Por que os EUA traíram a guerrilha curda

Autonomistas e igualitárias, brigadas do YPG foram essenciais contra o Estado Islâmico. Agora, são entregues por Trump à Turquia. Movimento favorece o terror, conturba a Síria e sugere: quando não controla, Washington prefere devastar

Por Patrick Cockburn, no Counterpunch | Tradução: Gabriela Leite

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“Nunca entre num poço com uma corda norte-americana” diz o ditado que tem se espalhado pelo Oriente Médio, como resposta ao abandono, pelos EUA, de seus aliados curdos na Síria, às forças invasoras da Turquia. As pessoas que vivem na região, de maneira geral, têm uma atitude cínica em relação à lealdade de grandes potências a seus amigos locais, mas mesmo elas ficaram chocadas com a velocidade e crueldade com que Donald Trump abriu campo para o ataque turco.

De acordo com a ONU e grupos de direitos humanos, dezenas de milhares de refugiados curdos estão fugindo de suas cidades na fronteira e estão sendo alvo dos ataques aéreos e artilharia turca. A maior parte dos governantes que são complacentes com a limpeza étnica estão em silêncio sobre esses acontecimentos, mas Erdogan, o presidente da Turquia, declara abertamente que vai instalar dois milhões de refugiados árabes sírios de outras partes do país nas terras curdas (ele diz que descobriu que aquela terra na verdade não pertence aos curdos).

Cada envio de notícias desta nova zona de guerra é cheio de ironias. Trump diz que a Turquia será responsável por custodiar os milhares de terroristas do Estado Islâmico (Isis), que eram mantidos presos pela guerrilha das Unidades de Proteção Popular (YPG) curdas. Mas Brett McGurk, ex-conselheiro presidencial para a coalizão anti-Estado Islãmico — e a fonte para o ditado sobre a falta de confiabilidade da corda dos EUA — nota que, no passado, foi a Turquia quem rejeitou “qualquer cooperação séria a respeito o Estado Islâmico, mesmo quando 40 mil combatentes estrangeiros utilizaram seu território para penetrar na Síria”.

Há outras ironias por vir. Mais ou menos no mesmo momento em que o exército turco cruzava a fronteira síria para atacar as unidades do YPG, na quarta-feira (9/10), essas forças curdas estavam sob ataque de um inimigo diferente: na ex-capital de facto do Estado Islâmico, Raqqa, dois terroristas com rifles automáticos, granadas e cintos explosivos abriram fogo contra a YPG, que havia controlado a cidade desde que a capturara do Isis em 2017, ao custo de 11 mil vidas.

Nessa ocasião, os dois membros do Isis estavam cercados pelo YPG, que ao final saiu por cima. Mas no futuro, seus soldados — é absurdo chamá-los apenas de guerrilheiros, já que são alguns dos soldados com mais experiência no Oriente Médio — enfrentarão uma tarefa mais difícil. Além de lutar contra o Isis ao nível terrestre, terão que ficar atentoa ao céu, à espera de ataques aéreos turcos que já começaram a acertar unidades de YPG ao norte de Raqqa. Inevitavelmente, partes do antigo califado vão em breve começar a voltar ao comando do Estado Islâmico.

O ressurgimento do Isis e o destino de milhares de seus prisioneiros, mantidos pelo YPG, tem sido o foco de muitas especulações autocentradas nos EUA e Europa. Mas essa é apenas uma das consequências do caos trazido pela invasão turca; não haverá substituição do controle curdo-americano pelo controle turco.

Nessa área enorme — 25% da Síria que está a leste do rio Eufrates — a Turquia será um grande ator, porém não será toda-poderosa. Pode tentar traçar seu caminho através do nordeste da Síria, utilizando uma tática salame, uma fatia por vez, apesar de que isso ainda vai gerar um grande impacto sobre os curdos, já que 500 mil deles moram próximos à fronteira. Na realidade, a fronteira entre os turcos e os curdos vai simplesmente ser empurrada para o sul, e será uma oferta muito mais quente do que era antes.

Em outras palavras, o resultado inevitável do sinal verde do presidente Trump à ação turca — neste caso, a ausência de sinal vermelho teve o mesmo efeito — significa fragmentação de poder. Essa fragmentação vai limpar o caminho para a criação de um Isis renovado, e o ataque em Raqqa, mencionado acima, é a evidência de que esse renascimento já começou.

