Amadeu de Queiroz: o romance crítico ao machismo

Pouco conhecido hoje, o escritor retratou formas familiares não convencionais, tão frequentes como repudiadas nos anos 1940, sob a égide dos privilégios de gênero. Na vanguarda do debate moral de então, defendeu o direito ao divórcio

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Amadeu de Queiroz, escritor nascido na cidade de Pouso Alegre/MG, apresenta em suas obras notável sensibilidade histórico-social. O autor permanece pouco conhecido nas comunidades acadêmicas e pelo público leitor em geral, mesmo tendo publicado mais de uma dezena de livros entre as décadas de 1930 e 1950. Tal sensibilidade é percebida através das escolhas das temáticas, dos enredos e da construção das suas personagens. Queiroz tende a abordar, já na fase madura do seu programa literário e historiográfico, problemas pouco comuns e até mesmo delicados para o período em que viveu. Ele explora de maneira perspicaz as contradições sociais observadas tanto em sua própria realidade mais imediata quanto em tempos passados, haja vista a sua produção de romances históricos. O escritor, que possui parentesco com o aclamado escritor português Eça de Queiroz, não era afeito às consagrações literárias do seu tempo, sendo este um dos motivos da sua exclusão do cânone literário nacional. Contudo, os seus livros circularam consideravelmente nas décadas assinaladas, mesmo não havendo reedições dos mesmos, outro elemento importante de consagração. Amadeu de Queiroz não era um total outsider, dado que era conhecedor das tendências intelectuais disponíveis, sendo possível perceber a realização de importantes diálogos, sobretudo, no campo historiográfico. É possível verificar na sua obra a incorporação de temáticas modernistas e regionalistas.

Interessante dizer que o nosso autor fez parte de um importante espaço de sociabilidade da São Paulo dos anos 1940: a Roda da Baruel. A Baruel foi uma conhecida farmácia paulista, onde, além de trabalhar, vemos Amadeu de Queiroz dialogando com nomes importantes do cenário intelectual brasileiro, tais como: Edgar Cavalheiro, Fernando Góes, Mário da Silva Brito, Mário Donato, Maurício Loureiro Gama, Rossine Camargo Guarnieri e Ruth Guimarães. Esta última era muito próxima do escritor, que fora recomendado por Mário de Andrade para instruí-la em seus caminhos pelas letras.    

A obra trabalhada neste ensaio possui a ambição de colocar a literatura a serviço da crítica da moral, sendo o realismo extensivamente movimentado, a ponto de Antonio Candido ter detectado certo exagero por parte de Queiroz. A colocação de Candido deve, no entanto, ser entendida a partir do projeto estético do escritor mineiro, o qual sinalizava que a obra literária deveria ser atravessada pela noção de vivência. De qualquer maneira, Quarteirão do meio, publicado em 1944, oferece luz sobre temas sociais ligados à perspectiva de gênero. A tentativa de abordar as complexidades do problema levou Amadeu de Queiroz a afirmar que o escritor de literatura deve se amparar na experiência. Isso é marcante em seus textos, sendo que em últimos livros ele se converte numa espécie de cronista da vida citadina. Em Quarteirão do meio estamos diante dos costumes que orientavam as relações de gênero junto à constituição das famílias em uma sociedade fortemente pautada por moralismos seculares e, cabe salientar, sobreviventes. 

De certo modo, vemos uma questão atual, sendo possível dialogar com Judith Butler. Porque o gênero e as relações familiares mostram-se fundamentais na construção da subjetividade, apontando para as formas (im)possíveis de inserção na sociedade. O que Amadeu de Queiroz denunciou com a sua literatura foram as normas sociais que atuavam e regulavam a construção social de gênero, sendo possível perceber o que era aceito e o que era interditado naquela sociedade na primeira metade do século XX, algo que, certamente, ainda interpela e informa o mundo contemporâneo em que vivemos.  

