Sobre os geopoliticamente inconvenientes

China, Rússia, Bolívia e Irã: não há país sem contradições. Nações antiimperialistas também têm “espoliadores locais” e insatisfações populares. Entendê-las, de forma crítica, é crucial à construção de uma solidariedade internacional

Imagem: STR / AFP / China OUT

Título original: A luta de classes e geopolítica

Por John Clarke, na revista Canadian Dimension | Tradução: Sean Purdy**

Os Estados Unidos são a potência hegemônica mundial, embora essa posição seja menos segura do que costumava ser. Ela domina e explora países em todo o planeta, impondo regimes fantoches onde pode e trabalhando para recuperar o controle quando os países tentam se libertar. Entre seus inimigos, estão a Rússia e a China, considerados “rivais de grande potência”, especialmente a última. Uma série de países menos imperialistas, entre os quais o Canadá, atua como seus cúmplices.

Estes são tempos desafiadores para a ordem mundial dos EUA. A crise financeira e a recessão de 2007-9 foram seguidas por uma década de recuperação lenta e austeridade severa que desencadearam as condições sociais e políticas que produziram a perigosa e errática presidência de Trump. Esse período, com a pandemia e a crise econômica se agravando, viu o prestígio dos Estados Unidos no cenário mundial seriamente manchado. A restauração de Biden é dedicada a restaurar a confiança e o respeito pelo papel de liderança dos Estados Unidos. Há muitos lados nisso, mas nenhum se compara à importância que o novo governo atribui à contenção do poder e da influência crescentes da China.

É difícil imaginar qualquer perspectiva política confiável na esquerda que não seja hostil ao imperialismo liderado pelos EUA. No entanto, há mais a ser considerado do que o mapa geopolítico e as ações dos governos. Vivemos em um mundo em que a classe trabalhadora enfrenta exploração e opressão e em que vai às ruas para desafiar essas condições. Essas lutas estouram em todo o planeta e a questão que surge é como devemos nos relacionar com a resistência da classe trabalhadora em países com governos que o Departamento de Estado dos EUA tem com alvos.

Há alguns na esquerda que se concentram no lado geopolítico das coisas e veem os países do mundo em termos de um campo liderado pelos EUA e um campo antiimperialista. O problema com essa concepção “campista” é que ela tem uma visão bastante indulgente dos regimes opressores, desde que estejam em desacordo com Washington. Pior ainda, as lutas da classe trabalhadora em tais países são vistas como decididamente inconvenientes e totalmente suspeitas. Por mais sérias que sejam as queixas envolvidas ou quão significativa seja a base de apoio que se mobiliza por trás delas, aqueles que vão às ruas serão apresentados como ingênuos do Ocidente. O Grayzone é um representante pouco sutil dessa abordagem. Um milhão de pessoas podem encher as ruas para exigir direitos democráticos, mas este site apontará alegremente para algum pequeno grupo acenando com a bandeira dos Estados Unidos como prova de que tudo não passa de um complô do National Endowment for Democracy.

Exploradores locais

Os países que Washington pretende controlar ainda são sociedades divididas em classes, com capitalistas e governos locais que atendem aos interesses desses exploradores. Os trabalhadores e as comunidades resistirão à exploração que enfrentam e à repressão que é desencadeada quando o fazem. Eles não veem como a resistência a empregadores que lhes roubaram seus salários ou a um governo que impôs um imposto prejudicial sobre uma necessidade básica estaria servindo aos interesses do imperialismo dos EUA.

Que tais queixas existam em países com regimes políticos que os EUA denunciam é realmente impossível de negar. O enorme crescimento econômico da China nas últimas décadas envolveu a criação de um nível de desigualdade de riqueza que rivaliza com o do Ocidente. No ano passado, havia 389 bilionários na China, o segundo maior número do mundo e sua riqueza combinada era de US$ 1,2 trilhão, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Já em 2011, 90% das 1.000 pessoas mais ricas da China eram membros ou funcionários do Partido Comunista, que havia aberto suas portas aos capitalistas dez anos antes. Essa riqueza foi gerada com a criação de uma usina de manufatura dentro da cadeia de fornecimento global da era neoliberal. Uma classe trabalhadora que inclui milhões de migrantes rurais criou vastos lucros para investidores estrangeiros e capitalistas chineses. Em 2017, a notória Foxconn era o maior empregador do país e as condições desoladoras em seus locais de trabalho deram origem a um fenômeno infame conhecido como “suicídio da Foxconn”.

A classe trabalhadora chinesa é a maior do mundo e está repleta de descontentamento. Greves, protestos e distúrbios mais extremos estouram o tempo todo. Um relato de uma tentativa de formar um sindicato de trabalhadores em Shenzhen, em 2018, revela o conluio entre os patrões e a polícia. “Quando o chefe diz que estamos causando problemas, vocês, os policiais, confiam neles e correm para a fábrica, nos espancam e nos levam para a delegacia… Aos seus olhos, somos como pequenos insetos esperando para serem pisados,” declarou um dos trabalhadores.

