Resenha Semanal

21 a 28 de junho 2019. As diversas conspirações se intensificam: a Vaza Jato tem dia de ouro no Congresso, a Lava Jato retalia com falso bloqueio de bens de Lula, o STF de novo quer passar adiante a responsabilidade que lhe cabe.

Temer hackeou Moro! A semana iniciou com latinório de bacharel: Sérgio Moro encarnou o espírito mesoclítico do ex-Vampirão para citar Horácio em latim: “a montanha pariu um ridículo rato”. Isto é, para Moro, as gravíssimas violações da Vaza Jato seriam apenas indiscrições que, segundo ele, “são conversas normais” entre juiz e procurador que não configuram crime.

23 de junho

Minhas promessas de não ficar prisioneiro da pauta institucional fracassaram parcialmente, pois o conta-gotas do Intercept e o julgamento do Lula no Supremo Tribunal Federal dominaram a semana. Uma voz dentro de mim avisa que substituir o pai maligno (Bolsonaro) pelo pai benigno (Glenn) não constitui luta, mas no momento parece que torcer acorrentado à poltrona do teatro é tudo o que consigo fazer…

A ardente vontade de ver uma bala de prata (metafórica) explodir no peito de Moro faz das revelações até agora publicadas um tanto desapontadoras, mas a promessa é que vem aí muito mais, com vídeos e áudios. É ruim estar na plateia assim, esperando um salvador com sua espada de fogo que faça uma luta que é nossa. Ademais, mesmo se Moro cair, os problemas continuam para a esquerda: imaginar o futuro, construir as ferramentas para chegar lá, dialogar com a sociedade, se renovar por dentro…

24 de junho

Repercute a notícia que Moro gravou uma desculpa (“escusas”) ao MBL, a quem chamara, nos diálogos vazados, de “tontos”. Por um lado Moro diz que os vazamentos foram adulterados, mas por outro pede desculpas no caso de ter dito o que não lembra ter dito… bizarro e revelador.

O ministro tem realizado uma “defesa escalonada” ao dizer que os vazamentos “não são autênticos, se são autênticos não importa, se importa não era ilícito, se são ilícitos não importa porque era em nome do combate a corrupção”. É tudo tão óbvio e abertamente ilegal, mas o silêncio da certa imprensa e da direita é ensurdecedor: ainda não há força ou consenso suficiente para derrubá-lo ou restaurar alguma legalidade, a despeito das violações.

24 de junho

Análises de conjuntura ainda tentam acompanhar as muitas conspirações em andamento: o presidente se isola em seu núcleo central, sai fortalecido com a relativa queda de Moro, mas parece que prepara uma situação de impasse institucional, pois não governa o país nem faz alianças para viabilizar algo que não seja reorganizar as agências de inteligências e tentar armar a população (isto é, suas milícias). Parece que vai tentar uma saída à la Jânio Quadros – crise, renúncia e volta nos braços do povo que seria mobilizado pela internet, daí inaugurando um novo pacto autoritário. M acha pouco provável que haja golpe, já que os militares foram alijados do governo, a direita em geral fragmentou e mesmo a imprensa está dividida (vide a capa da Veja “DesMOROnando”). Até Davi Alocumbre, presidente do Senado, disse que “se Moro fosse político, estaria afastado ou preso”. M avalia que a conspiração mais forte no momento é conduzida por Dória: autoritário mas “gestor”, um anti-petista e anti-movimento social que saberia impor um “liberalismo com mão de ferro”, posicionando-se entre Bolsonaro e Alckmin.

25 de junho

No governo de São Paulo, Dória já está exercitando localmente essa política defechamento seletivo que pretende acionar nacionalmente: Preta Ferreira e mais três ativistas Sidney, Ednalva e Angélica, da Ocupação Nove de Julho, foram presos hoje. As acusações são de extorsão e cobrança indevida de aluguel. Outra líder da ocupação, Carmen Silva, já foi acusada e inocentada dos mesmos crimes. As prisões são temporárias e eles foram encaminhadas a penitenciárias para aguardar interrogatório na sexta dia 28. A polícia que fez as prisões foi o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), que trata de formação de quadrilha e terrorismo, não de dano à propriedade etc. A defesa não teve acesso ao processo, e denunciaram mais outras irregularidades. O MSTC e outros movimentos de moradia seguiram para o prédio do Deic em manifestação de apoio. Além deles, também compareceram os cantores Maria Gadú, Ana Cañas e Chico César, que acompanham o trabalho dos movimentos de moradia e costumam participar de eventos promovidos por eles.

Alarme nos movimentos: prisão arbitrária de ativistas da moradia, demissão de Paulo H Amorim de seu programa de domingo, demissão da jornalista de extrema-direita Rachel Sheherazade por pressão de Luciano Hang, próximo ao presidente, e de Marco Antonio Villa, comentarista extremista da Jovem Pan… E agora Lula como a batata quente que o STF não quer segurar. O que será que vem por aí?