A mulher como refém da relação conjugal tradicional

O Quarteirão do meio (1944) inicia-se contando a relação conjugal entre Otília e Florenciano. Segundo a narrativa de Amadeu de Queiroz, estamos diante de um relacionamento arruinado, muito em virtude da personalidade daquele. Florenciano é descrito como alguém que teria sido vitorioso em suas ambições de vida, podendo alcançar fortuna ou posições elevadas, se não tivesse a predisposição de sempre abandonar os seus projetos, apresentando, nesse sentido, uma grande volubilidade. Os seus destinos eram, de uma forma ou de outra, indeterminados. Não existia orientação em suas atitudes, sendo sempre atraído pelo novo. Florenciano não sabia, ainda nesse sentido, se guiar por um caminho racional, muito menos ponderava os próprios atos. Era um sujeito animado pelo impulso, o que gerava complicações não somente para ele, mas para todos ao seu redor. Era indiferente para o que ontem fora seu interesse, deixando-se levar pela imperiosa necessidade da mudança, alterando bruscamente ideias e emoções. Em última instância, poderia ser reconhecido, e Queiroz deixa isso ser entrevisto, como irresponsável e egocêntrico. Foi então, ante uma vida instável, que se pusera a pensar em casamento, sendo a possibilidade de encontrar ordem para suas andanças.

Assim, ele passou a ver no casamento a chance de corrigir-se, sendo que essa postura era totalmente egoica, o que demonstra que essa escolha se apresentava apenas como mais uma obra de experimentação. Em nenhum momento o casamento foi percebido como uma situação em que haveria trocas iguais e companheirismo. Otília, a noiva, fora instrumentalizada para satisfazer as novas necessidades de Florenciano, sempre volúveis. A inconstância do cônjuge não impediu o seu aceite, muito em razão da sua submissão ante os desígnios do pai e mesmo da vida. Dito de outra forma: a nova situação era apenas um pretexto para que ele “aquietasse” a sua vida. Otília era o meio para se chegar a tal resultado. Isso revelava muito acerca da situação conjugal das mulheres naqueles tempos, em que viviam (e reagiam) de acordo com as necessidades dos maridos. Elas eram, e Queiroz queria assinalar isso, objetos de interesse. Não passou pelos horizontes de Florenciano estabelecer uma relação no sentido preciso do termo. Otília acabou sendo mais uma novidade em sua vida, ou seja, não demoraria muito para que ele se enjoasse. Nessa união artificial havia apenas um movimento relacional: o que tornava a cônjuge submissa. E esse comportamento, pela lente do escritor, era uma constante nas relações conjugais disponíveis, sendo a sua narrativa um registro de crítica moral a esse estado de coisas, que em última medida tornava a mulher um ente inferior.1 

Passados cinco anos de casamento, com relativo convívio harmônico, Florenciano já não mais podia repreender o seu espírito irrequieto, investindo contra a monotonia do lar e do trabalho invariável. Pretendia, depois de todo esse tempo, ir contra a continuidade da existência, que fora apenas interrompida pelo nascimento das suas filhas, que de algum modo era aquilo que ainda o segurava na relação. Mas a situação era a seguinte: “Queria deixar a família, a casa, a cidade, ir para longe, para qualquer lugar contanto que fosse outro!” (QUEIROZ, 1944, p.9). Mais do que a personalidade flutuante de Florenciano, Amadeu de Queiroz relatou a situação de vulnerabilidade e a estereotipação das mulheres abandonadas por seus cônjuges em uma sociedade machista como aquela – situada na segunda quadra do século XX. Naquela sociedade, as decisões do marido eram abonadas, enquanto que para a mulher sobrava a culpa acerca do fim do matrimônio. Florenciano “(…) pôs para o lado os deveres de homem, o amor de marido e de pai; esqueceu tudo, até as próprias contingências, atraído pela novidade – a vida agitada e aventurosa que o aguardava na terra desconhecida” (QUEIROZ, 1944, p. 10).

E Otília chorou o abandono e a ingratidão do homem. Ela já não mais esperava pelo seu retorno, apenas o envio de cartas, e junto ao velho pai procurou uma moradia mais barata para viver com a família. Agora ela trazia o fardo de ser uma mulher sozinha no mundo, objeto de preconceito por parte daquela sociedade. Apesar da boa saúde era atordoada pelo trabalho contínuo da casa e se preocupava com as filhas sem pai. É, então, que entra na história Matos, aquele a quem Otília recorria quando o dinheiro do mês encurtava. Ele era, vale mencionar, padrinho de uma das filhas. De todo modo, pensando no moralismo daqueles tempos, Otília não se aproximava totalmente de Matos em razão dele ser um homem solteiro. A questão subterrânea que percorre o primeiro capítulo do livro não é outra que não seja a dependência por parte da mulher social e economicamente. Ela está, na narrativa de Queiroz, impossibilitada de agir em razão das limitações de gênero2 e em razão do moralismo circundante. A sociedade majoritária acusava Otília pelo fim do casamento, dado que o homem sempre tinha razão e sempre saía ileso em situações como aquela, sendo impedida de se aproximar de Matos por puro moralismo, pois não “ficava bem” se relacionar com um solteiro. Quarteirão do meio, inserindo-se em uma longa tradição, faz da literatura uma esfera de crítica aos costumes. Diríamos mais: faz da literatura um espaço de crítica da moral.

