Projeto Movimentos lança campanha de financiamento coletivo

Objetivo do coletivo de jovens favelados é alugar a casa que será espaço de formação e mobilização para dialogar com a juventude periférica sobre política de drogas

Reportagem de Luiza Sansão

Eles vêm ocupando espaços que lhes foram historicamente negados para levar aos mais diversos grupos sociais a perspectiva de quem vive as consequências cotidianas de uma política de drogas que somente mata e encarcera pessoas nas periferias. Agora, precisam de ajuda para alugar uma casa que será a sede de seu projeto e é com esse objetivo que os 15 jovens de favelas do coletivo Movimentos lançam a campanha de financiamento coletivo “Nada sobre nós sem nós”.

“A Casa Movimentos vai ser não só um espaço estratégico de ações, como também de formação direta de jovens. Criando narrativas sobre o racismo, direitos humanos e garantia de vida, através da comunicação comunitária, audiovisual e artes”, explica a compositora Jéssica Souto, de 26 anos, integrante e co-fundadora do projeto.

A demanda por uma sede acontece após três anos de trabalho e quase dois anos do lançamento da plataforma #Movimentos: drogas, juventude e favela. “Somente no ano passado falamos com mais de 3 mil jovens, em escolas, pré-vestibulares, cursos, projetos sociais e em cumprimento medida sócio-educativa além de disputar narrativas em congressos nacionais e internacionais, em universidades e tantos outros espaços de debate onde nunca estivemos incluídos”, conta a jovem.

Em 2017, durante lançamento da plataforma, os jovens de favelas que integram o projeto Movimentos. | Foto: Luiza Sansão

Em setembro de 2017, quando entrevistei Jéssica durante o lançamento da plataforma, no Centro de Artes da Maré, ela disse o que, no fim das contas, está no cerne da escolha do slogan da campanha de arrecadação: “A atual política de drogas é pensada por pessoas que não vivem a realidade da favela, mas as consequências sobram pra quem está dentro da favela. E aí, como você constrói uma proposta para uma realidade que você não vive? É fundamental que a favela seja ouvida, que a gente participe desse debate”.

Na ocasião, o coletivo distribuiu sua cartilha sobre drogas, juventude e favela: uma publicação didática na qual esclarecem — com base em pesquisas realizadas ao longo de um ano sob orientação de pesquisadoras do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) e com uma linguagem extremamente acessível — diversas questões e equívocos acerca das substâncias ilícitas, da história da política proibicionista, dos efeitos da política atual sobre a população periférica.

Fragmento da cartilha sobre política de drogas. | Foto: Reprodução plataforma Movimentos

Os objetivos são claros e a causa é nobre. “Devolver para os nossos as informações que sempre nos foram negadas. Desmistificar os temas pelos quais somos mortos e esse combate as substâncias que estão por toda a parte mas só são inimigas na favela. Esse é nosso maior objetivo, porque quando questionamos a maneira como o sistema atua nas favelas e periferias somos capazes de entender o que não queremos e principalmente de dizer o que não tem funcionado”, defende Jéssica.

Os desafios também são muitos, sobretudo na conjuntura política atual, sob um governo que somente aprofunda a criminalização de moradores de periferias e distorce o real significado dos direitos humanos — o que torna ainda mais fundamental o trabalho do coletivo Movimentos.

Jovens do Movimentos em reunião de equipe na favela Parque União, na Maré. | Foto: Arquivo pessoal

 

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