Em pleno Bom Dia Brasil, uma ação do coletivo Alvorada abriu a imensa faixa “Lula Livre“; outras faixas reivindicando a liberdade de Lula foram espalhadas pela cidade.

O julgamento dos dois Habeas Corpus de Lula aconteceu, sem transmissão ao vivo, ao mesmo tempo que o depoimento de Glenn Greenwald na Câmara dos Deputados em Brasília. Fortes emoções nesta tarde, pois havia alguma expectativa de que Lula fosse solto ainda hoje, já que os impactos dos vazamentos do Intercept reforçam as teses da defesa de Lula. Teria sido uma revolução Lula sair, e vários generais já tinham ameaçado o Supremo. Está cada vez mais difícil justificar sua prisão, mas o STF não acha a coragem e ainda não há consenso político suficiente para peitar a Lava Jato.

Já Glenn brilhou no Congresso, colocando muito bem a posição do Intercept e relembrando sempre a distinção entre a fonte e quem publica. Ele tem envolvido mais órgãos de imprensa na divulgação dos vazamentos, uma forma de não se isolar e também conseguir processar tanto material. Mas é irônico que a Folha e agora a revista Veja estejam agora no campo da imprensa da verdade.

Moro, por sua vez, foi aos EUA em viagem cuja agenda não foi divulgada previamente. Visitou agências de segurança e espionagem. Comenta-se que ele foi saber se a NSA tinha o material que Glenn tem e também se há algo contra Greenwald que possa ser usado.

Acabou que o STF rejeitou um dos pedidos de habeas corpus apresentados pela defesa de Lula e negou, também, conceder liminar para soltar o ex-presidente; a avaliação de segundo HC, da suspeição do ministro Sergio Moro, ficou para depois do recesso do Judiciário. Talvez alguma revelação muito incontornável mude o placar atual.

26 de junho

Repercute a decisão do STF. Frustração para petistas, mas alguns comentadores dizem que a soltura seria pior para o PT, pois perderia seu discurso de vítima e também galvanizaria o anti-petismo que faria Bolsonaro de novo o herdeiro deste ódio e assim salvar seu governo, agora em franca desagregação. Parece que só as ruas farão mudar o cenário, pois a posição moral ou a urgência técnica da questão não parece ser suficiente. A Lava Jato envolveu gente demais, muita gente foi cúmplice ou ficou em casa, permitindo o avanço do arbítrio – mudar de lado e protestar contra os excessos da Lava Jato é demais para muitos.

A esquerda continua em seu impasse. Precisa defender o indefensável – STF, Congresso etc – para não ser esmagada, mas assim abre mão da visão transformista perante a sociedade. Lula preso trava todo o processo, precisa ter luta interna no PT e resolução de nós políticos.

Repercute o projeto anti-aborto do vereador do MBL Holiday na Câmera de SP. O projeto determina que a mulher que desejar abortar nos casos previstos em lei obrigatoriamente passará por atendimento religioso se ela ou pais dessa mulher apresentarem qualquer forma de ateísmo, mesmo que não tenham solicitado.

27 de junho

Decreto das armas não passa no Congresso e Bolsonaro revoga o decreto com outro decreto… são três decretos seguidos, todos naufragaram.

Fala-se em “parlamentarismo branco”, já que quem conduz as votações relevantes é Rodrigo Maia.

Bomba do dia: militar bolsonarista preso em Sevilha, tendo transportado 39 kg de cocaína em avião da FAB. O bafon foi enorme, já que tal quantidade de droga configura tráfico organizado e não uma empreitada individual. É muito embaraçoso para o ministério da Defesa lidar com esse fato (“mas eu não tenho bola de cristal!” disse o gal. Augusto Heleno), para Moro que foi apenas lacônico, e para Bolsonaro, que agora tem que ver algo criminoso assim estourar debaixo de seu nariz. Durante a campanha, ele prometeu combater implacavelmente o tráfico de drogas… Bolsonaro até tentou capitalizar o fato de hoje, sugerindo que a prisão do militar foi resultado de ação do novo governo, mas suas ligações com o crime ficam explodindo.

Depois do Helicoca, o Aerococa

A Lava Jato retalia a pressão contra ela com o processo contra Lula e o sítio, e também com o falso bloqueio de 78 milhões…

Preta Ferreira e os ativistas da moradia estão presos ainda. Ela mandou uma carta da prisão e teve ato de apoio no centro de São Paulo.

28 de junho

58 metroviário de São Paulo foram demitidos, por participarem da Greve Geral. Dória brinca de ditador e ensaia o palco nacional…

Repercute o isolamento de Bolsonaro na reunião do G20. Nenhum líder importante se encontrou com ele, mas ele fez uma live e falou longamente sobre o valor do nióbio na forma de… bijuteria. Foi uma exposição bizarra sobre as aplicações do metal na forma de joalheria, cujo valor se aproxima daquele do ouro. Que vergonha alheia…!

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