A questão que se segue é que essa aproximação entre Otília e Matos resultou em enamoramento. Aqui entra mais uma vez em questão da crítica da moral realizada pelo livro. Quando finalmente Otília passou a ser amada e respeitada em um arco relacional, ela devia prestar contas com a sociedade pelo fato de viver “amasiada”. Um escândalo para a época. A obra de Amadeu de Queiroz, em uma direção oposta ao moralismo ordinário narrado, apresenta-se como “(…) como um manifesto contra o preconceito e a maledicência, uma homenagem à tolerância e ao respeito” (D’ONOFRIO, 2017, p. 60).

O maldizer e o moralismo incrustado na sociedade paulistana da década de 40 não abonava a solteirice de Matos, que também era estigmatizado. O certo, aquilo que era assumido como verdade social, era o casamento, inclusive, religioso. Por mais que Matos gostasse de Otília, a ajudasse com as necessidades domésticas, o amasiamento com ela, sempre guardado em segredo, era uma forma dele mudar o seu status social. “Ama por gosto, por espírito doméstico, porque tem necessidade de estar ao lado de alguém, sem indagar se é ou não correspondido de qualquer maneira, sem se ver, sem tratar de ver os outros” (QUEIROZ, 1944, p. 15). O machismo estrutural atingia o próprio homem, levado a se relacionar conjugalmente, mesmo que a contragosto, para referendar o seu papel de gênero dominante, necessidade de uma lógica de poder absolutamente desigual.    

Juvenal repórter: cronista da moral citadina paulistana

Um dos personagens destacados de O quarteirão do meio (1944) é Juvenal, o repórter. Ele vive no mesmo quarteirão em que Matos e Otília passam a morar. Não tendo renda fixa realiza trabalhos esporádicos como jornalista. Chama a atenção o modo como convive, e descreve, os moradores daquele lugar: ele procura realizar uma crítica da moral citadina de forma “escrachada”. Não por acaso ele costuma escrever sobre esses personagens satélites ao enredo principal do livro, destacando a personalidade destes e seus modos de conduta. Amadeu de Queiroz destaca que ele é um tipo “anti”, ou seja, talhado para se opor a tudo quanto diz respeito a sociedade. Por exemplo: o grego Iakobos. “É um homem bonacheirão, adulador de políticos; mau pagador; falante; sempre metido num terno de brim para todo enxovalhado” (QUEIROZ, 1944, p. 27). Seu método é o de fazer caricaturas das pessoas tentando, então, vislumbrar o seu agir moral. O que se percebe nas anotações de Juvenal repórter é o registro da observação, o que possibilita uma crítica da moral citadina, o que não implica uma tomada de posição quanto ao certo e ao errado, ao aceitável e ao condenável. Ele apenas narra de forma escrachada. Se criava estereótipos era para, em seguida, desconstruí-los moralmente. 

Libório Braga, por exemplo, é um médico desconhecido que vive da venda de remédios. Na narrativa de Juvenal é alguém que almeja se enriquecer à custa do padecimento alheio. “Os anúncios e os reclames estão sempre na altura de Libório, e como Libório, por sua vez, está na altura do consumidor, os anúncios produzem efeito, o povo cai na isca e o negócio prospera” (QUEIROZ, 1944, p. 31). Os seus produtos com maior margem de rendimento eram os ditos fortificantes. Produtos criados para serem manipulados em toda ocasião, independentemente do caso dos pacientes. Era, no fundo, uma grande charlatanice, resultado da mercantilização da saúde pregada por Libório. E tinha, ainda, o “Seu Martins”, típico representante da moral burguesa que se apropriou do serviço público. “Tradicionalista, submete-se aos modernismos, mas protestando calorosamente. Homem cheio de relações e amizades, é muito visitado, visita o bispo, mão perde procissões e acredita na homeopatia” (QUEIROZ, 1944, p. 33). Esse tipo citadino, descrito com grande carga de ironia por parte de Juvenal repórter, se vale da moral corrente para a preservação da ordem, o que, certamente, beneficia o seu status social. De forma mascarada vive abastadamente da aposentadoria e dos juros das apólices, além de negar as próprias filhas em razão delas se parecerem, em termos comportamentais, com a mãe.

