problema inicial? Sem falar na social-democracia e em seus direitos sociais, hoje tidos por muitos como socialismo embora sejam concessões consolidadas no contexto da Guerra Fria e oriundas do temor de que a classe trabalhadora aderisse à empreitada soviética.

Badiou defende que o fracasso, desde que não provoque o abandono da hipótese, é apenas um trecho indesviável do percurso de sua justificação. Por quantos perrengues históricos o capitalismo e suas representações políticas tiveram que passar desde o florescimento da burguesia, nos séculos XV e XVI, e no transcorrer dos séculos XIX e XX, onde assumiram formas monárquicas, absolutistas, despóticas, republicanas, parlamentares, fascistas, colonialistas e autoritárias até chegarem muito recentemente à sua atual condição: global, hegemônica e qualificada muito corretamente por Badiou como plutocrata e capital-parlamentarista a serviço dos bancos?

No prefácio do livro Chamamento ao povo brasileiro, que reúne textos de Carlos Marighella, Vladimir Safatle retoma a discussão sobre os perigos das conclusões açodadas. Rebatendo as opiniões de que a luta armada contra a ditadura militar brasileira teria sido um erro que descambou inevitavelmente em sua derrota, Safatle afirma ser impensável e imoral descrever dessa forma o exercício legítimo e soberano do direito natural à resistência contra a tirania. Mais: questiona em que posição de onisciência histórica se colocam os que tiram essa conclusão.

Não se pode esquecer que processos históricos são considerados um fracasso até que sejam reivindicados no interior de outras dinâmicas. Nessa esteira, Safatle traz os exemplos da Comuna de Paris, fracassada até reencarnar na vitoriosa Revolução Russa (também impensável sem o fracasso da insurreição de 1905, chamada por Lênin de “ensaio geral”), e da República Romana, superada até ser reeditada na Revolução Francesa. Adicione-se a Revolução Cubana, que não seria possível sem o retumbante fracasso do assalto ao Quartel Moncada seis anos antes, evento a partir do qual o advogado Fidel Castro despontou como liderança revolucionária que colocaria o ditador Fulgêncio Batista para correr em 1959.

Se atualmente vemos um protofascismo que se levanta contra “ameaças comunistas”, finaliza Safatle, é porque tais ameaças não são frutos de um delírio paranoico; elas existem, mas estão no futuro, de modo que o poder atual se dedica a sufocar comunistas antes mesmo de se descobrirem como tal. Quem dera se a esquerda compreendesse as amplitudes de seu horizonte histórico tão bem quanto seus adversários da vez.

O exemplo da Comuna de Paris, em 1871, é a síntese do que pode ser esse horizonte. Uma crônica de autoria incerta da época relata que “pela primeira vez ouvem-se operários trocando opiniões sobre problemas que até agora apenas os filósofos haviam abordado”. A burguesia, relata o cronista, se indaga: “se essa gente fosse livre, o que seria de nós? O que seria deles?”. É em função do capitalismo gerar seus próprios coveiros na figura do proletariado que sua existência está irremediavelmente condenada aos assombros periódicos e regulares da ameaça comunista, encarnando e reencarnando nos becos sem saída de suas crises cíclicas.

Alexis de Tocqueville, ilustre testemunha da Revolução de 1848 na França, toma nota em suas Lembranças: “O espírito da insurreição, com efeito, circulava de uma ponta a outra dessa vasta classe e em cada uma de suas partes, como o sangue de um único corpo; enchia tanto os bairros onde não se combatia com os que serviam de teatro ao combate e penetrava em nossas casas, ao redor, acima e abaixo de nós. Os próprios lugares de que acreditávamos ser os donos formigavam de inimigos domésticos; era como uma atmosfera de guerra civil que envolvia toda Paris e na qual, qualquer fosse o lugar onde se escapasse, era preciso viver”.

É por isso que Bolsonaro está certo em ter medo.

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5 comentários para "As ideias perigosas que eles temem"

  1. Gilmar Pereira de Carvalho disse:

    Estes textos só convencem quem não consegue pensar fora da caixinha,

  2. Gilmar Pereira de Carvalho disse:

    Esquerda é discurso, não prática de vida.

  3. Gilmar Pereira de Carvalho disse:

    Comunismo é ideia! Só isso!
    Capitalismo é a prática utilizada por direita e por esquerda. O ptezinho provou através de lula que discurso é diferente da prática.

  4. Héber Pelágio disse:

    É necessário um elevado grau de dissonância cognitiva para persistir com a crença nas ideia da esquerda depois de todas as provas que a história deu em sentido contrário.

    Importa observar que foi o próprio Karl Marx quem na obra Contribuição à crítica da Economia Política discerniu o cenário em que se formam as condições para um processo de revolução social, descrevendo-o da seguinte forma:

    ‘Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou – o que é apenas a expressão jurídica delas – com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social.’*

    Ora, para qualquer um que tenha vivenciado o período da Guerra Fria, não era difícil perceber que, enquanto os países capitalistas desenvolvidos avançavam, os países socialistas mostravam-se estagnados, tecnologicamente incapazes de acompanhar o seu ritmo de evolução. Ao rejeitar a busca pela maximização do lucro como instrumento de estímulo à inovação, os países socialistas acabaram se condenando à obsolescência. Assim, foram perdendo a chance de incorporar os ganhos de produtividade possibilitados pelo progresso tecnológico. Foi devido a este que os países capitalistas conseguiram proporcionar uma elevação maior do padrão de vida da sua população, mesmo sem perseguir o ideal igualitário. Daí até a “crise final do socialismo” (parafresando mais uma vez as definições do próprio K. Marx), foi uma mera questão de tempo! A China Continental conseguiu evitar um final semelhante ao da antiga U.R.S.S. ao combinar o Estado socialista (com sistema de partido único, sem divisão de poderes) com uma economia capitalista, mas os limites dessa “estranha” combinação ainda precisam ser exaustivamente testados.

    Enquanto que no capitalismo, alguns têm muito, no socialismo, ninguém tem nada! É por esse motivo que o melhor país socialista (Venezuela) ainda é pior do que o pior país capitalista (Haiti).

    Considerando a derrotada ACACHAPANTE que sofreu no mundo depois de promover o maior genocídio da história da humanidade, a esquerda já deveria ter sido extinta do cenário político no mundo inteiro.

    * Reproduzido conforme MARX, K. Prefácio à Contribuição à crítica da Economia Política, organizado por Florestan Fernandes e publicado com o título K. Marx: Teoria e processo histórico da revolução social, In Marx & Engels, Coleção Grandes Cientistas Sociais, História, vol. 36. São Paulo: Ática, 1983. p. 232. Edição comemorativa do centenário de falecimento de Karl Marx

  5. Antonio A. Vieira disse:

    Toda essa luta continia na velha e natural lei do mais forte dentro do inracional. O nosso racional nâo tem cido usado para viabilizar novos caminhos viaveis e duradouros mas sim vem turbinando em momentos a considerada por nos racionas estupidez inracional. Acrecentando o poder de barganha turbinamosa nossa estupidez.

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