A Rússia, por sua vez, é a mais desigual das principais economias do mundo, após o processo de privatização altamente corrupto que se seguiu ao colapso da União Soviética. Há greves em andamento em todo o país e “o principal motivo da greve ou protesto dos trabalhadores é o não pagamento de salários”. Se considerarmos o caso do Irã, certamente um país que Washington procura dominar, há desafios constantes para os empregadores exploradores e a repressão estatal brutal. Sem dúvida, as sanções dos EUA agravam maciçamente as dificuldades econômicas, mas, quando “trabalhadores municipais, mineiros de carvão, fabricantes de máquinas e enfermeiras… participam de manifestações de protesto” sobre salários não pagos em todo o Irã, como fizeram no ano passado, não podemos considerar sua luta como geopoliticamente inconveniente.

Celebramos a derrota do regime golpista na Bolívia e o retorno do MAS ao poder. No entanto, mesmo onde apoiamos uma liderança política, não devemos presumir que a classe trabalhadora não tenham queixas ou o direito de apresentá-las. Em 2016, quando Evo Morales ainda era presidente, os deficientes físicos dirigiram-se à capital para pedir uma pensão básica. Vergonhosamente, a tropa de choque atacou os manifestantes com uma brutalidade chocante. Morales precisava ser desafiado por sua recusa em se encontrar com os deficientes ou responder às suas justas demandas. Quando publiquei informações sobre esse incidente nas redes sociais, várias pessoas acusaram os manifestantes deficientes de serem fantoches de Washington. Isso reflete uma perspectiva política profundamente desorientada.

Internacionalismo

Como, então, podemos desenvolver uma abordagem para a solidariedade internacional que apoie as lutas da classe trabalhadora em todo o mundo, sem dar conforto aos nossos inimigos em Washington e Ottawa? Eu sugeriria quatro considerações.

Em primeiro lugar, o principal inimigo está realmente em casa. O campo imperialista liderado pelos EUA é o maior explorador global e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para enfraquecê-lo. Devemos desafiar seus atos de agressão e condenar suas rivalidades internacionais. Quando o governo dos EUA ou do Canadá fingem indignação moral contra o histórico de direitos humanos da China, devemos denunciar sua hipocrisia e apontar seus crimes no cenário mundial. Acredito firmemente que a opressão dos uigures em Xinjiang é muito real, mas o governo Trudeau não está em posição de dar lições à China. Se Trudeau quiser promover os direitos humanos, ele pode garantir que as comunidades indígenas tenham água potável, parar de armar o Estado saudita, que promove torturas e, por falar nisso, tirar as mineradoras canadenses de Xinjiang.

Em segundo lugar, se quisermos desenvolver uma forma clara e consistente de solidariedade internacional, devemos estar prontos para enfrentar as contradições e complicações do contexto global em que ocorrem as lutas da classe trabalhadora. Não há dúvida de que Washington tenta se infiltrar e influenciar os movimentos de resistência que eclodem nos seus países inimigos. Também é bem verdade que os surtos de resistência que surgem frequentemente estão cheios de contradições. Se os trabalhadores ocuparem as ruas para desafiar os abusos do governo no Irã, as forças políticas pró-Ocidente estarão procurando por vagas. Em Hong Kong, ocorreram grandes ações envolvendo grande parte da população. As pessoas entendem que o inferno neoliberal que Pequim e os capitalistas locais estão impondo a eles não pode ser enfrentado sem defender e estender os direitos democráticos, mas a presença de uma corrente reacionária dentro do movimento, apoiada por líderes políticos ocidentais e meios de comunicação, está além de disputa. Tudo isso representa perigos reais, mas dificilmente ajuda quando ativistas de esquerda em Hong Kong, tentando vincular sua luta à resistência à ordem neoliberal, são denunciados como idiotas úteis de Washington pelos chamados anti-imperialistas no Ocidente.

Em terceiro lugar, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para apoiar a resistência da classe trabalhadora e desenvolver um verdadeiro sentido de solidariedade global. A luta de classes não pode ser uma interferência indesejada em nossas preocupações geopolíticas. Se os trabalhadores da Foxconn na China fizerem uma greve contra a exploração que enfrentam, precisamos promover o conhecimento de suas lutas e transmitir nosso mais profundo respeito e solidariedade – não dizer a eles para retomarem um lugar submisso na cadeia de abastecimento global pelo bem do “anti-imperialismo”. Quando os trabalhadores iranianos tomam as ruas, devemos comemorar de forma semelhante as suas lutas, enquanto desafiamos e denunciamos as declaracões hipócritas de apoio dos governos dos Estados Unidos ou Canadá.

Finalmente, precisamos entender que a crise desencadeada pela pandemia e suas consequências irão desencadear lutas enormes e explosivas em uma escala verdadeiramente internacional. Em tal contexto, construir um sentimento muito mais forte de solidariedade global será essencial e não podemos tolerar a má-fé campista. A luta de classes será travada e deve ser totalmente apoiada em todos os lugares do planeta.

*John Clarke é escritor e organizador aposentado da Ontario Coalition Against Poverty (OCAP). Siga seus tweets em @JohnOCAP e seu blog: johnclarkeblog.com. Esse artigo foi publicado originalmente na revista Canadian Dimension (www.canadiandimension.com), 19 de março de 2021.

** Sean Purdy é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).

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2 comentários para "Sobre os geopoliticamente inconvenientes"

  1. Leitor de jornal burguês disse:

    Onde estão as referências do artigo?

    Ah, tradução de Sean Purdy… Já era de se imaginar.

    Velhas denúncias reproduzidas nos principais jornalões burgueses do mundo. Tenham vergonha na cara e vamos fazer crítica séria aos países indicados no texto. Tenham vergonha na cara!

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