Em outra ocasião Juvenal, ao lado de sua esposa Elvira, passaram a criticar as “mulheres chiques” que iam à missa. Que o leitor fique alerta: o repórter é tão escrachado que muitas vezes as suas falas se confundem com um maldizer. É possível dizer que Quarteirão do meio (1944) se vale do recurso da sátira, que desde o barroco tem como princípio gerador o conhecimento da situação real (HANSEN, 1989). O que estava sendo tratado era a questão da aparência e da ostentação. A crítica era ainda mais ácida em razão do catolicismo pregar o despojamento das riquezas. Porém, o que se assistia nas missas paulistanas era algo completamente contrário: fiéis querendo chamar a atenção através do aspecto exterior, elemento de distinção social. Os casos tratados no livro são de sujeitos que não estão ancorados em uma aura moral perfeita e intocável. São pessoas que se fossem avaliadas pelos critérios morais majoritários seriam desqualificadas.

Chega, então, o momento em que Juvenal encontra com Matos, recém-chegado ao quarteirão. Ele não deixou, em todo caso, transparecer nada a respeito da sua vida conjugal, nem escondeu a verdade – não se falou nisso. Matos se preocupava muito com a maledicência social, que rejeitava casais que não se casaram. Juvenal repórter então se pôs a defender aquele casal, mostrando aquela sua postura moral chamada de “anti” por Queiroz. Esse personagem expõe tudo aquilo que rompe com a moral dominante, especialmente de fundo religioso. Em uma discussão com a própria esposa chega a esta conclusão sobre o estado civil de Matos e Otília. “– Não faziam nada nem eram diferentes do que são. O Matos e a mulher não passam de duas pessoas que se gostaram, se juntaram, tiveram filhos, constituíram família e vivem em paz cuidando das obrigações” (QUEIROZ, 1944, p. 48). O que Juvenal retrata é o estado de falsidade moral disponível.

Era um cinismo completo o preconceito contra Otília e Matos, dado que toda a gente daquele quarteirão, sob a lente crítica de Juvenal repórter, “pecava” moralmente. O Martins é o sujeito que “engana Deus, os amigos e a mulher”; o Oliveira, do empório, “faz da mulher de criada, de escrava, e só lhe falta dar pancada”; o Dr. Morais e a sua esposa formam um casal de fachada, vivendo cada um a sua vida sem se relacionarem de fato, o que não impede a criação de uma imagem de família tradicional; o Libório, do remédio, vive com uma mulher que se traveste artificialmente de aristocracia paulistana; o Dr. Pedrosa trai a mulher e, paradoxalmente, a impede de qualquer tipo de ação, desde a mais simples, por conta de ciúmes. A tônica das críticas de Juvenal, corroborando com o enredo do livro, vai no sentido da denúncia da hipocrisia social, como se verifica nos julgamentos ao amasiamento entre Matos e Otília. Para o jornalista, “– Por toda a parte são a mesma coisa, as tais famílias legítimas e respeitadas pela sociedade. E é essa gente que tem a petulância de criticar os que vivem como o Matos” (QUEIROZ, 1944, p. 50). 

Aparência versus realidade

O quarteirão do meio vivia da bisbilhotagem. Os seus moradores faziam do maldizer uma prática corrente. O lugar era, na perspectiva de Amadeu de Queiroz, um microcosmos da sociedade paulistana, toda ela investida de moralismo, estabelecendo verdades gerais capazes de perpetrar estigmas. De todo modo, a “vizinhança, por mais que bisbilhote, não consegue descobrir o que se passa no interior da casa de Matos” (QUEIROZ, 1944, p. 93). Aqueles sujeitos só viam (espiam) a aparência: um homem dedicado para com a família e regido pelo relógio do trabalho. Uma mulher honesta, simpática e cumpridora dos seus afazeres, sem se exibir muito e cristã devota. Duas moças que não se separavam e duas meninas menores que viviam o cotidiano do quarteirão.   

