Futebol feminino, um ano após o despontar

Um ano após a Copa da França, um balanço: ao contrário do que se dizia, o futebol feminino tem uma audiência espetacular – o que falta é visibilidade. Exatamente o que lhe traz o blog Dibradoras, criado por torcedoras apaixonadas

Por Inês Castilho

Esta semana fez um ano do início da Copa do Mundo do futebol feminino na França. Em 9 de junho de 2019, o Brasil estreava com uma vitória contra a Jamaica, três gols feitos pela Cristiane contra 0 das adversárias. Foi o primeiro jogo de futebol feminino transmitido em rede nacional aberta pela maior emissora do país. Antes só eram transmitidos às vezes em tevê aberta, pela Bandeirantes, ou em fechada pela SporTV.

O jogo foi assistido por 19,7 milhões de pessoas. Quase metade das tevês brasileiras estavam ligadas naquela partida, que pela primeira vez foi comentada por uma mulher, Ana Thais Matos, na Globo. O número de espectadores só foi inferior ao da final da Copa feminina de 2015, nos EUA, de 25 milhões de espectadores.

Foi o fim do mito de que futebol feminino não dá audiência, que mulher não entende de futebol, não sabe jogar bola. E isso seria só o começo. O jogo contra a Itália foi visto por 22,6 milhões de brasileiros, em horário útil e dia de semana. A maior audiência, contudo, ainda estava por vir. O jogo entre Brasil e França teve 35 milhões de espectadores no Brasil – “maior audiência da história do torneio em todo o planeta”.

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Outro indicador de que há um ano os brasileiros, especialmente as mulheres, despertaram para o futebol feminino foi o número das buscas sobre o assunto no Google. Depois dos três gols de Cristiane que selaram a vitória do Brasil contra a Jamaica, as buscas pelo seu nome aumentaram 80 vezes no Brasil e 78 vezes no mundo. No Instagram, a atleta passou em três dias de 150 mil seguidores para 410 mil fãs. O público feminino foi quem mais comentou a partida nas redes sociais: 54% de mulheres versus 36% de homens. Mesmo sem entrar em campo, Marta foi a jogadora mais citada. Ela marcaria o gol da vitória por 1 a 0 no jogo contra a Itália, tornando-se a maior artilheira da história das Copas do Mundo com 17 gols, um a mais que os do alemão Miroslav Klose. Até esta data, porém, o recorde de Marta ainda não foi reconhecido pela Fifa.

Dibradoras

Só ficamos sabendo de tudo isso graças às Dibradoras, blog criado em 2015 por três torcedoras apaixonadas: Angélica Souza, publicitária palmeirense, Renata Mendonça, jornalista são-paulina, e Roberta Cardoso, a Nina, também jornalista e são-paulina – todas na faixa dos 30 anos –, além da corintiana Nayara Perone, que já não integra o time.

O Dibradoras alcançou mais de 1,1 milhão de pessoas durante o primeiro jogo da Copa e ficou no 10º lugar entre os principais emissores das notícias do certame. As blogueiras consideram que a plataforma ajuda a “romper uma barreira no jornalista esportivo, dando voz às mulheres do esporte (a jogadora, a torcedora, a árbitra, a dirigente, a treinadora, a gestora, a jornalista e por aí vai).”

Uai, mas não é drible que se fala? “Hahahaha, o correto, falando ortograficamente, é drible. É assim que a palavra está identificada no dicionário. Mas, apelando para o futebolês, aquele que é falado na várzea ou nas peladas infantis, o dibre é predominante!”, respondem. Em 2015, o craque Ronaldinho Gaúcho lacrou o termo: “Na velocidade o dibre fica mais bonito”, afirmou no Twitter. De fato.

É também por meio do Dibradoras que ouvimos a voz de uma das torcedoras presentes à manifestação pela democracia no domingo, 31 de maio, na avenida Paulista – duramente reprimida pela polícia. “Agora é importante a mulher estar atuando, a torcedora estar presente pelo momento de democracia e aí então, mostrando que estávamos presentes nessa hora de combate, na linha de frente, depois levaremos a pauta lá pra dentro”, afirmou a torcedora do Corinthians Dadá Ganam.

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Um comentario para "Futebol feminino, um ano após o despontar"

  1. josé mário ferraz disse:

    É o pão e circo fomentado pelos meios de comunicação a mando dos ricos donos do mundo que precisam de uma população imbecilizada que nada vê de estranho notícia de brincadeiras ao lado de notícia de milhares de mortes.

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