Conheci Santa Dulce dos Pobres

Um encontro inusitado: um vendedor de mata-baratas gringo com uma freira que geria, sem verbas de governos, um hospital na BA — e operava “milagres cotidianos” ao encher a dispensa. Ela será canonizada no domingo pelo papa Francisco

– Seu hospital tem baratas?

– Muito! Não conseguimos acabar com elas – disse a freira pequenina. O hospital brilhava de tão limpo.

– Água e sabão são baratos – ela disse.

Conheci pessoalmente a Irmã Dulce, essa que o Papa Francisco vai canonizar. E fiquei muito impressionado. Já era ateu, de carteirinha. Estava envolvido até o pescoço no lançamento nacional do Matox, um mata-baratas revolucionário da americana Cyanamid Chemical. Pela primeira vez na minha vida ganhara suados US$ 50 mil, de uma vez só. O hospital da irmã Dulce estava na lista dos ícones baianos que entraram no nosso projeto de lançamento do Matox, projeto vencedor inclusive de agências de Public Relations americanas. Viajava pelo país com um cientista brasileiro, de renome mundial, que aparecia nas televisões falando de aedes aegypt e de baratas, para horror das mulheres.

– Mas como é que vou fazer com meus doentes? Coloco-os na rua para vocês pulverizarem o produto? – disse a irmã Dulce, pequenininha, me olhando desconfiada, dentro dos olhos.

– Não irmã, o produto é revolucionário. As baratas comem, vão se sentir mal e morrer em casa.

– Sem pulverizar nada?

– Nada!

– Então pode pôr. Se der certo, podem usar o nome do hospital, o meu nome.

Sabia da luta corajosa que a baixinha vinha travando para manter o hospital andando, sem contar com verbas municipais, estaduais ou federais.

– Olha irmã, esses caras, esses americanos têm muita grana. A Cyanamid é uma das maiores empresas químicas do mundo. Se a senhora quiser, quem sabe posso arranjar uma doação. Pelo menos falar com os caras. A senhora tem alguma coisa contra aparecer na televisão segurando um cheque?

– Olha filho, deixa as coisas como estão. Deus não tem falhado conosco. Ontem eu estava preocupada, sem saber o que comeríamos hoje. Não tinha mais nada na despensa! Pois não é que chegou um fazendeiro e deixou dois sacos de arroz, dois sacos de feijão e um cheque? Sem ninguém pedir. Nem sei o nome. Ele foi embora, nem disse quem era…

Beijei-a e fui eu embora, achando-a uma tonta. Poderia facilmente tomar pelo menos uns US$ 200 mil dos gringos – que achariam um jeito de descontar do imposto de renda deles.

Não dormi direito. Não conseguia esquecer o jeitinho miúdo dela, seus olhos, sua opção pela pobreza. Hoje encho os olhos d’água lembrando da figurinha da Bahia e do Francisco dos Pobres, argentino, lá em Roma, outro valente, outro santo. E continuo ateu de carteirinha. Graças a Deus.  

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Um comentario para "Conheci Santa Dulce dos Pobres"

  1. josé mário ferraz disse:

    Povo é fácil de se enganar. Caridade é burrice. Significa algum analfabeto político se esforçando para aliviar a pressão social sobre os ladrões da política. Lembro-me de ter lido numa revista Veja ou IstoÉ, há cerca de quinze ou mais anos, sobre uma carta de Tereza de Calcutá ao seu confessor na qual reconhecia ter sido inútil o trabalho ao qual dedicou sua vida. Reconhecer o engano tardiamente é melhor do que viver enganado, fazendo papel de bobo. Há no mundo riqueza suficiente para não haver esmoleres. É só uma questão de má distribuição.

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