Contudo, não sabendo mais do que essa reprodução de cenas, ficam sem conclusão sobre aquela família. Não podendo adentrar ao interior da casa para se aprofundarem na vida íntima daquelas pessoas limitam-se “(…) ao acontecimento que tem da irregularidade conjugal de Matos – amigado escandalosamente, com a casa cheia de moças, afrontando a moral, faltando ao respeito devido à sociedade” (QUEIROZ, 1944, p. 94). A aparência, na visão dos moradores, era relativamente boa. Por mais que a família de Otília e Matos se esforçasse para alcançar os padrões sociais estabelecidos ela sempre estaria em uma condição inferior, sem a devida orientação moral, fadada, sempre, ao maldizer e ao preconceito. Amadeu de Queiroz desejava com seu livro transcender a moral familiar citadina. A crítica de fundo moralizante ao modelo de família erigido por Matos era da maior hipocrisia. Notem bem a caracterização dada pelo autor para ela: 

Um lar estável, abrigando a paz, o sossego, a igualdade dos dias, a continuidade do trabalho… O esforço medido, resoluto, consciente, para a manutenção da família, e a família, constituída e mantida pela solidariedade comum vivendo com segurança os seus dias, cumprindo o seu destino social (QUEIROZ, 1944, p. 95).

O subterfúgio de se valer de uma falta de caráter moral (cristã) para criticarem a família de Otília e Matos aparecia como um recurso cínico daqueles que eram falhos e não reconheciam. Amadeu de Queiroz fez um verdadeiro elogio à Otília, que representava uma faixa social discriminada naqueles tempos. Ela foi percebida com uma moral elevada, sem se deixar influenciar pelos status sociais, possuindo, então, uma personalidade própria. Se colocando além das mulheres do seu tempo que viviam sob o véu das aparências, mesmo que Queiroz condicione, de algum modo, o raio de ação da sua performance a uma perspectiva de gênero que também apresenta um modo “ideal” de ser para a figura da mulher:

Lar organizado em torno de uma mulher sem tintas nem atavios, sem roupas nem chapéus ridículos, sem receber influências estranhas, honesta e simples por índole, por constituição própria… Mulher que nada tem e nada deseja, praticando o bem sem pensar nele, tão naturalmente como os outros, que sem pensar, praticam tolices e leviandades; boa e digna, não por hábito, por educação ou convicção, mas por natureza, porque nasceu assim, sem revoltas, sem protestos, sem queixumes, porque tudo lhe transcorre segundo a sua alma, a sua consciência e o seu recato (QUEIROZ, 1944, p. 96).

Matos também se posicionava, na narrativa de Queiroz, em um estágio diferenciado da moral ordinária, sobretudo, aquela que denunciava a sua família. Ele foi retratado como um “(…) O homem sem os tormentos da ambição, sem inveja, sem despeitos, sem imaginação, lutando heroicamente por um pouco de conforto doméstico e pelo muito que lhe exige a educação das filhas” (QUEIROZ, 1944, p. 96). Matos é considerado um trabalhador incansável, que não encara a existência como luta, sacrifício ou recompensa, mas como verdadeiro amor – amor esse que extrapolava a dimensão de eros, do desejo conjugal, e se aproximava do amor filia, dado o seu afeto e gratidão para com Otília e a sua proteção integral para com as filhas. “Tudo isso os xeretas do quarteirão poderiam ver em casa do Matos, se os preconceitos e as tolices sociais lhes permitissem transpor-lhe os umbrais” (QUEIROZ, 1944, p. 96). 

Quarteirão do meio é um manifesto ante a hipocrisia moral, capaz de, pelo seu discurso portador de verdade (FOUCAULT, 1996), discriminar segmentos sociais. Que fique bem claro para o leitor: essa crítica de Amadeu de Queiroz, para a época em que foi escrita, era considerada vanguardista. Era um acolhimento a um tipo de minoria, ou melhor dizendo, de um tipo de família não tradicional. Por meio da literatura o escritor pouso-alegrense buscou libertar das amarras do discurso dito verdadeiro, absolutamente moralizante, esse tipo de família estigmatizada, demonstrando que os seus membros possuíam alta valoração e dignidade humana. 