Outra característica da crise atual favorece o Isis e forças paramilitares como a al-Qaeda a agirem como representantes da Turquia. Os mapas que mostram o nordeste da Síria como “controlados pelos curdos” mascaram o fato de que há um razoável equilíbrio demográfico entre árabes e curdos na região. Rivalidade e ódio étnicos são a essência de políticas locais, e se tornarão ainda mais venenosos e decisivos, à medida em que as comunidades tiverem que escolher entre turcos e curdos. É esse tipo de terreno político fragmentado em que Isis e Al-Qaeda tradicionalmente florescem.

O equilíbrio de poder na Síria foi transformado pela invasão turca e pela falta de vontade ou incapacidade de interrompê-la. Trump deixou claro que quer cair fora da guerra da Síria. “Os EUA nunca deveriam ter entrado no Oriente Médio”, o presidente tuitou essa semana. “Essas guerras estúpidas e infindáveis, para nós, estão chegando ao fim.” Apesar disso, o mundo tem sido curiosamente lento para levar a sério esse isolacionismo e aversão a ações militares.

No que diz respeito à Síria, a política — apesar de que é tão incoerente que está mais para um conjunto de atitudes — de Trump pode ser traiçoeira com os curdos, mas contém um tantinho de realismo sem coração.

A posição dos EUA na Síria é fraca, e não é realmente sustentável a longo prazo. Forças norte-americanas mínimas não poderiam sustentar indefinidamente um Estado curdo de facto, espremido entre uma hostil Turquia ao norte e um governo sírio quase igualmente hostil ao sul e ao oeste.

O establishment da política externa dos EUA pode estar horrorizado com Trump, que abriu mão dos curdos, e interessado em que, ao invés disso, confronte a Rússia e o presidente Bashar al-Assad, da Síria. Mas isso só poderia ter sido feito com um comprometimento militar e político muito maior dos EUA — algo que nem o congresso nem os cidadãos norte-americanos desejam.

McGurk provavelmente está correto em acreditar que as vendas de cordas norte-americanas, como maneira de escapar de poços profundos, cairão muito no Oriente Médio, a partir de agora. Aos olhos do resto do mundo, os EUA sofreram uma derrota na Síria. A imagem de comboios de curdos aterrorizados em fuga lembra as fotos de vietnamitas desesperados, que haviam trabalhado tão intimamente com norte-americanos, tentando escapar de Saigon, em 1975.

Os cursos sempre foram secretamente cínicos em relação a sua aliança com os EUA, mas acreditavam não ter outra opção. Mesmo assim, não esperavam ser descartados tão total e abruptamente.

Ainda assim, pode ser que a crueldade e injustiça das ações norte-americanas, e o furor que isso provocou nos EUA e internacionalmente, façam algum bem aos curdos sírios. Certamente, a raiva expressada por todo lado está em grande contraste ao desinteresse nacional de quando a Turquia assumiu e fez uma limpeza étnica do pequeno enclave curdo de Afrin, no noroeste da síria, ano passado. 

Mas há uma lição mais ampla que temos que aprender com a última fase da crise síria. Por um momento, pareceu que a violência estava decaindo, à medida em que apareceram os vencedores e perdedores. Mas agora todo um novo ciclo da violência turco-curda está começando. Apenas quando todos os múltiplos conflitos na Síria forem levados ao fim, o país vai cessar de gerar novas crises. 

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2 comentários para "Por que os EUA traíram a guerrilha curda"

  1. josé mário ferraz disse:

    É … Marx estava cheio de razão quando disse que os filósofos se limitam a analisar o mundo quando o de que se necessita é transformar o mundo. Absolutamente nada justifica jovenzinhos em armas. Se os jovens não devem ser orientados para a violência, muito menos as jovens porque entre as funções da fêmea está a maternidade responsável.

  2. Carlos Fuser disse:

    O comentarista se absteve de comentar sobre as políticas da Rússia e do Irã. Além do mais, a expressão “limpeza étnica” é um eufemismo para “massacre de civis” totalmente desnecessário.

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