O grande problema para Matos era, naquela altura do campeonato, uma possível volta de Florenciano. Isso o levara a um estado de padecimento, de esgotamento físico e mental. Foi quando teve a ideia de desabafar com Juvenal, pensando que este poderia armar uma investigação visando o paradeiro do “marido oficial” de Otília. Matos foi bastante franco: há anos vinha mudando de endereço em razão dos vizinhos não perdoarem o fato de não ter se casado com Otília. Durante todos esses anos apenas Juvenal lhe inspirava confiança, tanto para saber de todos os detalhes da história quanto para investigar o paradeiro de Florenciano. Nesse contexto, Matos conta, por exemplo, o caso da sua companheira, que é desautorizada socialmente pela moral cristã. Por se confessar com frequência na Igreja, e compartilhar a sua situação com as, em tese, irmãs de fé, ela foi desencorajada continuamente a permanecer na relação com Matos. Mais: foi taxada como imoral. Juvenal não era moralista, muito menos hipócrita, narrando com propriedade qual a verdadeira história de Matos, em que se via a batalha do homem sincero, “(…) que reconhece o próprio erro e deseja repará-lo; a luta com a lei, com a religião e com a sociedade que o hostilizavam na reconstrução de um lar desmoronado; a inutilidade de todas as tentativas para normalizar uma situação conjugal e legitimar uma família” (QUEIROZ, 1944, p. 129). Na perspectiva do repórter, ele estava diante de um homem admirável pela conduta, o avesso do maldizer social projetado junto a sua família, que parecia a ele ser uma grande injustiça. 

Em prol do divórcio

Juvenal, o repórter, aparece, no livro, como aquele personagem que encampa o pensamento do autor. E o certame em questão é a causa do divórcio. Tema delicado à época, na medida em que envolvia questões de moral social, especialmente aquela de fundo cristã. Ser a favor do divórcio, como Amadeu de Queiroz deixava entrever, era ser a favor de uma família não tradicional, o que certamente impactava a ordem estabelecida. O casamento aparecia, como instituição social, como o destino manifesto dos agentes sociais na década de 40 no Brasil, fortalecendo o discurso que se portava como verdade.3  

O jornalista estudara o assunto, lendo posições favoráveis e contrárias ao divórcio. Valendo-se de esclarecimentos próprios, e do bom senso de outros, chegara a conclusão sólida a favor do divórcio, sendo essa solução mais viável para Matos. A questão que se desenvolve é esta: um marido, sem justificativa, abandona o lar. Um lar em agonia é socorrido por outro homem, que o ajuda a se reconstituir com dedicação e amor. A mulher abandonada, assim como as crianças, passa a nutrir um amor recíproco. Nessa situação o mais correto seria a possibilidade de um novo casamento, dado que oferecia direitos aos filhos, apresentação e garantias à família. O ponto de Otília e Matos era exatamente este.

Nesse caso, para acabar com o estigma social, responsável pelos mais diversos tipos de humilhação humana, o casamento teria condições de ser realizado, pondo fim a situação considerada escandalosa para Otília. O problema é que para que isso ocorresse ela deveria comprovar a morte do marido, sendo possível, assim, a legitimação do casamento. Mas a sociedade não auxiliava a mulher que sofreu abandono, e muito menos estava disposta a buscar o paradeiro daquele que desapareceu. A mulher ficava, via de regra, sem saída – presa em uma relação conjugal inexistente e impossibilitada de formar outra família. O que se percebe é, sem dúvidas, o machismo estrutural, na medida em que o homem não sofria nenhuma sanção por seu desamparo a família.4 Além do mais, a mulher era moralmente considerada a culpada pelo declínio do seu lar. A moralidade cristã subjacente não permitia a dissolução, pelo divórcio, de uma família irremediavelmente destruída. E essa moralidade, que se faz presente no Brasil dos anos 1940, se entranha nas disposições jurídicas, corrompendo decisões para o bem comum.

A família é concebida, nesse sentido, como uma instituição natural, e uma vez organizada não pode ser desfeita por capricho jurídico enviesado moralmente. O caso de “mancebia” de Matos, mesmo padecendo ante a crítica moral de uma sociedade hipócrita, mostrava-se como um verdadeiro exemplo de instituição natural e indestrutível que tomara a feição de família. Sendo assim, questionava-se: porque a sociedade negar-lhe-ia legitimidade e garantias? Qual a necessidade, tendo tudo isso em vista, do rótulo do matrimônio? Quer dizer, como frisado por José Sebastião de Oliveira (2004), a elaboração do pensamento acerca do registro familiar e a sua imediata projeção junto a sociedade é um resultado franco da sua direção histórica. Em cada época, e segundo certa ambiência social disponível, a configuração doméstica passa por modificações, destacando, desse modo, a compreensão de que o núcleo familiar é, de fato, uma espécie de organismo que se efetiva de acordo com as disposições culturais e sociais onde está localizado. Desse modo, pode argumentar que era a estrutura social patriarcal ainda vigente, mesmo nos núcleos citadinos mais desenvolvidos, que outorgava a necessidade dessa instituição, o matrimônio, como forma de referendar a união de duas pessoas. Mas esse mesmo raciocínio oferece a oportunidade de se conceber essa instituição social como algo não-natural, mas estabelecida historicamente, abrindo margem, então, para a sua superação.    

Não era simplesmente uma exclusão moral que o casamento não consumado com matrimônio tradicional invocava, mas o que estava verdadeiramente em jogo era uma desclassificação social, chegando ao limite de impactar negativamente os corpos daqueles sujeitos, considerados, no limite, degradados. Matos pedia socorro. Queriam desmanchar uma família que não fora estabelecida por critério ou por ordem de juiz e de padre. Uma família constituída por sujeitos a margem da sociedade, mas que, como ele mesmo dizia, veio a “dar certo” independentemente dos rótulos projetados junto a mesma, dado que se estabelecera pela amizade incondicional, componente para um tipo de amor, em última instância, elevado.  

Referências bibliográficas

D’ONOFRIO, Silvio Cesar Tamaso. O grupo da Baruel e a intelectualidade paulista dos anos 1940. Tese (Doutorado em História Social) – Programa de Pós-graduação em História Social, Universidade de São Paulo, 2017.

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense, 1986.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 1996

HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

OLIVEIRA, João Sebastião de. Aspectos da evolução do conceito de família, sob a perspectiva da sociedade brasileira, nos períodos colonial e imperial, no tocante à ordem social e política. Revista Jurídica Cesumar, v. 4, n. 1. p. 34-53, 2004.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, p. 5-22, 1990.

ZOLIN, Lúcia Osana. Crítica Feminista. In: BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana (org). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 3 ed. Maringá: Eduem, 2009.

Notas

1 Ao lermos a obra Amadeu de Queiroz nos valemos de algumas noções operatórias oferecidas pela crítica feminista, que implicam na investigação “(…) pelo qual tal texto está marcado pela diferença de gênero, num processo de desnudamento que visa despertar o senso crítico e promover mudanças de mentalidades, ou, por outro lado, divulgar posturas críticas por parte dos(as) escritores(as) em relação às convenções sociais que, historicamente, tem aprisionado a mulher e tolhido seus movimentos (ZOLIN, 2009, p. 218). 

2  O gênero é compreendido como “toda e qualquer construção social, simbólica, culturalmente relativa, da masculinidade e da feminilidade. Ele define-se em oposição ao sexo, que se refere à identidade biológica dos indivíduos” (SCOTT, 1990, p. 5).

3 Está análise dos discursos portadores de verdade presentes no livro de Amadeu de Queiroz é amplamente apoiada pela filosofia de Michel Foucault. Em A arqueologia do saber encontramos os motivos suficientes para esse tipo reflexão “(…) gostaria de mostrar que o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intricamento entre um léxico e uma experiência; gostaria de mostrar, por meio de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva. (…) não mais tratar os discursos como conjunto de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse “mais” que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever (FOUCAULT, 1986, p. 56).

4 Essa situação corrobora com o argumento de Níncia Teixeira: “Em última análise, sabe-se que, devido à tradição patriarcal em nossa cultura, a maior parte dos preconceitos ainda recai sobre as mulheres” (TEIXEIRA, 2009, p. 88).

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Um comentario para "Amadeu de Queiroz: o romance crítico ao machismo"

  1. Laercio F. Silva disse:

    Amadeu de Queiroz, menos reconhecimento que o seu merecimento justificava.
    O romance que mais foi exatamente o último (em vida) “A Rajada”

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